dividindo opiniões

Cinema, Literatura, Viagens e Afins...

Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões.

Temos que viver enquanto ainda somos jovens

O filme Enquanto ainda somos jovens (While We're Young) de uma forma tragicômica apresenta um casal de meia idade sem filhos, que tenta mascarar suas frustrações e dificuldades saindo com um casal na faixa dos vinte. É uma comédia clichê, porém, se deixarmos o preconceito de lado, no final pode se ter uma reflexão profunda e verdadeira sobre a passagem do tempo e como podemos nos enganar sobre nós mesmos.


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Confesso que tenho um certo preconceito quanto aos filmes do Ben Stiller, em minha opinião são sempre versões da mesma coisa. Piadas sem graça no melhor estilo humor americano, personagens estereotipadas e um final xoxo, onde tudo dá certo... Contudo o tema do filme Enquanto ainda somos jovens chamou-me a atenção. Depois de uma certa idade, e eu já passei dos trintas, certas piadas começam a incomodar um pouco, fazem com que reflitamos sobre nossa própria vida e colocam em evidência nossas escolhas. Tenho a impressão de que a cada ano a reflexão aumenta, torna-se mais profunda, talvez madura. Mas tenho percebido também que é preciso manter a leveza, jovialidade e saber equilibrar cada momento e fase para que possamos apenas SER e ir SENDO sem a pressão da sociedade ou a repetição de estereótipos.

Somos bombardeados o tempo todo com o ideal de juventude eterna, imagens e opiniões, regras do que é certo ou errado, conveniente ou não para cada fase da vida e é justamente nesse ponto que o filme pega e, arrisco a dizer, pega pesado. Esse casal na faixa dos seus quarenta e poucos veio acumulando frustrações e desilusões ao longo do tempo. O filme começa mostrando um bebê e a inabilidade do casal, Josh e Cornelia, com o filho dos amigos, eles estão completamente deslocados naquele ambiente familiar, aquele mundo não os pertence. Afinal, eles não são pais, são apenas adultos. Chegam em casa pegam seu vinho, pedem comida e começam a justificar a própria vida, tentando encontrar motivos que justifiquem o porque sua vida é melhor do que a dos amigos com filho. Cornelia, interpretada por Naomi Watts, fala tentando convencer a si mesma que não quer ser mãe.

O personagem de Ben Stiller, Josh, é um documentarista meio frustrado que vive em busca de reconhecimento e encontra-se numa encruzilhada de 8 anos para terminar seu próximo filme, para piorar seu odiado sogro é um diretor conhecido e influente no mundo do cinema. Jamie, um aspirante a cineasta ambicioso e inescrupuloso, aparece justamente para suprir essa carência egóica de Josh e apresenta-se como um fã. Assim esse casal entediado e envelhecendo encontra Jamie e Darby, um casal nos seus 20 anos, e começam a se reciclar, se reinventar, voltam no tempo. Cornelia a princípio tem certas ressalvas, mas logo se rende ao charme da juventude.

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Não acho que o filme seja preconceituoso no sentido de que há um comportamento adequado para cada idade, o ridículo não e o casal sair com os jovens ou se sentir jovem. O tragicômico está em como eles tentam se enganar, tentam ser algo que não são, tentam não querer o que querem, é ridículo ver o como se agarram à esperança de que se tornando outra pessoa suas frustrações e desejos ocultos vão sumir. Mas não somem. Não somem porque a vida é assim, cheia de desafios e obstáculos e precisamos ser fortes e enfrentar nossos medos, enfrentar nós mesmos. Viver cansa, dá trabalho, mas a autodescoberta e a evolução são recompensadoras.

