dividindo opiniões

Cinema, Literatura, Viagens e Afins...

Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões.

De galã a morador de rua: “Time out of mind” o novo filme de Richard Gere

Há atores que são versáteis, que mudam tanto a cada personagem que, dificilmente, o identificamos com uma coisa só. Há, também, aqueles que incorporam determinado estereotipo de tal modo que parecem viver o mesmo personagem filme após filme. Para mim, Richard Gere era desse segundo tipo, o verdadeiro galã, rico e charmoso. Sua figura ficou tão marcada como o milionário príncipe encantado de Uma Linda Mulher que parecia que nenhum outro papel fosse-lhe possível. Mas, o tempo passa, todos envelhecem. Tive uma boa surpresa ao assistir Time Out of Mind, filme no qual Richard Gere vive George, um morador de rua, com algum problema mental, bêbado e que tenta se reaproximar da filha problemática.


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Richard Gere interpreta bem o papel de morador de rua, distanciando-se daquela figura de galã determinado e seguro. Tenho a impressão que justamente essa ideia que eu fazia dele me ajudou a entrar mais profundamente no drama do frágil e confuso George, de uma certa forma, ao comparar os dois lados da moeda, a "realidade" dele torna-se mais chocante e triste.

O filme é um pouco chato, lento demais, real demais, acompanha o cotidiano com suas dificuldades e rotina. Não há reviravoltas, surpresas, ação. Há só a vida de um homem derrotado por uma sucessão de más escolhas e indecisões. Ele parou há algum tempo de decidir, de assumir, e transita entre momentos de delírio e extrema sobriedade. Parece ter problemas com bebida, mas não me parece um bêbado típico, somente alguém repetindo um clichê, tentando se esconder ou até mesmo justificar, com a bebida, a própria miséria. Ter algo para culpar.

A personagem, com muita dificuldade, aceita o fato de ser sem teto, que não tem mais nada, nem ninguém. Tão triste, sóbrio e sem esperança o momento em que ele finalmente se depara com a sua verdadeira condição. Ele não é somente um morador de rua, ele é invisível e, mais ainda, descobre que não é ninguém, não possui nenhum documento que comprove sua existência, nenhum número que prove ao mundo que é real. “Como posso não existir, estou aqui na sua frente”, mas ele não tem uma certidão de nascimento, um CPF, um passaporte. Essa é a grande essência do filme para mim, nos tornamos um papel, um número, um registro. Esses documentos são mais importantes que a próprio existência, a pessoa é quase que somente o portador desse contrato social, que diz o que você tem ter, ser e como se portar.

O filme poderia ser sobre a invisibilidade dos moradores de rua, a inexistência de um alguém sem documento, sobre um homem transtornado e perdido, mas o filme é simplesmente sobre a humanidade. Sobre os limites de cada um, sobre a descoberta da realidade, uma realidade talvez muito longe da nossa, mas não tão longe assim, somente mais extrema. No fundo todos temos os mesmos sentimentos, necessidades e dificuldades na vida. Cada um escolhe seu próprio caminho e pode desistir, se esconder, culpar-se, culpar os outros ou mudar tudo, escolher fazer algo produtivo das dificuldades ou se afundar nela até o fundo do poço e ficar preso lá, como essa personagem.

E agora, será que somos melhores do que eles? É difícil amar a todos, ajudar ou sentir compaixão por aqueles que parecem ter desistido, quando nós temos nossas próprias batalhas e dificuldades, próprias frustrações e decepções. Como acontece com a filha desse homem, é fácil entender sua dificuldade em ajudar, amar esse pai que a abandonou e mesmo quando ele tenta se redimir ou se aproximar somente continua a decepcionando. Ficamos numa posição desconfortável o filme todo, impossível decidir, quando realmente entendemos o lado humano, a batalha e a dificuldade de cada um, não dá para julgar, apedrejar ou tomar um lado. Ficamos ali em frangalhos observando as fragilidades humanas, nosso mundinho perfeito fica abalado, chocado com tanto realismo, sim essa realidade existe, sim aquele homem de rua louco que fica gritando na rua, que é agressivo, com problemas mentais, que incomoda nossa paz, que obstrui nosso caminho existe, ele poderia escolher ficar quieto, ir se tornando transparente como a maioria, mais ele está ali humano como a gente, esfregando na nossa cara que temos algo em comum, que vivemos sim no mesmo mundo, não nosso mundo particular, mas dividimos o mesmo espaço, a mesma espécie com ele.

