doce calÇada

Sobre o tablado da vida urbana.

Ítalo Sérgio

Um esperançoso...

Um caso de gentileza - Muito prazer, Praça das Artes

Sobre a potencialidade intervencionista da boa arquitetura em cenários subutilizados e o tom generoso do espaço construído.


Praça das artes 1 (500x389).jpg Brasil Arquitetura

A elevada quantidade de espaços ociosos na maioria das áreas centrais das grandes cidades brasileiras, o abandono é o resultado das novas práticas que estão sendo aplicadas pela atual sociedade, atreladas à uma série de fatores que vão desde o desgastado espaço urbano, passando pela negligência do valor econômico e social, até a contextualização dos grandes empreendimentos corporativos que buscam outros aspectos urbanísticos, arquitetônicos e tecnológicos em sítios mais afastados no presente conteúdo urbano. No entanto, é importante destacar que as áreas em questão, são detentoras de uma forte ligação passado – presente, guardando memórias, conhecimentos e tradições de um povo. Além disso, esses cenários do cotidiano são responsáveis pelo abrigo das diversas atividades e serviços, graças ao sólido sistema de infraestrutura (geralmente necessitado de manutenção) oportunamente instalado. Ainda assim, parece que poucos percebem as férteis brechas desperdiçadas.

Foi em uma das tantas quadras, localizada no Centro da cidade de São Paulo, que acumulava uma série de edifícios subutilizados, onde nasce de modo simples, um conjunto edificado bastante gentil, atendendo as funções básicas da arquitetura de servir e transformar, o conhecido projeto da Praça das Artes. A iniciativa do espaço foi da secretaria da cultura, convidando o escritório Brasil Arquitetura para realizar as diretrizes da obra, que logo identificou no miolo de quadra a potencialidade de regeneração urbana não apenas nos seus limites, mas também do próprio entorno, sugerindo um edifício que tem a finalidade de abrigar os corpos artísticos, a orquestra sinfônica municipal, os corais, toda a parte profissional e as escolas do município como objetos de desenvolvimento e ainda para servir de apoio ao Teatro Municipal, situado a poucos metros. Nesse sentido, por meio de linhas muito generosas, o projeto se ramifica e define a integração entre três importantes vias que envolvem a quadra, a Avenida São João, a Rua Conselheiro Crispiniano e a Rua Formosa, no Vale do Anhangabaú, criando conexões ao tecido da cidade, permitindo o fluxo contínuo de pessoas (que seguem protegidas das intempéries através da projeção do edifício) e favorecendo a magia do inesperado.

Praça das artes 5.jpg Folha de São Paulo

É comum observamos na contemporaneidade, projetos implantados de maneira totalmente descontextualizadas e desvinculadas à sua vizinhança, na incessante busca de apresentar o status de protagonista a todo custo, seja por sua forma, pelo seu estilo, por sua materialidade, ou ainda, por seus adornos extravagantes. O que não é o caso da Praça das Artes, pelo contrário, o conjunto é humilde na sua implantação, ele não faz questão de se impor, vai se fixando através do respeito à edificação do passado, contornando os limites de quem já resistiu bastante ao tempo e foi cenário de muitas histórias da vivência urbana. Trata-se de um jovem edifício, mas que possui qualidades tão experientes e sábias quanto os seus vizinhos mais antigos.

Praça das artes 6 (500x322).jpg Brasil Arquitetura

As paredes de concreto aparente, bastante resistentes, apoiadas de modo natural sobre as laterais do edifício, criam vãos livres, onde a surpresa na ocupação humana e a interação entre as pessoas é sempre bem-vinda, na verdade, essa é a identidade da Praça das Artes, uma construção que se faz honesta ao assumir sua própria estrutura na pele e emoldura as vivências humanas.

Suas janelas irregulares permitem a mediação entre a parte externa e o interior da obra. Como é belo poder visualizar a sutileza de uma bailarina que ensaia suavemente movimentos de extrema precisão, ou ainda observar o ritmo cuidadoso de um violinista através de aberturas que não se preocupam com as regras simétricas impostas pelo "modelo" estético atual. São simplesmente lúdicas e libertas, talvez a própria linha da conceituação que segue a arte.

Praça das artes 2 (200x300).jpg Brasil Arquitetura

O edifício é sem sombra de dúvidas um exemplo da sutileza e do purismo arquitetônico, que faz questão de nos mostrar por meio das suas características, quais os verdadeiros valores da vida.


Ítalo Sérgio

Um esperançoso....
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/arquitetura// @destaque, @obvious //Ítalo Sérgio