dividindo opiniões

Cinema, Literatura, Viagens e Afins...

Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões.

Seria Frank um gênio ou um louco?!

Um jovem em busca de sucesso musical e uma banda experimental liderada por um homem com uma cabeça de papel machê são os polos opostos que se encontram no alternativo filme Frank. A partir de estereótipos divergentes o filme mostra a dificuldade de se encaixar e a facilidade de se perder quando se tenta fazer parte de algum grupo.


FrankandJohn.jpg Frank e John

O primeiro contato que tive com Frank foi por meio de um trailer, fiquei intrigada. Adorei aquele personagem com a cabeça de papel machê, achei a ideia genial. Fui ver o filme completamente no escuro, somente descobri que Michael Fassbender era Frank no final, o que foi ótimo, pois passei o filme todo, assim como John, tentando descobrir quem era o Frank, como ele se parecia... Frank é interessante, dramático, engraçado e profundo. É meio "alternativo" e parado, mas bem divertido e maluco na medida certa, sem ser chato. Seu elenco conta com atores estrelados e versáteis como o já citado Michael Fassbender (Frank), Domhnall Gleeson (John) e Maggie Gyllenhaal (Clara), foi inspirado na história de Chris Sievey, músico e comediante conhecido nas décadas de 80 e 90 pelo codinome Frank Sidebotto, Cris apresentava-se sempre com uma cabeça de papel machê e somente pessoas íntimas conheciam seu verdadeiro rosto.

Frank-Chris.jpg Chris / Frank

Apesar da história de Chris ser muito interessante e sem dúvida ter potencial para um bom filme, o filme Frank extrapola-a em muito e, tirando a cabeça, parece não sobrar tantas referências assim.

John é o narrador e protagonista do filme - apesar desse último ponto ser discutível, em minha visão ele divide esse papel com Frank evidentemente, mesmo que ele ao contar sua história pareça não se dar tanto conta disso, o que faz todo sentido e é coerente com sua personagem - um jovem entediado, tapado e sem muito talento musical que sonha em ter sucesso. O objetivo de John não é ser músico, e sim ser famoso, ter uma banda, compor um grande hit e ser popular. Simples assim, como grande parcela dos jovens pops, para ele a popularidade dita o que é bom, fazer música deixa de ser um meio em si, na qual a própria arte é a recompensa. Sua busca é tão desesperada que ele posta suas banalidades no Twitter numa triste busca por atenção, na infrutífera e iludida tentativa de preencher seu vazio existencial com a superficial atenção dos outros. Algo que retrata bem nossa era de mídias sociais e exposições virtuais.

No completo oposto dessa realidade está a banda Soronprfbs, liderada pelo exótico Frank, um homem que usa uma cabeça de papel machê, escondendo seu verdadeiro rosto a todos e em todas as situações, inclusive para tomar banho ou dormir. A banda é composta por pessoas totalmente desligadas do mundo e da opinião alheia, como a ranzinza Clara que odeia John desde o primeiro momento. Esses músicos experimentais são mostrados como pessoas ensimesmadas, até mesmo alienadas. Mas se olharmos bem, surge a dúvida: quem seria mais alienado, eles ou John com sua cultura virtual/pop?!

Antes de mais nada preciso dizer que Frank é fofo, com sua loucura genial, ele possui algo de gentil, uma doçura inocente, infantil! Difícil não simpatizar com sua figura carismática, com aquela cabeça postiça, sua voz definindo suas expressões faciais dão um toque todo especial, engraçado e irritante ao mesmo tempo. Ele é tratado como uma espécie de guru musical pelos membros da banda, que o seguem como se ele fosse capaz de despertar neles a verdadeira música. Tudo parece muita loucura, as técnicas, a criação dos próprios instrumentos, as músicas no mínimo esquisitas. Por acaso, John tem a oportunidade de virar tecladista do grupo, oportunidade que agarra cegamente, fingindo para si mesmo que faz parte de algo que nem chega a entender e/ou gostar. Sua carência por atenção não para e sem escrúpulos posta sem autorização vídeos e twits do grupo, que está há meses isolado numa cabana no campo para gravar o álbum que irá revolucionar a história da música.

John puxa Frank para sua própria louca busca por popularidade e acaba por desestruturar todo o grupo, sobretudo Frank. Seu egoísmo desesperado chega no auge quando ele e Frank, um Frank maquiado e claramente alterado, ocupam o palco após toda a banda ter os abandonado.

Frank_03.jpg

John assume o microfone, ignora Frank completamente e começa a cantar sua ridícula música, sem a mínima do noção do que está fazendo. Um fiasco total. Frank chega a seu limite e surta. Nesse ponto todos estão no seu limite. Daí para frente é uma sucessão de infortúnios e abandonos, o estrago estava feito, as coisas não poderiam mais voltar ao que eram, pelo menos não para John.

Frank fala tanto sobre a busca pelo sucesso e pela aprovação dos outros quanto sobre o oposto de tudo. O filme é permeado por perguntas, nas quais as repostas dependem muito da perspectiva que se adota ao assisti-lo. Como costumo ver vários lados em tudo, o que na maior parte das vezes me deixa mais confusa do que esclarece, fiquei quase em dúvida, por isso preferi deixar o filme transcorrer sem tomar posições ou julgamentos, na minha opinião ele flui melhor assim.

Quem realmente usava a máscara John ou Frank? Quem estava se escondendo de si mesmo e tentando ser algo que não era para se encaixar? O que é a loucura? Quem são os loucos?

No fundo, todos somos um pouco loucos normalmente e muito loucos quando estamos em nosso limite. Acho também que devemos estar aberto para o novo e experimentar, contudo tem que tomar cuidado para não se perder no caminho ou tentar ser algo que não é, deixando de se ver e de enxergar os outros ao seu redor, como aconteceu com John. Ele primeiro se perde dentro de tudo e quando finalmente cavou sua chance, estava tão cego que não pode percebeu o quão ridículo foi seu comportamento e que isso custou a deterioração do grupo, de Frank e, principalmente, da sua própria dignidade.

No final John redime-se, vai em busca de Frank que finalmente aparece sem máscara. Fica confirmado que Frank possuía graves problemas mentais e toda sua genialidade musical parecia ser ignorada por seus pais. Será que ele era realmente um gênio ou só um louco? Essa pergunta ronda o filme todo, acredito ser a principal questão do próprio John, e minha também, admito, não acho que ela possa ou deva ser respondida. Por fim, John reúne o grupo novamente e vai embora, reconhecendo que não pertence aquele ambiente. Frank, agora sem sua cabeça postiça, parece mais frágil, mas ainda é possível reconhecer o mesmo Frank. O filme todo me parece uma paródia dos diversos tipos de pessoas encontradas em nossa sociedade. Todavia, deve-se ressaltar que o humor está implícito e é quase negro, essa não é uma comédia propriamente dita, mas sim um leve drama sobre nós, seres humanos, e nossos diferentes graus de talentos e loucuras.


Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// //Alessandra Marchi Carrasco