dois bits

neste espaço fazemos reflexões sobre a vida e a liberdade.

Pedro Silveira

escavo a mente atrás de palavras enquanto viajo o máximo que posso.

pior do que ficar longe de quem a gente gosta é ficar perto, mas se sentir longe

Qualquer relação pode ser um frágil brotinho de feijão. Só ficar perto não adianta, é preciso regar.


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Ele tinha acabado de voltar do bar. Lá, encontrou amigos de longa data que não via há tempos, mesmo morando a poucos quilômetros de distância.

A conversa foi boa. Histórias, ideias e besteiras que sempre rolam em papo de boteco. Encontrar amigos no bar parece algo banal, mas ele sabia que aquela era uma oportunidade valiosa.

Ele sabia porque morou do outro lado do mundo.

Visitar era complicado. Dois dias de viagem e uma passagem cara. Era impossível ficar indo ver amigos e parentes, mas a saudade batia forte.

Com frequência cometemos o erro de não valorizar as pessoas que estão do nosso lado agora, mas elas fazem falta quando somem de alguma maneira. A um toque na tela de distância todos estão no WhatsApp ou no Skype, mas não é a mesma coisa que ver as pessoas na frente: olhar no olho, abraçar, compartilhar um momento. Não é mesmo.

Por isso ele voltou. No seu país poderia matar a saudade e teria tudo aquilo que sentia falta morando longe.

Só na teoria.

Agora estava perto dos amigos e da família. Agora tinha um meio de transporte para chegar rápido em qualquer lugar, quando quisesse. Mesmo assim, às vezes ficava um mês ou mais sem ver as pessoas que ele gostava.

Por que mantemos um contato tão fraco mesmo estando perto de quem a gente gosta?

A gente inventa todos os tipos de desculpa. Fulano ocupado, Beltrano não pode, Ciclano tem compromisso. Mas sabe qual é a verdade? Atitudes demonstram prioridades. Se você ou seus amigos não conseguem abrir um espacinho na agenda para se encontrar, é porque todas as outras coisas são mais importantes naquele momento. Lá no fundo, falta uma vontade verdadeira de ficar perto.

A pessoa está ocupada? Não está em casa? Onde a pessoa está então? Ela vai dormir em casa, não vai? Então passa lá à noite. 10 ou 15 minutinhos, só para dar um abraço e manter viva aquela relação.

A amizade é como um brotinho daqueles de feijão. Quando pequeno você botava o feijão no algodão, molhava, deixava em algum lugar com sol e ia ver depois de uma semana. Se ninguém tivesse lembrado de regar, ele tinha morrido.

O broto morria porque é frágil, assim como a amizade pode ser se não for regada constantemente.

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E mais: não só por um lado. Se só um lado regar, não vai funcionar. As duas pessoas precisam colaborar para que aquilo dê certo. Se o broto não for regado pelos dois lados, pode morrer ou ao menos ficar fraco, debilitado, com folhas amarelas. Provavelmente você teve uma amizade assim, que não recebeu o cuidado necessário e foi murchando.

A gente nunca sabe o dia de amanhã. Pode dar um infarto fulminante em alguém, ou outra pessoa pode ir viajar e morar longe. Então se você estiver perto de quem gosta, aproveite. Marque alguma coisa, visite, tome uma atitude para estar perto. No mínimo uma vez por mês, vai?

E lembremos disso sempre. É uma lição que não serve para ser usada uma vez e jogada fora. Aproveitar quem amamos enquanto estamos perto, enquanto temos a possibilidade, é algo para guardar para a vida toda.

Ele descobriu que pior do que ficar longe é ficar perto, mas se sentir longe. Percebeu que as melhores coisas acontecem quando estamos com outras pessoas. "É impossível ser feliz sozinho", diz a música. Impossível certamente não é, mas com companhia é muito melhor.

Texto originalmente publicado em: "Perto e longe de quem se gosta".


Pedro Silveira

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