Susiane Canal

Uma incorrigível sonhadora que, ao perder-se nas palavras, busca encontrar um sentido para sua existência.

SOBRE OS FILHOS DOS OUTROS

É bem fácil intitularmos de incompetentes pais com filhos que, eventualmente, desobedecem ou fazem birra em público. É fácil ditarmos o manual de "como educar um filho corretamente" antes de termos um. Parece tão simples dar uma bronca caprichada, colocar de castigo, impor a autoridade paterna/materna. Contudo, quando vivenciamos a situação, percebemos que é muito mais complexo, que cada criança é uma e que precisamos educar bem, para educar para sempre, e não apenas para afastar uma determinada situação vexatória.


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Antes de termos filhos, quando vemos as crianças dos outros fazendo birra, chorando, teimando, sempre temos uma solução para o problema. Julgamos que os pais não impuseram limites, não estão educando direito, que deveriam castigar (não bater, evidentemente), impor sua autoridade.

Nunca vou esquecer o dia em que estava almoçando na praça de alimentação de um shopping e havia uma mãe e uma criança “problemática” sentadas ao lado. A menina não sossegava, gritava, não parava sentada, etc. Deveria ter uns três anos. As atitudes da mãe para com a situação realmente eram discretas e pouco efetivas. Eu ainda não tinha filhos. Lá pelas tantas, a mãe dela olhou para mim e disse: “eu sei o que você deve estar pensando, ‘se fosse minha filha eu socava’, mas você vai ver quando tiver os seus”. Apenas olhei e dei um sorriso amarelo.

Eu sempre me achei discreta, mas talvez tenha olhado para aquela cena a ponto de a pobre mãe notar. E a coitada desabafou comigo. Na hora não entendi direito o que ela quis dizer. Apenas vi que ela tinha consciência da situação.

Agora que tenho a minha bonequinha que, eventualmente, faz birra, teima, chora e não obedece, entendi completamente aquela mãe. Ela quis dizer que tentamos educar pelo amor e não pelo medo. Que buscamos proteger e não expor. Que pouco adianta gritar, “chacoalhar” ou segurar à força sentado na cadeira. E não nos importamos muito com o que os outros vão achar, nem se vão nos julgar ineficientes na função. O dia em que eles tiverem um filho – e desde que tenham um mínimo de sensibilidade e bom senso –, entenderão.

Não temos coragem de adotar medidas drásticas com aquele anjinho que colocamos no mundo e que a maior parte do tempo é amoroso e “dentro dos padrões”. Ainda mais havendo formas mais eficientes, ainda que a longo prazo, de educar. Não queremos ser duros e implacáveis, disputar o comando, criar medo nos pequenos.

Queremos que entendam, que cresçam seres humanos íntegros, sensíveis e conscientes, e não pessoas que vão disputar tudo na vida à base da imposição do medo, da força e do não considerar a vontade e a situação do outro.

E não importa o que essa postura venha a nos custar. Colocamos limites da forma que entendemos a melhor e não estamos sendo omissos, bem pelo contrário, estamos escolhendo o caminho mais complexo, o que exige planejar as ações, ter um objetivo, pensar no futuro. Sair berrando e usando de força com certeza é mais fácil e rápido, mas pode vir a ser desastroso para os pequenos.

Que falem, cometem, julguem, entendemos a limitada visão de algumas pessoas, porque já a tivemos também. Mas não deixaremos de tratar nossos filhos de acordo com a nossa nata intuição e pelo caminho do amor , porque sabemos que a sementinha plantada no futuro lhes renderá uma personalidade cativante, uma vida feliz e um mundo melhor.


Susiane Canal

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