Josh e Cornelia vão abrindo mão de seus amigos, “que haviam perdido para o bebê”, e mudam seus hábitos e forma de pensar, começam a seguir Jamie e Darby. Mas como nem tudo são flores, com o desenrolar da trama Jamie revela-se uma pessoa completamente egoísta e Josh percebe que ele só estava o usando para se aproximar do seu sogro e desenvolver sua carreira. Aí chegam as cenas do desfecho do filme, no melhor estilo Ben Stiller, em que ele vai de roller para a festa revelar que Jamie era uma farsa e aquelas cenas tradicionais de comédia acontecem, mesmo assim o filme funciona e acredito vale a pena ser visto até o final.

Além das cenas iniciais, uma das cenas que mais gosto do filme é quando o casal conversa sentado numa rua após a desastrosa entrada de Josh na festa tentando desmascarar Jamie.

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Josh em um momento de clareza reconhece que queria tanto ser admirado e que Jamie o fez se sentir importante, um adulto; confessa: “foi a primeira vez na minha vida que eu não me senti uma criança imitando um adulto.” Cornelia surpresa observa: “Você se sente dessa forma também?” Provavelmente a maioria das pessoas maduras se sente ou já se sentiu pelo menos uma vez assim. O tempo passa e a vida acontece e sempre haverão coisas que nunca faremos ou teremos. Talvez esse seja um dos maiores medos do envelhecer, esse sentimento que a vida está ficando mais curta e com ela as possibilidades também. Limitações físicas, psicológicas e emocionais tendem a crescer com o passar do tempo. Quando se aprende certas coisas é comum o pensamento, se eu pudesse voltar, se eu soubesse disso antes. Mas esse é justamente o ganho do envelhecimento, o conhecimento acumulado pelas experiências e erros.

Independente disso, a cada minuto podemos fazer a escolha, a escolha de vivermos o presente, a escolha de sermos e nos amarmos como somos nesse momento, temos que nos aceitar, amar nossas dificuldades e limitações, pois só assim conseguiremos ser alguém melhor, mais jovem. Acho que só agora compreendo totalmente o significado da expressão latina CARPE DIEM, colha o dia, aprecie o agora. Não é ser inconsequente, irresponsável, ou viver de prazeres e deleites, mas deixar o passado para trás com suas amarguras e doces lembranças e deixar o futuro chegar naturalmente, com a passagem do tempo. Precisamos estar presente no agora, fazer o que estamos fazendo com plenitude. É muito fácil deixar nossa mente vagar para o passado, pensar no que teríamos feito diferente ou ficar pensando no amanhã, às vezes queremos que o tempo passe logo e leve com ele nossas tristezas e dificuldades, outras vezes queremos que o momento seja eterno. O tempo vai passar no seu tempo, envelhecer é um processo natural desse mundo, mas isso não precisa ser um fardo, não precisamos fugir das nossas experiências, nos cercarmos de jovens para nos sentirmos mais jovens, a juventude é um estado de espírito e não precisamos abrir mão da maturidade ou achar que com o passar do tempo precisamos ser mais fechados, carregar o mundo nas costas. O equilíbrio e o auto conhecimentos são as melhores opções para aproveitar aquilo que cada fase traz.

Refletir é bom, contudo a vida vai acontecendo, às vezes sem nem nos darmos conta. Josh e Cornelia, em meio a toda essa confusão, percebem que o ser humano muitas vezes precisa se perder antes de realmente se encontrar e cada erro ou mal julgamento servem para ensinar algo sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre os outros, basta estar aberto para experimentar, perceber e, por que não?, evoluir. Que a descoberta da vida e a passagem do tempo nos tragam mais amor, mais sorrisos e sabedoria ao invés de arrependimentos, frustrações e limitações. Que a saudade seja a benção do que se viveu, não a maldição de não se ter mais. CARPE DIEM!

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Alessandra Marchi Carrasco

Escritora e cineasta. Formada em Letras Português e Grego e mestre em Filosofia Grega pela USP. Estudou cinema em Berlin. Atualmente em Londres, escreve um pouco sobre tudo, em especial ficção, crítica de filmes / livros e opiniões..
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