dividindo opiniões

Cinema, Literatura, Viagens e Afins...

Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões.

Em busca d’A Grande Beleza

O filme italiano a Grande Beleza discute de uma forma não muito convencional a diferença entre aparência e essência. Jep Gambardella, o protagonista, nos seus 65 anos reflete sobre sua vida de uma forma leve e descompromissada e busca finalmente transcender aquilo que o impediu de escrever mais de um livro em toda sua vida, usando como pano de fundo a bela cidade de Roma, Jep retoma sua busca pela “grande beleza”.


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"Eu gostaria de ter feito esse filme” foi meu pensamento após ver La grande bellezza (A grande Beleza), do diretor italiano Paolo Sorrentino, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014. O filme é rico em detalhes e simbolismo, mistura o real com o fantástico e suas performances beiram ao teatral. Certamente, precisa ser visto mais de uma vez para uma melhor absorção de suas nuances estéticas e verbais.

As mentes mais tradicionais ou presas aos padrões hollywoodianos podem não gostar do filme, talvez por não o entender. Num primeiro momento, ele pode mesmo parecer estranho, suas personagens estão muito distantes da vida cotidiana. Afinal, quem mora numa cobertura com vista para o Coliseu? Ou que sua profissão é ser rica? No entanto, vencida essa barreira inicial, é possível perceber que as questões trazidas pelo filme também são universais e que esse circo romano de caricaturas traz dentro de si sentimentos e desejos muito humanos e com os quais queiramos ou não, em maior ou menor proporção, uma hora ou outra temos que nos deparar. Difícil dizer se “A Grande Beleza” é um drama ou uma paródia da nossa sociedade atual, provavelmente é um pouco do dois. Num mix de música erudita e eletrônica vamos mergulhando no universo da trama.

Compreendi melhor o ambiente do filme recentemente, quando estive em Roma. O sol e o clima úmido castigam os milhares de turistas que se espremem e se esbarram para ver os monumentos e as ruínas espalhadas pela cidade. Roma no verão é muito muito quente e superlotada. Enquanto penava com o calor, caminhando pelas ruas do centro histórico romano, pensava na sequência inicial do filme. Um travelling da câmera revela e aproxima o espectador de uma série de cenas, soldados atiram um canhão, aplausos; monumentos; estátuas; pessoas; sinos e, finalmente, um turista japonês desmaiando sob o sol escaldante, em frente à um prédio histórico ao som de uma opera. Todos esses fragmentos revelam Roma. A mistura do turístico com o cotidiano, do antigo e do novo, do sacro com o pagão, do diurno com o noturno, este último apresentado na próxima sequência. Uma festa muito louca regada à música eletrônica, bebidas, drogas e pessoas anestesiadas dentro de si, é nesse ambiente que somos introduzidos ao protagonista Jep Gambardella.

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Jep, interpretado maravilhosamente por Toni Servillo, completa 65 anos e com a idade vem a reflexão sobre sua vida. Com a frase “A coisa mais importante que descobri alguns dias depois de completar 65 anos é que eu não posso mais desperdiçar tempo fazendo coisas que eu não quero fazer” o protagonista inaugura uma nova fase e, por que não?, proporciona também ao espectador a oportunidade de refletir. Será que é preciso mesmo esperar tantos anos para se permitir fazer somente aquilo que se quer? Num olhar mais superficial, tem se a impressão de que Jep sempre fez e desfrutou daquilo que queria, contudo a vida revela-se mais complicada do que festas e eventos sociais. A partir daí, começamos com ele um passeio por Roma. Não a Roma turística, mas aquela de Jep Gambardella, conhecemos seus amigos artistas e intelectuais fúteis da alta-sociedade com suas festas e reuniões. Cada uma dessas personagens é especial de algum modo e mostra um pouco da cega degradação da humanidade, mas quem pode de fato julgar? Outras personagens que não se encaixam bem nesse ambiente aparecem para confrontar esse estilo de vida, essas, por sua vez, demonstram ter mais consciência e menos futilidades do que os ditos intelectuais, mais focados nas aparências.

O filme funciona muito bem como um todo, fotografia, locações, figurino, trilha sonora se misturam em harmonia para causar no espectador a sensação de deslumbre e estranhamento. Ele é todo permeado por dicotomias e contrastes, como a vida. Suas críticas são mais uma reflexão do que um julgamento. É possível compreender e relacionar, de certa forma, o filme com qualquer lugar. Mas mesmo assim, o filme não deixa de ser sobre Roma, há peculiaridades e questões específicas dessa cidade, que se torna quase uma protagonista da trama, todos os seus lugares deslumbrantemente desvendados pela câmera são mais do que paisagens, são história. Jep passou toda sua vida adulta ali, sem viajar, foi absorvido pela cidade, também se escondeu ali, deixou sua vida acontecer entre as festas e distrações fúteis e agora com a implacável passagem do tempo, ele parece querer retomar algo que havia deixado para trás, se redescobrir.

Sim, definitivamente o filme é sobre Roma, sobre o envelhecer, sobre a arte, sobre as futilidades e profundidades da vida. Na sua busca pela beleza, o protagonista revisita o seu passado e depara-se constantemente com o futuro, a morte. De forma sutil e descompromissada reflete criticamente sobre as frivolidades humanas e muito honesta e conscientemente aceita a sua própria. O filme poderia se tornar melodramático ou demasiadamente profundo, contudo a personagem possui uma visão muito generosa consigo mesma e com o outro para que isso aconteça. O filme mostra que não precisa ser deprimido para ser reflexivo e que a profundidade está muito além das aparências e dos discursos artríticos, intelectuais e religiosos.

Por fim, vale comentar que A Grande Beleza pode ser vista como uma leitura atual do filme La Dolci Vita de Fellini, algumas semelhanças são evidentes; por exemplo, ambos protagonistas são jornalistas que se sentem completamente em casa em Roma, em contato com os artistas, a elite e as festas exclusivas, sempre rodeados de belas mulheres e vivendo essa boa vida romana. Jep Gambardella, a seu modo, bem que poderia ser um Marcelo Rubini envelhecido, no qual a beleza de uma mulher já não é mais suficiente, sua busca é mais consistente, ele deseja encontrar a “Grande Beleza” da vida, escondida embaixo do blá blá blá. Qual seria essa “grande beleza” buscada por Jep? Onde ela poderia ser encontrada? O filme nos dá algumas pistas, mas também deixa fios soltos para a interpretação de cada um. Para mim, penso que Jep re/encontrou-a ao revisitar seu primeiro amor. Contudo, por mais que a princípio isso pareça óbvio, a personagem adverte: “Isso é só um truque”.


Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões..
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