dividindo opiniões

Cinema, Literatura, Viagens e Afins...

Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões.

Como contar uma história?!

O documentário Stories we tell mistura memórias, opiniões e estilos cinematográficos para contar uma história de família, provando que a arte pode ser intimista e pessoal e que toda história/memória tem verdades diversas e às vezes conflitantes.


Thumbnail image for Stories-we-tell-image.jpg Sarah e Harry Gulkin

Uma vez fiz uma oficina de contos online, toda semana eu tinha que ler um texto, escrever uma resenha e uma vez por mês enviar por e-mail algo de minha autoria. Numa dessas vezes, enviei meu primeiro conto, bem bonitinho sobre meus natais em família, tantas memórias… O feedback recebido não foi bem o esperado, o professor do curso disse que meu texto era pessoal demais, que para ser arte o texto não pode ter esse caráter de memória pessoal e blá blá blá… Fiquei chocada, e Clarice Lispector? E todos os meus autores queridos… Além disso, havia enviado o texto a um amigo cineasta muito culto e ele havia gostado, contou memórias dos seus natais! Mesmo assim, meu texto foi resumido ao meu natal em família, nada mais. De certa forma, apesar de ter arquivado a crítica como uma opinião pessoal e gosto literário diverso, a questão ficou: Quando o ato de contar a própria história se torna literatura? ou Quando uma memória se torna arte?

Recentemente assisti ao premiado e brilhantemente pessoal documentário Stories we tell (História que contamos) da diretora canadense Sarah Polley. O filme gira em torno de um período da vida de Diane Polley, mãe de Sarah, e a busca dessa por seu pai consanguíneo. Como a mãe morreu de câncer quando Sarah ainda era pequena e não estava mais viva para contar sua versão de tudo, somos arrastados por uma enxurrada de opiniões e “fatos” acerca de sua infidelidade e de como Diane era vista pelas pessoas. Cada relato possui uma verdade, aquela de quem o está contando. Assim, um caleidoscópio de opiniões e lembranças muito pessoais, fragmentos, partes diversas de uma mesma história vai se revelando.

O filme é muito bem sucedido em nos mostrar isso, que cada pedaço desse quebra-cabeça é somente mais um lado, uma perspectiva, todas as versões são igualmente importantes e nenhuma pode ser ignorada para que a história contenha algo de genuíno. Essa é exatamente a proposta da diretora ao resolver fazer esse filme, dar voz aos protagonistas e coadjuvantes para reconstruir suas origens. Resgatando a memória de sua mãe e percorrendo a trajetória dela, a diretora vai relatando a sua própria busca por seu verdadeiro pai. Sarah cresceu acreditando que seu pai fosse Michael Polley, até que inocentes piadas de família sobre a falta de semelhança entre os dois começaram a tomar uma grande dimensão e semearam a dúvida sobre sua paternidade em sua cabeça. Num determinado momento, ela decide buscar a verdade e sai em busca de quem poderia ser seu pai, até que chega em Harry Gulkin, o qual um teste de DNA revela ser seu verdadeiro pai.

A história da família de Sarah com tantos segredos e meias palavras é tão verossímil que poderia ser um enredo de ficção, mas não é, as emoções dos envolvidos estão ali, contidas e expostas, a própria diretora parece em alguns momentos enterrar as próprias para manter a postura objetiva e profissional. Conflitos, confrontações, questionamentos e memórias são mostrados e reencenados diante das câmeras, a diretora admite que não sabe exatamente o sentido do documentário e qual forma ele irá tomar quando estiver pronto; a impressão que fica é que o filme vai se construindo ali, na frente do espectador. Contudo, Michael adverte Sarah, e os espectadores, que no final das filmagens ela terá horas de material e terá que escolher o que entra ou não, tendo que determinar um ponto de vista e comprometendo, assim, a tão sonhada imparcialidade.

Dois livros com perspectivas muito diferentes surgiram dessa história toda, um escrito pelo pai de criação, Michael Polley, e outro pelo pai verdadeiro, Harry Gulkin. Inclusive no decorrer do filme, Michael aparece num estúdio lendo fragmentos de seu texto, que reúne suas histórias de família, sempre dirigido por Sarah que interrompe e pede para que ele repita parágrafos e por aí a fora.

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Ele, que até então nunca havia desenvolvido seu talento literário, reflete: “Para que criar um texto ficcional se posso escrever sobre minha própria história?” Harry também escreveu sua versão dos “fatos”, ou seja sua história com Diane, sendo impedido de publicá-la por Sarah, que queria fazer um filme mais imparcial antes, contemplando os diversos lados da história, demonstra em diversos momentos o seu descontentamento com o filme e com a postura de Sarah.

Esse não é apenas um documentário comum, há a mistura de diversos elementos cinematográficos para contar essa história. Começa com cenas dos bastidores, mostrando a montagem do cenário das entrevistas, os entrevistados se preparando, as luzes, o Boom com o microfone. Todo esse por trás das câmeras é importante para determinar o tom do filme, mais informal, familiar; definitivamente a impressão passada é de que não é um documentário montado, certinho, encenado; todo o ambiente, todo o entorno é importante, no melhor estilo Eduardo Coutinho. O curioso é que apesar disso, há encenações de partes das histórias contadas, a diretora mistura filmes de família com imagens recriadas com Super-8 no estilo flashback; confundindo e imergindo o espectador nessas memórias. A re-encenação realmente funciona, somente ficou clara para mim com o decorrer do filme, fiquei absorvida pelas imagens e para mim, de certa forma, elas eram reais, não mera recriações. Difícil separar o que era realmente filmes de família das reproduções.

Thumbnail image for stories-we-tell.jpg Diane com Sarah

Acredito que no fim o que fica é que arte é aquilo que consegue se comunicar com as pessoas, seja pela identificação, rejeição, pela beleza estética, ou simplesmente aquilo que consegue nos tirar da nossa vida, nos levar para um outro mundo, seja ele qual for. A forma (ou o seguir das regras) com que isso é feito é o menos importante, ainda mais hoje com toda nossa suposta liberdade artística. Não é a quantidade de conteúdo pessoal ou subjetivo que separa o artista de todo o resto, mas sim o quanto ele consegue transformar a sua vida cotidiana, ou a sua ideia, em algo universal, humano, transcendendo a sua própria experiência, essa é a verdadeira arte. Na minha opinião, Sarah Polley consegue isso com seu filme familiar, contando a história de sua mãe, a sua história, de várias formas e sob diversos pontos-de-vista.


Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões..
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