Há muito tempo vivi uma experiência chocante, marcou-me profundamente e a cada dia acho que entendo melhor o como e porque sou diferente daquela mulher, entendo também o porquê fiquei tão abalada. Estava parada num semáforo no Viaduto do Chá no centro de São Paulo, uma moradora de rua parou no meio da faixa de pedestre abaixou sua calça e defecou na rua, ali na frente de todos. Fiquei extremamente chocada, não sabia o que pensar dessa pessoa, a desumanização do homem, comparei o ato da mulher com o de um cachorro. Os anos passaram, desde então mudei, viajei e vi muitas coisas, mas essa cena nunca saiu da minha memória, hoje pensando sobre esse filme, mais uma vez lembrei daquela pessoa. Será que realmente ela era menos humana do que eu? Ela estava ali suprindo suas necessidades mais básicas, somente isso. Todo o resto é a nossa maquiagem, nosso mundo que nos diz o que temos que fazer, como temos que nos comportar. Muito fácil para eu naquele momento julgar e classificar, sentada no meu carro, com vidros fechados para evitar os trombadinhas e vendedores de rua, ouvindo minhas músicas favoritas, com ar condicionado ligado, voltando para minha casa, meu banheiro limpo. Não estou dizendo que as regras sociais e de comportamento não tenham sua função, mas é muito mais fácil desumanizar essas pessoas, do que humanizá-las, aproximando-as de nós, pois aí ferimos algo em nós, abalamos nossa própria realidade e de alguma forma nos sentimos responsáveis também.

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Como lidar com elas? O que fazer? Como não se tornar isso? Afinal somos da mesma espécie, hoje entendo que a mulher ao se comportar como um "cachorro" não se tornou menos humana, ela somente estava menos consciente, sem noção do que acontecia ao seu redor. E às vezes é tão fácil para a gente se desligar, fugir da nossa própria realidade, do nosso presente. Vivemos revivendo nosso passado, preocupados com nosso futuro e deixamos nossa vida ir acontecendo no automático. Temos comportamentos e pensamentos compulsivos e destrutivos, estragamos nosso corpo, nossos relacionamentos, nosso planeta, anestesiamo-nos na frente da TV, na Internet, do videogame, bebendo ou usando drogas... Talvez no fundo não sejamos tão diferentes assim.

Não podemos viver a vida pelos outros, cada um faz suas escolhas e sofre pelas consequências das próprias ações. Essas pessoas ao atingirem o que chamamos de "fundo do poço" somente levaram ao extremo aquilo que todos os dias fazemos em doses homeopáticas e de maneiras mais requintadas e até mesmo escondidas. Elas ao perderem tudo, desistiram da sua consciência, aproximaram-se mais dos seus instintos animais, contudo não podemos nos esquecer que a humanidade continua dentro delas, algo parecido conosco vive lá e isso já é suficiente para que olhemos com outros olhos, com compaixão e, se possível, até amor.

O filme termina sem um final determinado, o que faz sentido, uma vez que é o recorte de um momento da vida desse homem, sua vida continua. Após expulsar o pai do bar em que trabalha, a jovem vai atrás de George…Fim. Há uma esperança, mas o que seria depois se ela o encontrar? As coisas realmente mudariam? Pode ser que sim ou que não, depende de cada um… Essa é a resposta e o grande dilema da vida.

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Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões..
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