Susiane Canal

Uma incorrigível sonhadora que, ao perder-se nas palavras, busca encontrar um sentido para sua existência.

PORQUE TEREI UM SEGUNDO FILHO

Ter um filho é maravilho, nos faz sentir todas as emoções possíveis da maternidade/paternidade e certamente preenche o nosso coração. Tipo, não haveria necessidade de repetir a experiência. Mas eu passei a querê-la...


mae-coruja.jpg

Terei um segundo filho porque, no primeiro, a gente é atucanado demais, preocupado demais, rígido demais, “certo” demais!

Ama, chora, aprende, cresce e supera, mas logo percebe que poderia ter sido diferente, que poderia ter aproveitado muito mais...

Ver a barriga crescendo sem ficar o tempo inteiro pensando que “faz tantos minutos que ele não se mexe, será que aconteceu alguma coisa?”

Admirar as imagens lindas nos ultrassons sem ficar com taquicardia esperando o médico dizer se a translucência nucal está correta, ou se o fluxo sanguíneo está perfeito.

Preparar a chegada daquele serzinho sem se concentrar tanto na quantidade e qualidade das roupinhas, ou na decoração do quarto, mas no aconchego e na harmonia daquele lar que se encherá, ainda mais, de alegria.

Viver o parto como um acontecimento mágico e extraordinário, e não buscando averiguar se a pressão subiu, se os batimentos do bebê estão normais, se irá desmaiar com a injeção da anestesia ou se a colocação da sonda vai doer muito.

Quando o bebê começar a chorar nos primeiros dias em casa, seja lá por que motivo for – porque são vários os que podem o causar -, não pirar, chorar junto, pesquisar soluções mágicas na internet ou ficar pensando desesperadamente que precisa da ajuda de alguém, mas tão somente trazê-lo para perto do corpo e, com a maior calma, esperar, pois é absolutamente normal e, sem dúvidas, vai passar, por mais que pareça que não...

Entender que o recém-nascido não precisa do banho mais técnico, do melhor xampu, da roupa antialérgica de última geração ou da canção de ninar mais moderna tocando no IPAD, mas simplesmente ficar grudado na mamãe o maior tempo possível, desde a maternidade, afinal, estava dentro dela até então, não podendo se separar tão abruptamente.

Lembrar que as febres são normais, ocorrerão várias vezes, em algumas delas não baixarão com remédios, banhos, nem antibióticos, e que isso não significa que sejam doenças graves, logo tudo volta ao normal...

Não se apavorar com manchas estranhas na pele, vômitos, assaduras que não melhoram por nada, resfriados sem fim, respiração pesada à noite e mudança brusca de comportamento (ai como essa assusta!): tudo isso faz parte e, logo logo, passa...

Deixar o filho aos cuidados do pai, da tia ou da avó e sair totalmente tranquila porque, apesar de eles certamente não terem “gravado” todas as mil dicas que foram dadas, vão dar conta do recado, e qualquer mulher (inclusive as mães!) precisam assegurar, periodicamente, um tempo só para elas (nem que seja para ir ao supermercado, algo que parece férias!).

Recordar que é absolutamente normal às vezes pensar “preciso me refugiar numa ilha deserta por uns dias”, “o que é que eu fui inventar” e “poderia estar fazendo outras mil coisas”, afinal, é uma mudança radical na vida, que traz um turbilhão de inseguranças, mas SEMPRE se acaba concluindo que, definitiva e absolutamente, vale muito a pena e é a melhor coisa do mundo (basta o primeiro sorriso dele pra se mudar de ideia)!

Esquecer completamente que existe Google para pesquisar sintomas apresentados ou resultados de exames, porque as opção que aparecerão são as piores possíveis e nenhuma delas corresponde ao caso do nosso filho.

Manter em mente que, diferentemente do que muitos afirmam, a vida voltará a algo parecido do que era antes sim, que haverão noites bem dormidas, que se conseguirá sair para namorar eventualmente, que não se estará mais tão esgotada, que se poderão resgatar projetos pessoais, etc.

Que, apesar de todas as doenças, riscos, violência e distorções de valores existentes no mundo, nosso filho SOBREVIVERÁ (nunca vou esquecer do dia em que passei na padaria com a minha filha ardendo em febre - havia saído do pediatra e queria tentar convencer ela a comer alguma coisa – e o dono do estabelecimento me disse para ficar tranquila que os três filhos dele sobreviveram à infância – assim como a maioria da população – e a minha também sobreviveria)!

Lembrar, também, que nenhuma criança morre de fome se ficar sem comer direito por uns dias por estar dodóizinha, bem como que não precisamos viver empurrando comida “goela abaixo”, porque elas possuem necessidades próprias (e para as mães qualquer quantia sempre será pouco)...

Recordar que o pequeno se entusiasmará muito mais se nos sentarmos no chão para brincar de cabaninha com ele do que se lhe dermos brinquedos caros e elaborados.

Ter em mente que, por mais que nos esforcemos, que rezemos ou que tenhamos prometido para nós mesmos no passado, não teremos controle sobre a personalidade do nosso filho, o qual fará birras eventuais e terá gostos para nós um tanto estranhos...

Não esquecer, outrossim, que broncas, vez ou outra, serão necessárias, talvez até algum castigo, e que, mesmo sabendo estar fazendo o certo, ficaremos tristes conosco mesmos e vamos morrer de remorso...

Enfim, pretendo ter um segundo filho para ter a oportunidade de colocar em prática todas as lições ganhas com a primeira experiência, para poder sentir novamente toda essa maravilhosa gama de sensações (dessa vez de forma mais suave e “curtida”) e para poder dar, a pelo menos um dos herdeiros, o privilégio de uma mãe sem muitas neuras...

Ao menos até elas ressurgirem, sorrateiramente, contrariando as probabilidades...


Susiane Canal

Uma incorrigível sonhadora que, ao perder-se nas palavras, busca encontrar um sentido para sua existência..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @destaque, @obvious //Susiane Canal