Susiane Canal

Uma incorrigível sonhadora que, ao perder-se nas palavras, busca encontrar um sentido para sua existência.

como morre o amor

A morte do amor nunca é súbita
Ela é lenta e dolorosa
Suave e, ao mesmo tempo, cruel
Começa num dia qualquer, nem se percebe direito
E, recebendo continuamente brandas – ou intensas – doses de antídoto,
Ele vai se esvaindo por entre as distrações do dia a dia...


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A morte do amor nunca é súbita

Ela é lenta e dolorosa

Suave e, ao mesmo tempo, cruel

Começa num dia qualquer, nem se percebe direito

E, recebendo continuamente brandas – ou intensas – doses de antídoto,

Ele vai se esvaindo por entre as distrações do dia a dia...

Pode começar quando se pensa que ele está consolidado

Foi conquistado e pronto, o trabalho acabou

Quando se começa a imaginar que, enfim, se pode dar atenção apenas a outros (tantos) aspectos da vida

E deixa-se de alimentar suficientemente o sentimento

Tanto o seu pelo outro, quanto o dele por si...

Também induz à morte do amor o “acostumamento”

Acostuma-se com a presença do outro

E passa-se a entender que não há descobertas e serem feitas, qualidades – e defeitos – a desvendar, um mistério a se decifrar

Ocorre que todos sempre são incógnitas – inclusive para si próprios -, uma vez que seres em constante transformação...

Continua-se extinguindo o amor quando se deixa de olhar para as necessidades do outro

Quando apenas as suas próprias vontades é que têm relevância

Quando não se compreende que ele é um ser completamente distinto de si, e as todas as suas peculiaridades, desejos e trejeitos precisam ser conhecidos e considerados.

Também é fulminante para o amor ser esquecido no meio da rotina frenética em que se vive

Quando o trabalho, os filhos e as contas – talvez até a atual conjuntura política do país - são muito mais considerados que o relacionamento em si

Quando aquele olhar profundo dentro do olho do outro e aquele sorriso cúmplice não acontecem mais

Quando se perde a polidez das palavras direcionadas

Quando estar mal humorado ou totalmente desajeitado não são mais motivo de atenção

Quando se perde a última gota daquela inocência juvenil, que acreditava que “amar e ser amado” era a coisa mais fantástica do mundo...

Quando o “eu te amo” começa a vir sozinho e completamente mecanizado

Desacompanhado de sentimentalismo e intenção

E, até mesmo, de “provas” que o reafirmem...

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Quando não se investe para que o encontro íntimo seja original, verdadeiramente desejado e gratificante

Quando não mais se intenciona, com o cruzamento dos corpos, a fusão das almas

Quando vira apenas um modo de descarregar tensões, um ato de prazer egoístico

Ou o simples cumprimento de uma “obrigação”...

O amor se perde também nos afagos poupados

Nos agrados que se extinguiram

No olhar perdido que traduz distância

E no silêncio que começa a incomodar...

Mas a maior incidência da morte do amor ocorre na indiferença

Quando começa a predominar o “tanto faz”, o “tudo bem, depois dou um jeito”, ou o “não é tão importante assim”

Quando se deixa cegar pelo cotidiano

Quando tudo, ou qualquer outra coisa, tem sobre ele prioridade

Quando se deixa-o para o fim da lista de afazeres

Quando se permite que a preguiça e a comodidade prevaleçam

Quando se autoriza que o cansaço vença qualquer possibilidade de dedicação...

Quando não mais importa se o outro está desejando outras pessoas

Ou se é efetivamente desejado por alguém

Quando se aceita que não esteja presente em algum acontecimento importante

Quando não se compartilham mais os sonhos, as visões de mundo e os desejos para o futuro

E quando se torna irrelevante que ele também cresça, se expanda e evolua com a vida...

Contudo, enquanto houver uma gota de amor, ele ainda pode ser ressuscitado

Se restar uma brasa que seja, o fogo pode ser reacendido

Basta um dos dois se dar conta a tempo, levar o amor para a emergência e tratá-lo

Enquanto ainda houver um suspiro de vida nele, é possível sim...

Todavia, quando a vontade minguar e descaso prevalecer mesmo diante da agoniação

A morte – implacável e irreversível – vencerá a batalha e deixará como herança apenas a dor e o arrependimento por não se ter tentado salvá-lo enquanto ainda era tempo.

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Susiane Canal

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