Mariana Miranda

Ser jornalista é a forma mais glamourosa de ser pobre. Curta dez anos de literatura por ostentação em: marianamiranda.wordpress.com

Albergue depois dos 30: o mais cruel dos ritos de passagem

Um dia, você acorda e descobre que está cansado demais para carregar os baldes do seu próprio banho. Moído demais para lavar o seu próprio edredom. Idoso demais para, depois disso tudo, ainda ousar fazer turismo.


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Chega um momento na vida em que você descobre que ficou velho demais para ser pobre. Um dia, você descobre – e esse dia chega pra todo mundo. Mas como ter certeza? Ou você amarga uma restrição orçamentária franciscana ou enfrenta os limites da senilidade. Ou velho ou pobre. Não se pode ter tudo nessa vida.

Esta escolha, este rito de passagem, pode acontecer com o auxílio de uma entidade turística conhecida como: albergue. Você já deve ter ouvido falar. Sei de peregrinos que viajaram o mundo inteiro em busca desta resposta – e só a encontraram com a ajuda de um albergue. Ah, um albergue. Nunca duvide do poder revelador de um albergue.

Você se hospeda lá e descobre. Desvenda, de repente: meu Deus, meu Deus, como eu estou velho.

Um dia, no albergue, você acorda e descobre que ficou velho demais para subir os cinco andares de escada com sua mala, sua comida e suas compras de viagem. E percebe que está cansado demais para carregar os baldes de água do seu próprio banho. Que está moído demais para lavar, no tanque, o seu próprio edredom. Idoso demais para, depois disso tudo, ainda ousar fazer turismo.

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Mas as evidências do passar dos anos não se encerram apenas no esgotamento físico, envelhecer é uma experiência completa, é um estado de corpo e de espírito. Velho gosta é de re-cla-mar! Devemos citar, é claro, a nossa rabugice emergente que revela-se no interior destes estabelecimentos quando as portas não fecham, quando as janelas não abrem, quando nada funciona. O nosso descontrole emocional frente aos banheiros compartilhados, os corredores lotados, os adolescentes bêbados, os rádios ligados todos ao mesmo tempo quando tudo o que você queria, depois de uma longa viagem, era o benefício, o luxo, o prodígio milagroso de uma noite de sono para que seu corpo descanse (em paz).

Ah, dormir! Na sua casa, você era feliz e não sabia, certo? Errado. Na sua casa, você apenas desconhecia a sua verdadeira idade. Acredite, houve um tempo em que nada disso te incomodaria. Hoje, essa revelação emerge como uma força vulcânica e você descobre que, sim, dormir no chão é ofício para os jovens! – essa raça longínqua, esse animal selvagem. Qualquer pessoa com mais de 12 anos de idade sabe que deitar naquele tatame é um ato bárbaro, uma transgressão, uma violência contra as vértebras da sua espécie – homo sapiens no topo da cadeia evolutiva, ereto, inteligente e reumático. Há séculos, a sua permanência neste planeta precede a existência de um alfabeto, de uma constituição e, pasmem, de um colchão. De mola. Ortopédico! Não sei aonde está a Organização Mundial de Saúde que não vê isso.

Mas albergue não é só anatomia, é também geopolítica. É o pleno exercício da democracia: tem fila pra tudo. Fila tomar banho, fila para lavar a roupa, pra acessar a internet e pra escovar os dentes num balde. E democracia é liberdade de expressão: também tem briga, tem faxina rotativa, tem festa estranha, tem seringas no chão, tem corredor interrompido por que os muçulmanos estão de joelhos rezando para Alá. Tem indiano horrorizado por que você comeu um hambúrguer e judeu horrorizado por que você comeu um hotdog. Isso é cozinha comunitária: as pessoas fazem auditoria sobre a sua comida e ainda consomem o iogurte que você guardou na geladeira, consomem o queijo que você guardou na geladeira e consomem até o salmão que custou 35 DINHEIROS e que você CAMUFLOU SOB FOLHAS DE ALFACE na maldita geladeira – sem o mais longínquo constrangimento, afinal, somos todos milionários.

Já falei que velho adora reclamar?

E ainda há os banheiros. Geralmente, são instalações sanitárias antigas. Mais exatamente da Roma Antiga. As rachaduras são do tempo de Nero, os vazamentos do tempo de Augusto, os vasos sanitários foram moldados ao gosto dos doze Cézares. Quanta honra. Melhor do que isso, só se o estabelecimento promovesse cerimônias a Baco, orgias públicas e leões engolindo cristãos – procedimentos que, devemos concordar, nos criariam problemas conjugais e de Direitos Humanos – contentemo-nos com menos. Vasos sanitários épicos já são o máximo e qualquer albergue é mesmo assim, é puro aprendizado. É arte, é história, é desapego. É o neo socialismo hippie compulsório. É a sociedade alternativa de baixo orçamento. É puro amoooooor.

Como não ansiar pela presença reveladora dos albergues na minha vida?

Então. Se você também procura por essa resposta dentro do seu coração, experimente. Oportunize ao seu corpo descobrir a idade da sua alma, permita à sua alma descobrir a idade dos seus joelhos, das suas vértebras, da sua lombar. Viagem é pesquisa, é autoconhecimento: eu estou velho demais para ser pobre ou estou pobre demais para ser velho? Sem dúvidas, este é um momento de decisão. Ou velho ou pobre. Não se pode ter tudo nessa vida.


Mariana Miranda

Ser jornalista é a forma mais glamourosa de ser pobre. Curta dez anos de literatura por ostentação em: marianamiranda.wordpress.com.
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