dividindo opiniões

Cinema, Literatura, Viagens e Afins...

Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões.

Como viver se nada importa?

Nada é um livro polêmico, principalmente se pensarmos que se enquadra na categoria jovens adultos, mas é um livro belo e cheio de verdades sobre o ser humano e suas questões. Na busca pelo sentido da vida, um grupo de adolescentes começa a abrir mão da sua inocência e a entrar na fase adulta. Mas parece que quanto mais perto de alcançar o sentido eles chegam, mais nada parece importar.


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A primeira vez que ouvi algo sobre Janne Teller foi sobre outro de seus livros, If war were here, o qual ainda não tive a oportunidade de ler, mas pretendo fazê-lo em breve. Por curiosidade fui pesquisar sobre a autora e me deparei com o Nada, admito que o que realmente me intrigou sobre o livro foi o fato de ter sido banido na Dinamarca após sua publicação e depois percorrer o mundo ganhando significativos prêmios literários. Comprei a versão americana para Kindle e comecei a ler. Não consegui parar e terminei o livro (que não é muito grosso) em cinco dias.

Imagina se alguém chegasse para você e dissesse que nada importa, que no dia em que nascemos começamos a morrer? E se você de alguma forma acreditasse que isso é verdade e se sentisse impelido a buscar o sentido da vida nas coisas ao seu redor? Se tivesse que eleger a coisa mais importante que possui para colocar em uma pilha de significados, o que escolheria? E se você fosse incapaz de desistir do seu tesouro e alguém tivesse que te dizer o que teria que abrir mão em nome do sentido da vida, o que será que teria que doar?

E ainda mais, imagina se você é um adolescente nos seus 13, 14 anos e tivesse junto com seus colegas de classe que encontrar e provar o sentido de toda a existência? Essas são as questões nas quais se baseia o belíssimo e controverso, porque não dizer louco, livro Nada.

Pierre Anton um garoto de 13 anos que vive em uma cidadezinha na Dinamarca descobriu que o sentido da vida não tem sentido e resolveu largar a escola subir em um pé de ameixa e atormentar seus colegas de classe com suas ideias de que nada importa e nem a vida e nem mesmo a morte possui significado algum. Isso abala seus colegas que não conseguem se livrar dessa ideia e não suportam mais ouvir o garoto rebelde, então coragosa e comprometidamente eles decidem fazer uma pilha de significados para provar a Pierre, no fundo para provar a si mesmos, que as coisas realmente importam.

O livro é morbido, mas lindo, no senso mais humano da palavra. A inocência destes adolescentes capazes de coisas horrendas impressiona e acaba for justificar e atenuar suas atitudes, não é a maldade por si só, é o sacrifício pessoal pelo bem comum. Tudo o que eles queriam era encontrar o sentido da vida, justificar seu lugar no mundo, eles não podiam aceitar a ideia de que nada faz sentido ou tem importância, era muito insuportável, muito absurdo. Quanto mais a pilha crescia, mais eles quebravam os limites morais e éticos, mais cruéis se tornam com o próximo e quanto mais perto de encontrarem o sentido chegavam, mais provavam que no fundo todas as coisas não importavam.

Contar o enredo do livro em voz alta é assustador, pois somente quando colocado em contexto e narrado da forma como foi por Agnes, uma das adolescentes envolvidas na busca por significados, é que o livro ganha um sentido mais puro, mais nobre, mais inocente. É definitivamente um livro para se pensar, sobre a vida, seu valor e seus limites. A grande maioria de nós felizmente não precisa chegar a extremos ou quebrar todas as barreiras por respostas ou para encontrar algum sentido, algo que valha a pena neste caos que chamamos de mundo, mas com certeza já nos deparamos com questões cruciais e com a busca pela razão de estarmos aqui. Acredito que, mesmo que se tenha uma crença e uma profunda explicação, por pelo menos um breve momento essa questão deve ter passado por todos nós, e cada um lida com isso e encontra sua própria resposta, uns juntos com outras pessoas que partilham de certa forma as mesmas ideias e necessidades, outros sozinhos. A adolescência é a fase da descoberta, do questionamento dos valores, da busca por si mesmo e pelo seu lugar no mundo, por isso acho que esta história não se encaixaria tão perfeitamente em outra fase da vida, mas o livro é para qualquer um que tiver coragem de se deparar com um lado não do bonito do ser humano, mas humano, demasiadamente humano, como diria Friedrich Nietzsche.


Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões..
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