Danielly Mezzari

Você já se desconstruiu hoje?

Sempre temos alguma coisa para falar do outro. Dos seus relacionamentos ruins, das suas decisões erradas, da falta de bom senso e cuidado. Nós sempre sabemos a medida exata do que está certo e errado nas vidas alheias. Mas será que paramos para refletir sobre as nossas? Você já se olhou hoje? Já refletiu sobre suas próprias escolhas cotidianas?


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Gostaria aqui de fazer uma reflexão acerca das nossas práticas profissionais (e pessoais também) no que diz respeito aos relacionamentos que estabelecemos com as pessoas que fazem parte do nosso meio. Mais especificamente, quero falar sobre o quanto olhamos para o outro e deixamos de olhar para nós mesmos, enquanto sujeitos e enquanto profissionais, quando vamos pensar sobre escolhas e/ou estilos de vida que as pessoas aderem. Apesar de me voltar à psicologia, que é de onde eu falo, acredito que podemos estender essas reflexões para várias outras áreas, principalmente aquelas nas quais se pressupõe um contato direto entre pessoas.

É muito comum que nós, profissionais da psicologia, concebamos esta tal ciência como aquela que tem como uma de suas preocupações e tarefas a problematização do outro, a intervenção no outro, no contexto deste outro, de forma até, inclusive, a identificar capturas pelas normas dominantes de vida, sejam aquelas que legislam sobre a expressão das sexualidades, das etnias, das classes, etc. No entanto, nos esquecemos, na maioria das vezes, de procurarmos fazer o movimento reverso, que seria o de problematizarmos também a nós mesmos, a nossas práticas e o quanto estas acabam por legitimar formas de opressão que reproduzimos no nosso cotidiano.

Quantas vezes no exercício mesmo da nossa profissão nos omitimos frente a opressões escancaradas ou veladas, quantas vezes inclusive nós mesmos somos as(os) reprodutoras(es) diretas(os) destas opressões. Quantas vezes, ainda, nas mesas de bar, damos risada ou nos omitimos frente a uma piada machista, transfóbica, gordofóbica. Temos que parar de separar nossa vida profissional da pessoal como se fossem duas partes totalmente diferenciadas e que não dizem respeito uma a outra. Não quero defender aqui a ausência de momentos de lazer e de envolvimento com outras atividades e pessoas que não estão ligadas às nossas profissões. Mas acho importante que nós possamos, de fato, apropriarmo-nos das problematizações que fazemos e transformá-las em experiências cotidianas de combate e desconstrução de preconceitos, e não de legitimação de práticas opressivas.

É muito fácil (talvez nem tanto) olharmos para uma outra pessoa que se encontra, por exemplo, em um relacionamento destrutivo e opressivo e simplesmente apontarmos o quanto sua vida segue de acordo com as normas padrões ditadas pela heteronormatividade, pelo amor romântico compulsório, pelo racismo, machismo, etc. Muitas vezes fazemos isso, ainda que sem perceber, com a intenção de nos situarmos fora desse lugar, ou seja, como pessoas muito livres e subversivas, que transgridem toda e qualquer norma. Para além disso, não percebemos que essa atitude acusadora, além do efeito já mencionado, não ajuda em nada na emancipação e produção de autonomia desta outra pessoa que, inclusive, provavelmente já se encontra em uma situação de opressão suficientemente ruim sem nossos julgamentos.

Não considero, de forma alguma, que tenhamos que aceitar mulheres apanhando de maridos, por exemplo, e que, por n motivos, permanecem caladas sem coragem para denunciar. Toda forma de opressão deve ser problematizada e combatida. Estou questionando, nesse momento, a nossa aparente necessidade de nos diferenciarmos destas mulheres, que somos eu, vocês, nós todas, como se fôssemos imunes às capturas normativas das mais diversas e/ou como se estar em uma relação de opressão, por exemplo, fosse responsabilidade única das pessoas que a experienciam.

