do contra

Nem tudo que te ensinaram na escola era verdade.

Pedro Henrique Alves

"Um rapaz altamente promissor" Por: Rodrigo Jungmann (Doutor pela University of California e docente na Universidade Federal de Pernambuco)

1984: O aviso de George Orwell (Parte 2)

George Orwell tinha nos alertados sobre a tirania governamental, em sua consagrada e estupenda obra: 1984, nos deixou um manual completo para reconhecermos um governo tirânico.


42.jpg Imagem do Filme: 1984 (Umbrella Films e Virgin)

Parte: 2

Continuando o texto anterior vamos aos apontamentos que George Orwell nos deixou.

Para quem ainda não leu a parte 1, o texto está aqui.

São três os principais apontamentos que George Orwell deixou para que identifiquemos um governo tirano: 1º Mudança ou omissão histórica; 2º Mudança semântica de palavras que conceituam condutas éticas e morais (Religião); 3º Controle absoluto sobre as liberdades individuais. Dissertemos um pouco sobre estes três apontamentos:

Não é surpresa a ninguém que muitos fatos históricos nos são omitidos por opções claramente ideológicas. Seja por nossos professores ou pelas instituições de ensino. Na obra em questão, Winston, o personagem principal da trama, trabalha para o partido em um departamento onde sua função é corrigir ou apagar dos registros históricos qualquer tipo de incongruência em discursos do “Grande Irmão” (Big Brother). Também é sua função construir fatos heróicos para o entorpecimento psicológico da nação, em suma, ele deve reescrever a história de uma forma que as pessoas creiam que somente sob a tutela de tal partido e/ou sob os sagrados mandamentos ideológicos vigentes seja possível viver em “liberdade” e em harmonia.

Obviamente, na obra, o autor tende a levar os fatos ao extremo para mostrar aquilo que ele pretende criticar, mas o fato assustador é que a realidade não se distanciou tanto assim da ficção, principalmente na história do século passado e, em alguns aspectos, em nosso século também. Muitos fatos históricos nos são omitidos ou são transmitidos parcialmente por vieses ideológicos. Basicamente seria o mesmo que dizer que o professor engajado e fiel a sua ideologia procurará não contar os fatos que deteriorem suas crenças. Assim, os conteúdos factuais não passarão de parcialidades moldadas para se distanciarem da verdade que fere ou enfraquece a ideologia do docente. Se surgir alguma dúvida se isto de fato é real, afirmo que sim, meus caros, e vocês entenderão.

Um exemplo claro disso são nossas universidades, muitos jovens, entorpecido por ideologias, defendem ideias e pessoas das quais são completamente ignorantes, sejam sobre o que seus “heróis” defendiam ou sobre o que faziam. Veja, não se trata de um discurso moral, se trata de fatos, fatos estes que são escondidos e muitas vezes maquiados, criando uma verdadeira nação de homens que defendem espectros e ideais ao invés de pessoas e ideias. Demos alguns exemplos do que a maquiagem histórica e a cegueira ideológica causam.

É fato histórico, e amplamente documentado[2], que Che Guevara foi um verdadeiro assassino[3], matou centenas, talvez milhares de pessoas. Também é fato que ele é idolatrado em nossas academias como sendo um exemplo a ser seguido por nossa juventude. Colocado em um pedestal triunfante por nossos educadores, este homem matou muitos homossexuais simplesmente por serem homossexuais, e ironicamente, ou melhor, inexplicavelmente, os homossexuais no Brasil, em sua maioria, o idolatra. Nosso deputado federal Jean Wyllys que é assumidamente homossexual já fez “Cosplay” de Che Guevara, seu ídolo. O mesmo Che Guevara que por décadas estampou ou ainda estampa, camisetas e mensagens de hippies que pregam a paz e o amor.

Fidel Castro, que foi seguidor de Che Guevara, também idolatrado por nossas academias de ciências humanas, além de ser conhecido como “Fidel Paredon” por ter matado milhares de pessoas sem julgamento algum simplesmente por discordarem da “revolucion” [4]. Seguindo seu mestre Che, matou, torturou e humilhou milhares de gays em sua ilha particular. Hoje, inexplicavelmente, os defensores deste homem em nosso país, em sua grande maioria, são gays. Não é raro ver apologias a Cuba nas paradas homossexuais (LGBT) de São Paulo. Reinaldo Arenas, um poeta cubano, gay e desertor da Ilha caribenha, escreveu uma autobiografia que desmente totalmente esta visão utópica da igualdade e prosperidade cubana. Em uma passagem onde ele descreve as perseguições policiais aos gays, ele assim relata o tratamento que eles (homossexuais) recebiam, ou ainda recebem, em Cuba: “[...] a bicha de coleira; este era o tipo de homossexual escandaloso que constantemente era preso em uma sauna ou praia. O sistema fazia com que ele usasse, conforme pude verificar, uma coleira que estava constantemente em seu pescoço; a polícia o prendia com uma espécie de gancho e ele era levado assim para os campos de trabalho forçado”[5], ao terminar sua autobiografia Reinaldo Arenas se suicidou.

