doce menina

a essência daquilo que se é

Natally Rodrigues

Um ser humano aprendiz da vida, do mundo, das sensações, um ponto sem fim regido pela arte. Autora dos livros de poesias "Doce Menina" e "Viver é um pecado mortal", graduanda em Psicologia.

O que a sua criança te diria? E o que você diria para ela?


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Duas Vidas (2000) é um filme que aborda sobre os desejos da infância e os caminhos da vida adulta. Russ é um consultor de imagem de sucesso, reconhecido pela alta classe da sociedade. Até que um dia, ele começa a ver a sua criança de oito anos, o pequeno Rusty. Primeiramente, se enfurece e se questiona a respeito do motivo da criança estar ali, trinta e dois anos depois.

Russ acredita que Rusty apareceu pois a criança precisa da sua ajuda, em como se defender de colegas da escola. Ao decorrer do filme, pode-se observar que Rusty considera que se tornou um adulto fracassado, pois não é casado, não é piloto de avião e não tem um cachorro. Neste ponto, reflete sobre os desejos da infância e em como o adulto Russ foi realizando escolhas que se distanciavam dos seus desejos. Isso aconteceu devido ao desprezo que Russ sentia durante a infância, do modo como era tratado pelas pessoas, colocando-se em uma posição sem prestígio pelos outros e buscando ser alguém que não apenas chamasse a atenção das pessoas, como principalmente fosse respeitada.

Uma vez eu ouvi uma frase que dizia "eu quero ser o homem, que não envergonhe o menino que eu fui". Ao analisar o filme "Duas Vidas", eu lembrei exatamente dessa frase. A principal reflexão que o filme traz é a questão da criança interior que muitos de nós matamos e enterramos dentro de nós, às vezes, por não acreditar que aquela criança seja digna de amor, de respeito e de viver. Russ havia se tornado uma pessoa que envergonhava a criança que ele tinha sido.

Na sociedade atual, as pessoas estão muito focadas em ser um figura de poder, de admiração e de "respeito". O que a gente esquece é que toda essa produtividade e ações voltadas para resultado, por vezes anula a nossa vida emocional saudável e a nossa conexão com quem realmente somos. Olhar para a sua criança interior, reconhecê-la e aceitá-la, pode ser um processo desafiador. Porém, tão necessário quanto respirar. A partir disso, podemos ressignificar e alterar padrões comportamentais.

Em um momento do filme, Rusty explica o que Russ faz como consultor de imagem, ele diz o seguinte: "você ajuda as pessoas a mentir sobre quem elas são de verdade, e aí elas mentem para as outras pessoas sobre quem elas realmente são". Mentir sobre quem a gente é de verdade, tem um preço a se pagar. Como tudo na vida tem, como todas as escolhas que fazemos têm. A observação é que ao mentir sobre nós, por mais que a gente diga diversas vezes e tente acreditar com toda força que é a única verdade possível, no fundo sabemos que algo está errado, em discordância. O preço do Russ era uma vida solitária e vazia aos quarenta anos, mesmo ele estando rodeado de pessoas com alto status social.

Ser desprezível para a sociedade materialista focada em produtividade? Ou ser desprezível para a criança que você foi? Sabe aquela criança que diria que ao crescer faria tudo diferente, está fazendo? Se conectar com nossos reais desejos, nos coloca em posição de liberdade e responsabilidade com nós. Se conectar com nossos reais desejos nos motiva a viver. Questionar se a criança que eu fui, teria orgulho de quem eu sou hoje, nos faz pensar e avaliar sobre o nosso modo de viver. Pelo quê você tem pagado o preço? O que a sua criança te diria? O que você diria para ela? Às vezes, a gente oculta a nossa parte mais bonita por medo do que vão dizer, por não se aceitar.


Natally Rodrigues

Um ser humano aprendiz da vida, do mundo, das sensações, um ponto sem fim regido pela arte. Autora dos livros de poesias "Doce Menina" e "Viver é um pecado mortal", graduanda em Psicologia..
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