dividindo opiniões

Cinema, Literatura, Viagens e Afins...

Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões.

Quando a encenação e a realidade se misturam no novo filme de Polanski

Quase dois anos após sua exibição em Cannes, chega aos cinemas brasileiros o novo filme de Roman Polanski La Vénus à la Fourrure (A Pele de Vênus). Uma adaptação da peça homônima da Broodway, inspirada num livro do autor austríaco Leopoldo von Sacher-Masoch, cujo nome inspirou o termo “sadomasoquismo”.


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Instigante e nem um pouco chato para um filme que se passa num teatro com apenas dois atores em cena. Apesar do erotismo latente e de toda tensão sexual, está longe de ser um filme picante. Muito da ação fica nas entrelinhas e cabe ao espectador completar ou complementar as cenas. Portanto, toda atenção e observação é pouco, talvez por isso eu tenha parado o filme algumas vezes, para respirar e assimilar. O filme tem humor e um caráter claustrofóbico, estamos trancados também com o diretor e a atriz nesse teatro, assistindo a esse jogo de interpretação e realidade, às vezes queremos sair, mas algo nos prende lá, com Thomas tão absorvido pela encenação de Vanda.

Um traveling da câmera nos leva pelas ruas molhadas até um teatro. Após um fracassado casting para sua primeira peça, o diretor arruma suas coisas para sair, quando uma espalhafatosa atriz entra para o teste, Vanda, sim ela possui o mesmo nome da protagonista da peça e as “coincidências” não param de aparecer. Sozinhos eles começam a leitura do texto. Vanda já tem tudo preparado e planejado, ajeita a iluminação, providencia o figurino para ela e Thomas, como se conseguisse ler a mente do diretor, ela o faz acreditar que suas sugestões são o que ele havia pensando. Vanda começa a dirigir, não somente a leitura, mas Thomas e seus desejos também. Ela dá todo o tom das cenas, parando no meio de um trecho e tecendo teorias contraditórias, acusa-o de sexista ou mesmo de dominador quando deveria ser submisso, ela entra e sai do papel de dominadora e tira e põe Thomas do seu papel de submisso. Sem dúvida ela está no controle.

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Eles constroem ali entre quatro paredes algo único, real e fictício ao mesmo tempo. O filme fica montando e desmontando as narrativas; jogando com a ideia de realidade e interpretação. Essas idas e vindas são fundamentais para representar uma relação tão profunda e limitadora. Ninguém é uma coisa só, somos seres cheios de conflitos e incoerências e essas chamadas para a realidade parecem demonstrar exatamente isso, pelo menos da parte de Thomas, que de fato entra e vive o jogo. Instigado e totalmente dominado por Vanda, Thomas libera seus desejos mais ocultos e cada vez mais se rende e se revela. Ele está ali inteiro, ela entra em sua vida, escancara sua realidade e invade sua intimidade.

Vanda é uma personagem fascinante e irritante às vezes, manipula e interpreta o tempo todo. Nenhuma das personas apresentadas parece representar algo que ela realmente é... Provavelmente ela é todas e nenhuma ao mesmo tempo! Quem será essa mulher misteriosa, que finge não saber nada, mas sabe tudo? Vemos várias facetas de Vanda, mas não da mulher, da atriz, da personagem. Desse modo, transitamos por dois polos instigantes de revelações, Thomas que cada vez mais se descobre e vive o desejo pelo que Vanda representa e ela que a todo momento se esconde sob a encenação, o controle e a frieza. Os papéis de dominador e dominado são definidos e ambos parecem bem confortáveis e naturais. Mesmo quando Vanda resolve inverter as personagens, nada muda, quanto mais humilhado e doloroso se torna o papel para o diretor, mais ele se rende, mais fascinado fica, mais seu desejo aumenta. Ele não tem mais como fugir.

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Importante ressaltar que a relação é sempre consentida, não há violência, há descoberta, desejo e entrega, mesmo da parte de Vanda que precisa dominar, prender Thomas para poder ter seu escravo. No fundo, acredito, ambos são escravos, não um do outro, mas do desejo e do papel que representam, isso fica muito claro em Thomas, em Vanda nem tanto, uma vez que ficamos perdidos na ideia de quem ela realmente é. Contudo, o grau de planejamento e detalhes de sua encenação dá uma pista sólida sobre ela.

A cena final é um pouco perturbadora, possui um ritmo diferente e explica o título, Vanda aparece coberta em pele e dança, quase como um ritual bacante dos antigos cultos pagãos, para um Thomas amarrado, assustado, confuso e, sobretudo, fascinado. Seguindo o mesmo traveling da câmera do começo, vamos saindo do teatro e voltando para a rua, vamos saindo do transe, lembrando de que tudo não passou de uma encenação, um espetáculo tão íntimo, privado e, por que não dizer, humano.


Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões..
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