Poderíamos citar outros inúmeros fatos, por exemplo, a total falta de ensinamento histórico sobre as origens e desenvolvimentos das ditaduras do século XX, os campos de concentração de Pol Pot, a carnificina de Mao Tse, os sumiços de políticos feitos por Augusto Pinochet, e outros. Esta clara contradição histórica entre fatos e ensino são alarmantes, ou melhor, assustadoras, pois talvez tenhamos chegado a um ponto da história da humanidade onde a verdade pouco importa, o que importa é que eu creia histaricamente em uma estória que satisfaça meu ego ideológico e/ou a vontade de um tirano ou partido. Em 1984, os líderes do partido faziam a população repetir incansavelmente que: 2+2 é igual a 5. Qualquer semelhança não parece ser mera coincidência.

Quem aqui estudou na escola sobre as ditaduras russas ou sobre as barbaridades dos “Gulags” Soviéticos? Das masmorras cubanas? Os casos extremos de canibalismo na Ucrânia soviética? Não é porque sou socialista ou liberal que eu possuo a permissão moral de esconder os podres de minha ideologia de estimação.

As mudanças semânticas das palavras são uma das estratégias do SOCING, na ficção de Orwell retirar palavras que denotem alguma ação moral natural do homem, ou coisas que assim se assemelhem, como as palavras: "liberdade, Deus, religião, direito natural, propriedade privada" entre outros, é parte da estratégia de manipulação social do SOCING. Com o dicionário oficial do partido (novafala) cada vez mais reduzido, com a retirada dos conceitos: direito natural, religião, liberdade individual e outros, o partido pretende tornar-se a única moral vigente, fazendo da sociedade um aglomerado maleável a seus desígnios totalitários. Ora, se não existe nenhuma lei natural, nem Deus (religião), nem moral, ou liberdade individual, a única regra é a regra social, consequentimente: partidária. A única regra normativa que se faz ouvir é aquela imposta pelo governo, se não há liberdade não há espaço para contestações.

Atualmente assistimos a sociedade tentar fazer o mesmo através de uma ideologia transmutada do feminismo. Com o advento da “teoria de gênero”, tendo seu desenvolvimento mais latente nas obras da filósofa Judith Butler, ensina-se que não existe uma categorização natural que nos diga a que sexo pertencemos, nem mesmo a realidade biológica é uma verdade, pois o sexo para estes, é, antes de tudo, um dado estritamente cultural, pessoal e psicológico. Ou seja, "eu não nasci homem ou mulher, eu me tornei homem ou mulher, segundo meus desígnios culturais e psicológicos". Com esta nova formulação muitos querem mudar ou até mesmo retirar o nome “família” da sua conceituação originária: Homem + mulher = prole (ou abertura natural a esta)[6]. A família, tal como a conhecemos, é anterior a qualquer Estado ou organização social, antes dos homens resolverem viver na mais longínquas e primitivas sociedades, a família já era macho + fêmea e sua prole, sendo assim, o Estado não pode conceituar algo que já era antes dele ser, ele apenas pode afirma-lo ou nega-lo, mas nunca reconceituá-lo. Após seu nascimento, mesmo que queira, não poderá mudar o fato de ser um ser humano, pois, ser humano é anterior ao indivíduo e as jurisdições humanas. Da mesma forma a família é anterior ao Estado, e, mesmo que se tente, nunca mudará aquilo que família é. Uma verdade será verdade mesmo que a maioria diga que ela seja mentira. O bastião da realidade não pode ser ocultado por montagens humanas egocêntricas.

Assim também acontece com as terminologias das palavras, por exemplo, ALUNA(O). Segundo esta teoria de gênero, aceita e propagada pela ONU, UNESCO e pelas academias, a terminação “A” ou “O” perde seu sentido, pois, para estes, o sexo não pode ser pré-definido, o sexo é uma escolha pessoal, psicológica e cultural intrínseca a cada pessoa. Passa-se a usar então: "ALUNX", como se nós fossemos um ser amorfo (ou amorfx), como se nascêssemos amebas (ou amebxs).