É inegável, de onde eu olho, a necessidade de transgressão de toda e qualquer norma que se pretenda constituir como única possibilidade possível para o quer que seja. É preciso a promoção de problematizações e questionamentos constantes nas nossas práticas. No entanto, temos que tomar o cuidado de, ao advogarmos a criação e a legitimação de outras formas de existência, não passarmos por cima do direito de escolha que cada um tem no que diz respeito às suas próprias vidas e, mais ainda, das condições concretas que cada pessoa possui para subverter suas próprias relações. Com isso quero dizer que não temos o direito de julgar ninguém ou exigir (de acordo com nossos próprios parâmetros de julgamento acerca do que é certo e errado, do que é melhor ou pior) que uma pessoa consiga, ou mesmo queira, transgredir todo e qualquer padrão normativo. Minha preocupação, ao perceber em outras pessoas e em mim mesma a emergência deste desejo de que o outro (e eu também) faça as escolhas que considero as mais acertadas, as mais isentas de práticas normativas vai de encontro ao questionamento que Rosi Braidotti se faz: mediante quais pontos de interconexão, de linhas de fuga, é possível produzir um conhecimento feminista sem estabelecer uma nova normatividade? É muito comum, quando começamos a problematizar alguns padrões dominantes de modos de se relacionar que estão dados nos nossos cotidianos, acabarmos criando novos padrões de relacionamentos que, apesar de não terem a força dos primeiros, atuam a partir dos mesmos pressupostos daquele modelo que buscamos romper. Ou seja, acabamos, muitas vezes, criando novos padrões que acreditamos que todas as pessoas devem seguir sem nos darmos conta de que, ao fazer isso, estamos negligenciando a multiplicidade, tanto de pessoas quanto de possibilidades de se relacionar e mesmo de existir.

Acho extremamente importante que possamos produzir uma constante problematização não apenas da realidade das pessoas com quem nos relacionamos, seja no nosso ambiente de trabalho ou no nosso cotidiano, mas das nossas próprias escolhas e possibilidades. Não estou dizendo que não podemos ou não devemos problematizar as escolhas de outras pessoas. Muito pelo contrário. Temos uma tendência a achar que escolhas são feitas de modo totalmente individual, como se não fôssemos o tempo todo atravessadas(os) pelos discursos que operam nos meios pelos quais circulamos e pelas relações que estabelecemos com outras pessoas. Com isso estou querendo dizer que todas as nossas escolhas, os nossos gostos, não são simplesmente preferências, desejos criados, produzidos e alimentados unicamente pela nossa vontade. São produzidos na relação com as práticas culturais da nossa região, com os valores dominantes propagados nos nossos espaços pelas mais diversas vias, pela criação que tivemos, as pessoas com quem convivemos, etc. Sendo assim, é desejável e necessário um questionamento constante da produção desses desejos e escolhas, tanto em nós mesmas(os) quanto nas outras pessoas.

O que considero problemático não são esses questionamentos, mas sim a necessidade que temos de impor, muitas vezes, nossos desejos, estilo de vida, visões de mundo para pessoas que se encontram em realidades muito diferentes da nossa. Você se considera um homem heterossexual e está em um relacionamento monogâmico? Você se vê como uma mulher homossexual e pratica o amor livre? Ou então optou por não ter relações sexuais com quem quer que seja? Você é uma mulher que não quer ter filhas(os)? Ou que prefere abdicar de sua vida profissional para criá-las(los) da maneira que considera ser a melhor? Você não se considera nem homem nem mulher? Ótimo. Espero que você possa produzir sempre questionamentos acerca das suas escolhas e experiências e, se assim desejar, que possa produzir as mudanças que considerar necessárias e que tenha todo o apoio para isso. Espero ainda mais desejantemente que você não considere que as suas escolhas e experiências sejam mais legítimas que as de qualquer outra pessoa e que, mesmo que elas te façam muito feliz, você saiba que cada um tem a liberdade (ou deveria ter) para fazer suas próprias escolhas (desde que não esteja oprimindo ninguém).

Dei um enfoque, neste espaço, nas questões relacionadas às relações de gênero e relações sexuais, mas considero que podemos expandir os exemplos e problematizações a várias outras esferas da vida.


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