Danielly Mezzari

Tecnologia e produção de si

A tecnologia é compreendida frequentemente como uma ferramenta que utilizamos para aprimorar ou resolver problemas. Mas será que de fato percebemos o impacto que ela tem nas nossas vidas? Ela pode nos ajudar a construir relações mais solidárias, a transformar a forma como nos relacionamos? Ou será que é simplesmente um instrumento que auxilia em processos de dominação e/ou alienação?


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“A tecnologia está cada vez mais presente em nossas vidas”. Essa é uma frase muito dita ultimamente. Temos a tendência de pensar a tecnologia como ferramentas que utilizamos a fim de nos aprimorar ou de resolver alguns problemas, como a distância entre as pessoas, a dificuldade de comunicação entre elas, etc. Inclusive se fizermos uma rápida busca acerca do significado do conceito é mais ou menos isso que vamos encontrar, que a tecnologia diz respeito às técnicas, ferramentas ou conhecimentos desenvolvidos para resolver ou auxiliar no processo de resolução de determinados problemas. Ou seja, pensamos a nossa relação com a tecnologia sempre tendo como norte a pergunta: “no que ela pode nos auxiliar?”. Acredito que essa é uma pergunta interessante e mesmo fundamental, no entanto, acho que está na hora de nos perguntarmos também: “o que muda em nós, nas formas como nos relacionamos?”. Digo isto por muitas vezes perceber que não nos damos conta do impacto e/ou da presença que a produção tecnológica possui nos nossos cotidianos.

Não é apenas nossa relação com outras pessoas que muda, no sentido de que hoje podemos manter relações próximas com pessoas que estão muito distante de nós espacialmente. A noção mesmo de tempo e espaço é outra. Hoje podemos, ao usar a internet por exemplo, acessar milhares de conteúdos sobre os mais variados temas em questão de minutos. Podemos disponibilizar na rede conteúdos pessoais, saberes locais, que podem se conectar a uma ou milhares de pessoas e gerar um efeito global com uma intensidade inimaginável há um tempo atrás. Exemplo disso são os vídeos caseiros que, de uma hora para outra, viralizam na internet e são acessados por milhares de pessoas. Podemos ter acesso à produção dos mais variados tipos de saberes, sejam eles científicos ou não. Se nossa compreensão de espaço sempre nos fez crer que ele é algo que pode ser delimitado, que é passivo e que pode ser medido, a rede reconfigura essa relação e nos apresenta a um espaço ilimitado, ativo, em que podemos ir de um lugar a outro sem sair do lugar. Tudo isso altera a nossa percepção de tempo e espaço, cria outras bases sob as quais nós organizamos nosso cotidiano e a nós mesmos.

Com tudo isso, podemos pensar que a produção de tecnologia não é apenas uma forma de suprir necessidades ou resolver determinados problemas e dificuldades. É, para além disso, uma forma de criar outras demandas, outras relações, outras fronteiras, outros sujeitos. Quando passamos a nos comunicar a partir de outras formas, de outras ferramentas, alteramos não apenas o meio pelo qual nos comunicamos, mas a própria comunicação. O celular não apenas é uma ferramenta que auxilia a comunicação de pessoas que estão longe uma da outra, mas também participa da criação de laços e de relações pessoais, afetivas, profissionais que passam a ser não apenas um desejo, mas uma necessidade nas nossas vidas. Necessidade essa criada pelas novas possibilidades existentes a partir das transformações tecnológicas.

Podemos ir até mais longe do que isso e afirmar que a relação que estabelecemos com a tecnologia é tão intensa que estamos impregnados dela de uma maneira tal que podemos dizer que nosso próprio organismo é resultado das inovações tecnológicas. E não estou me referindo apenas àquelas pessoas que precisam de próteses ou algo assim. Estou falando de todos nós. Das tecnologias presentes na produção e preparo da comida que comemos, das roupas que vestimos, das vacinas que tomamos, procedimentos cirúrgicos que fazemos, dos conhecimentos produzidos e aplicados aos nossos corpos.

Quando paramos para refletir um pouco sobre o entrelaçamento da tecnologia nas nossas vidas, muitas vezes sentimos medo. Sentimos medo justamente por perceber a transformação que ela gerou e ainda gera e, portanto, a consequente insegurança que vem junto. No entanto, acredito que a tecnologia pode nos proporcionar ferramentas que permitam uma revolução, inclusive nas formas como aprendemos.

Temos, hoje, uma disseminação de informações que cria e impõe ao sujeito sentidos já prontos e que, portanto, muitas vezes não necessitam da participação deste no que diz respeito à criação e desenvolvimento de suas próprias atribuições a partir de suas vivências e experiências. Se pensarmos a tecnologia como um dispositivo que pode facilitar e estimular a criatividade nos mais variados níveis e contextos podemos criar, a partir e junto com ela, novos sentidos para a informação, podemos transformar e criar novas formas de subjetividades que apontem para relações mais solidárias e criativas. Podemos pensar em uma relação com a aprendizagem que seja pautada em uma constante problematização e vontade de aprender a aprender e não simplesmente de absorver conteúdos específicos. Entretanto, da mesma forma, a tecnologia pode se apresentar como um empecilho nesta direção se for encarada como uma ferramenta que simplesmente opera no sentido de ser um meio para um fim, de ser um instrumento que nos auxilia na dominação do mundo ao invés de algo com o qual nos relacionamos para transformar e, de fato, inventar um mundo melhor.

Sendo assim, considero fundamental que possamos problematizar nossa relação com a tecnologia sem cairmos em um idealismo ou ingenuidade absoluta, acreditando que ela traz apenas desenvolvimento, progresso e um melhoramento das nossas capacidades enquanto indivíduos ou mesmo espécie. No entanto, sem nos deixar levar também por um ceticismo intransponível que acredita e aposta no potencial destrutivo e inútil das produções tecnológicas no que se refere à criação de relações mais solidárias e inventivas entre nós. Para fazer isso, acho que deveríamos começar nos fazendo uma pergunta fundamental: que tipo de mundo, de relações, queremos construir?


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