Veja, se um governo possui o poder de lhe dizer o que a sua família é ou não é, dizer a seus filhos o que ele são ou não sexualmente, o que mais falta para possuírem controle absoluto sobre você e sua casa?

Na obra que estamos refletindo o primeiro dispositivo de tirania e regulação social é o Estado. O partido e o Estado se confundem em 1984. O primeiro sinal de um governo tirano e ditador, em todas as épocas, foi um Estado inflado e manipulador das liberdades mais básicas dos indivíduos, seja na moral pessoal, familiar, costumes ou vida privada. Um Estado que começa a ditar a práxis social, aumentando o controle econômico via impostos, impondo a todos uma maneira correta de agir e pensar, violando todo e qualquer aparato de liberdade individual, controlando todo sistema educacional e não dando abertura a pensamentos destoantes da sua ideologia, como denunciou Pascal Bernardin em sua obra: Maquiavel pedagogo[7]. Independentemente se isto ocorra em maior ou menor grau, tendo como controle social a repressão física ou psicológica, este governo já é um governo totalitário.

Desconfie sempre de um governo que lhe diga o que seu filho deve ou não ser, desconfie de um Estado que invade os muros de sua casa para ditar a sua forma de viver. Quem deu ao Estado o direito de dizer ao meu filho o que ele é ou não? Tanto no fascismo quanto no comunismo o Estado inflado sempre foi prelúdio de carnificina de empilhar corpos e encher mares de sangue. “Sempre que puder opte por menos Estado”, pode-se ouvir este grito das profundezas de “1984”.

Estas são as principais sinalizações de Orwell para identificarmos um governo tirano, a genialidade de um homem se mostra quando sua filosofia, mesmo após sua morte, se torna necessária em épocas vindouras. A grande realidade é que não aprendemos com nossos erros. Vimos um homem com bigode exótico subir nas praças públicas da Alemanha e pregar coisas estranhas e assustadoras, dissemos a nós mesmos: “relaxa, isto não vai dar em nada”, anos depois este homem empilhava corpos e mais corpos, pois era guiado por suas ilusões ideológicas; vimos Lênin, que se dizia possuidor do socialismo puro, anos depois criando seus sistemas de guerras e conquistas territoriais, suas usurpações de propriedades e liberdades, empilhando, também, seus cadáveres de estimação; Stalin, o mais sangrento de todos, que também dizia ser o paladino do comunismo, e, cegado por esta ideia, tornou-se talvez o homem que mais matou na terra, criador dos famosos “Gulags”(os campos soviéticos de trabalho forçado)[8]; Mao Tse, outro assassino guiado por suas convicções, homem que ainda reina na China e também matou aos milhões. Todos estes, incrivelmente seguiram os três passos salientados por George Orwell em 1984. Dizer que as tiranias foram iguais a obra em questão, não, a ficção de Orwell não tinha a pretensão de se tornar realidade, ele tinha pretensão de evitar que sua ficção se transformasse ou se aproximasse da realidade, mas os homens não souberam compreende-lo!

Caminhos velhos darão sempre a finais repetidos, eis o grande grito de George Orwell.

Referências:

As referências serão continuada com o texto anterior.

[2] FANTOVA, Humberto, O verdadeiro Che Guevara. 1ª ed. São Paulo: É realizações, 2009.

[3] https://www.youtube.com/watch?v=7m6QKgv2opk Acesso: 12/12/2015, às 12:43

[4]FONTOVA, Humberto. Fidel o tirano mais amado do mundo. 1ª ed, São Paulo: Leya, 2012; CUMERLATO, Corinne; ROUSSEAU, Denis. A ilha do doutor Castro: A transição confiscada. 1ª ed, São Paulo: Editora Peixoto Neto, 2000

[5] ARENAS, Reinaldo. Antes que anoiteça, 1ª ed. Rio de Janeiro: Edições Best Bolso, 2009. P. 106

[6] http://www.publico.pt/ciencia/noticia/descoberta-sepultura-do-neolitico-com-o-mais-antigo-nucleo-familiar-conhecido-1350446

[7]BERNARDIN, Pascal. Maquiavel pedagogo: ou o ministério da reforma psicológica. 1ª ed, Campinas SP: Ecclesiae, 2013

[8] GELLATELY, Robert, Lênin, Stalin e Hitler: A era da catástrofe social. 1ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2007


Pedro Henrique Alves

"Um rapaz altamente promissor" Por: Rodrigo Jungmann (Doutor pela University of California e docente na Universidade Federal de Pernambuco).
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