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A arte tem o poder divino de resgatar indivíduos.

ADLLA RIJO

Adlla Rijo é escritora, autora de contos como "O dogma feminino" e "Psicanalhismo".

CORINGA: UM PROTAGONISTA VILÃO

O mal pode ser justificado por fatores ambientais e sociais adversos? Uma tentativa de destrinchar um dos mais polêmicos enredos da atualidade que tendem a categorizar como herói um mero vilão.


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[IMAGEM: GOOGLE]

Ao favorecer um manancial de interpretações por meio de uma trama macabra e manchada de sangue por todos os lados, o filme “Coringa”, dirigido por Todd Phillips vem a público ocasionando mais do que uma simples polêmica, uma confusão dos diabos!

Vê-se que o personagem principal do filme, que diga-se de passagem, transforma-se no decorrer da trama, num assustador vilão, suscita posições contraditórias nos espectadores. Não podia ser diferente já que o enredo apresenta-se maculado de equívocos que acabam comprometendo a obra, apesar da brilhante atuação do ator Joaquim Phoenix. Como informa o site “Omelete” apesar de ter recebido o Leão de ouro, principal prêmio do Festival de Veneza, o longa se tornou centro de discussão após alguns críticos afirmarem que ele poderia influenciar espectadores a cometerem atos de violência como válvula de escape para seus problemas psicológicos, da mesma forma como acontece com o protagonista Arthur Fleck / Coringa (Joaquim Phoenix).

Ainda conforme o referido site o cinema de Aurora, no colorado, se negou a exibir a produção, uma vez que o local foi alvo de um ataque em 2012, durante a exibição de Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que deixou 12 mortos e 70 feridos.

Ao ser indagado sobre a polêmica, o diretor Todd Phillips afirmou que o filme traz argumentos sobre amor, trauma e falta de compaixão e que o público seria capaz de entender a mensagem do longa.

De acordo com a sinopse oficial, o filme conta a história de Arthur Fleck, um sujeito que luta para se inserir na tenebrosa sociedade de Gotham (Gotham City - a mesma em que Batman já labutou tanto para extirpar o mal).

A princípio, o espectador visualiza em Arthur Fleck um indivíduo que trabalha como palhaço durante o dia, cuida de sua mãe idosa e enferma nas horas vagas e à noite tenta a sorte como comediante de stand-up. No início, a trama sugere que o protagonista oscila entre a realidade e a loucura. Tornando-se alvo de piadas na vida real, sofre uma série de situações adversas nos ambientes em que circula e acaba tomando uma decisão equivocada (defende-se com excesso de três homens que o agridem verbal e fisicamente, matando-os) que culmina numa reação em cadeia com desdobramentos cada vez mais violentos e letais - matando a própria mãe e diversas pessoas inocentes.

Embora o diretor tenha trazido à tona, com seu discurso, uma proposta de fazer com que os espectadores pudessem compreender os efeitos catastróficos que a falta de amor e de compaixão ocasionam nas pessoas, o fato é que sua intenção poderia ter logrado êxito caso tivesse elaborado melhor o enredo.

Duas questões fervilham nessa narrativa controversa.

A primeira é o contexto em que ela se desenvolve: o protagonista se torna um líder ou herói aclamado por um seguimento daquela sociedade, seguimento composto por indivíduos desfavorecidos e revoltados com a situação política daquela localidade. Pessoas altamente descontentes, que se mascaram de palhaço - a exemplo de Coringa, passam a enaltecer a violência como forma de se opor a um sistema injusto e massacrante. Afora a glorificação da violência, referido quadro não se constituiria num problema a não ser pelo fato de que o tal líder mostra-se claramente um psicopata.

O segundo ponto que precisa ser discutido e analisado é a trajetória de vida e de comportamento do vilão-heróico, assim como o esclarecimento do seu transtorno psíquico: o enredo é obscuro quanto ao distúrbio psicológico do qual o protagonista é portador. Inicialmente, tem-se a ideia de que se trata de uma doença mental provavelmente uma esquizofrenia. Entrementes, no decorrer da narrativa, Arthur Fleck passa a cometer as mais terríveis atrocidades (matando, inclusive, a própria mãe por sufocamento), tendo plena consciência de seus atos - pois não há indicação de que o vilão tenha alucinações ou delírios que o levem à prática das barbaridades. Na segunda fase do filme o vilão encarna não um doente mental, ou seja um louco, mas um psicopata frio e violento.

É evidente que o público leigo não fará essa distinção entre o sujeito doente mental - que no início do filme o ator parece protagonizar, e o tipo psicopata (que se esclareça não traz nenhum doença, mas sim um caráter desprovido de superego, sendo plenamente imputável perante a lei penal). É indiscutivelmente isso o que o protagonista revela na segunda parte da trama, assim como todos os psicopatas: frieza de comportamento; ausência de culpa e de empatia; comportamento enganador e manipulador, emoções razas, impulsividade e controle comportamental pobre. Ademais, apresenta trejeitos e movimentos corporais, forjados numa dança, característicos de um tipo egocêntrico e grandioso. Acrescente-se a isso o sugestivo nome do personagem na 1ª fase do longa, dado por sua mãe, que se chama Feliz (isso por conta de seu riso incontido, para não dizer sarcástico e debochado). A esse propósito, são bastante pertinentes as lições de Robert D. Hare, em sua obra Sem Consciência - O Mundo Perturbador dos Psicopatas que vivem entre nós:

E aqui está o xis da questão: os psicopatas não veem motivo para mudar o próprio comportamento a fim de atender a padrões sociais com os quais eles não concordam. De modo mais elaborado, podemos dizer que os psicopatas geralmente são pessoas satisfeitas consigo mesmas e com seu cenário interior, por mais que pareçam frios ao observador de fora. Eles não veem nada de errado em seu modo de ser, experimentam pouca aflição pessoal e acham o próprio comportamento racional, gratificante e satisfatório, nunca olham para trás com arrependimento, nem para a frente com preocupação. Eles se percebem como seres superiores em um mundo-cão hostil, no qual os outros são concorrentes na luta por poder e recursos.

Ainda na esteira do manto que impede uma melhor visão dos fatos narrados, o seu final traz uma cena que confunde ainda mais: quando Coringa finalmente é preso, em vez de ir para um presídio (como ocorre com todos os criminosos imputáveis) passa a ocupar um estabelecimento com todas as características de um manicômio (um lugar para doentes mentais).

Com tais considerações, o filme acaba expondo uma série de situações (fatores ambientais) que aos olhos dos leigos teriam transformado um homem bondoso e até ingênuo, com uma suposta doença mental (1ª fase do longa), num revolucionário ou herói - capaz de utilizar todos os recursos violentos de que dispõe (2ª fase do longa).

Inaceitável, pois, vitimizar, e em seguidas alçar como herói que legitima a violência, um ser que representa um instrumento do mal. Há uma perfeita diferença entre um doente mental e um psicopata: o primeiro, em razão de uma doença psíquica, pode ser tomado temporariamente pelo mal; ao passo que o segundo é a própria encarnação do mal. Mas parece que o diretor não atentou para esse significativo detalhe.


ADLLA RIJO

Adlla Rijo é escritora, autora de contos como "O dogma feminino" e "Psicanalhismo"..
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