Susiane Canal

Uma incorrigível sonhadora que, ao perder-se nas palavras, busca encontrar um sentido para sua existência.

Para sempre

O filme “Sempre ao seu lado”, baseado em uma história real, retrata a sinceridade, profundidade e durabilidade dos laços mantidos pelos cães com seus donos. Se pararmos para pensar sobre os nossos relacionamentos “humanos”, veremos que talvez perdemos pelo caminho essa pureza, esse amor incondicional, essa dedicação despretensiosa que tais animais mantém. Eles têm grandes lições a nos dar. Basta nos deixarmos tocar.


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O filme “Sempre ao seu Lado” é magnífico. Não há uma pessoa minimamente sensível que, ao assisti-lo, não tenha se emocionado. As um pouco mais entregues, com certeza “se lavaram” chorando. É a história (baseada em fatos reais!) de um cão que todos os dias acompanhava seu dono a uma estação de trem e o esperava, no mesmo local, retornar do trabalho, sendo que, mesmo após o falecimento repentino deste, continuava indo diariamente cumprir seu ritual e ficava parado na praça em frente à estação, com os olhos fixados na esperança de que seu maior amigo aparecesse. Não importava o que as pessoas próximas tentassem para dissuadi-lo, ele estava lá, sempre no mesmo horário, fizesse chuva ou sol. A sua lealdade era maior que tudo. Fez isso até também partir, uma década depois. Em homenagem ao nobre ser que foi, teve construída uma estátua no local. Mas o que faz um filme sobre amor canino tocar mais fundo que outros tantos sobre relacionamentos humanos? O que será que está acontecendo com nós, seres “racionais” (talvez demais)?

Quem sabe estejamos confiando mais na fidelidade animal do que na dos nossos parceiros. Talvez acreditamos mais na estabilidade da afeição do nosso cão do que na dos nossos amigos. Pode ser que a transparência e a sinceridade vistas nos olhos do ser de quatro patas sejam muito maiores do que as existentes em muitas pessoas que nos rodeiam. Talvez esteja na hora de repensarmos nossos valores, pois certamente temos o mesmo potencial de amor que o melhor amigo do homem.

As relações humanas andam um tanto fugazes. Amizades pra vida toda andam difíceis de se ver. “Até que a morte separe” os casais, então, mais raro ainda, com os assombrosos índices de divórcios. O relacionamento com os colegas de trabalho muitas vezes é de pura competitividade. Às vezes, até o convívio familiar é um tanto superficial, e nem entendemos o porquê. Cumprir um compromisso, ainda que tácito, de estar “sempre ao lado” de alguém virou exceção à regra. Nem todos têm o privilégio de relações verdadeiras, profundas e, sobretudo, duradouras. Resistentes às adversidades da vida e às distrações do dia a dia.

Possivelmente, não estejamos dedicando tempo e energia suficientes para as pessoas que nos rodeiam. Ok, nem todas merecem, mas há várias que nos são extremamente importantes, basta pararmos para analisar. Você deixa para dar uma atenção ao seu marido apenas quando o dia está em seus últimos instantes, depois da casa organizada, as crianças dormindo e as atividades do dia seguinte devidamente programadas? Você liga para sua mãe apenas no fim de semana, naquela hora que não tem nada pra fazer e se lembrou (se é que esse momento ocorre)? Você dá um alô àquele amigo de longa data queridíssimo apenas no aniversário dele (e porque o “face” te lembra), e o contato se restringe a um “parabéns, muitos anos de vida”? É, talvez o imprescindível esteja sendo negligenciado...

E afastamento só gera mais afastamento. É claro que se não se entrar em contato com uma pessoa, ainda que querida, por muito tempo, vocês vão acabar por não ter muito assunto em comum. É evidente que se você não se importa sequer em pedir como foi o dia da sua esposa, ela se sentirá desinteressante, de certa forma até rejeitada, e talvez não tenha ânimo para lhe convidar para jantar sábado à noite como havia planejado. E, assim, dia após dia, sem perceber, acabamos perdendo nossos referenciais e ficando apenas com o superficial: amigos virtuais, visitas imaginárias e relacionamentos que podem se desmanchar com o próximo vento que soprar...

Devemos viver e tratar as pessoas como se as relações fossem eternas, porque efetivamente o são, independentemente do seu desfecho. Não podemos tratar o outro como algo passageiro, substituível sem o menor esforço. O que o fizermos (ou deixarmos de fazer), uma hora ou outra nos será cobrado de alguma forma. Todo relacionamento merece ser periodicamente alimentado, tratado com cuidado, como algo realmente precioso.

Já dizia o poeta: o essencial é invisível aos olhos. Não é palpável, nem mensurável. Precisamos, com urgência, nos dar conta do que realmente faz a diferença na nossa vida e que merece o investimento da nossa energia, tempo, dinheiro e atenção, que com certeza não são roupas novas, status nas redes sociais, nem parcerias que só existem enquanto durar algum êxtase. Nossa passagem por este mundo só faz sentido quando tocamos outras vidas e também somos por elas tocados.

Lembre-se sempre do seu cão que, tal qual o do filme, lhe espera ansiosamente todos os dias apenas pelo prazer da sua presença, independentemente da comida que você lhe dá, se lhe leva passear ou se lhe traz um brinquedinho novo de vez em quando. A recorrente festa que ele faz por ter você por perto mostra a pureza do seu ser e a intensidade dos laços afetivos tecidos. Que são para sempre, independente do que ocorrer, não tenha dúvida. E essa é a missão desses seres nas nossas vidas “humanas”: nos despertar para o que realmente vale a pena.


Susiane Canal

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