dos vestígios da medusa

Impressões sobre a poesia das palavras e das coisas.

Mariana Silveira

"Uma tarde é suficiente para ficar louco ou ir ao Museu ver Bosch" Roberto Piva (Piazza I)

3 filmes de Fatih Akin ou um pedaço de Nietzsche

O cineasta alemão de origem turca sabe exatamente como criar histórias de catarse primorosa. Personagens que “passam por poucas e boas” ilustram uma das citações mais célebres de Nietzsche: Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte.


fatih_akin_022bw.jpgFatih Akin. Foto de tanja demarmels

Em 1973 nasce Fatih Akin em Hamburgo, filho de pais turcos, que desde pequeno escrevia contos e roteiros de filmes. Antes de graduar-se em Comunicação Visual, o cineasta já havia realizado o longa Short sharp shock (1993), ganhando notoriedade internacional. Desde então Akin continuou contando suas histórias em que os dramas do Oriente e do Ocidente são infinitamente semelhantes pela universalidade que carregam.

Podemos compreender a sua história cinematográfica como quer o cineasta no seguinte depoimento: “Posso comparar meus filmes a LP’s. Para mim, um filme é um work in progress, do mesmo modo como os músicos mantêm num disco.” Não é à toa que a trilha sonora de seus filmes traz grande excelência musical que ajuda a tecer os caminhos dos personagens que, após grande sofrimento de caráter amoroso e existencial, conseguem, através de extremo luto para com a vida, renascer para um amanhã amargo, mas ainda vivo e aberto a possibilidades.

Para tanto, três filmes podem muito bem ilustrar parte de sua filmografia ímpar que, de modo profundo, ilustra a máxima Nietzschiana Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte.

head_on_25.jpgCena do filme Contra a parede

CONTRA A PAREDE

Cahit Tomruk, homem de origem turca que vive na Alemanha recolhendo copos em um bar de shows de rock, não suporta sua condição na medida em que passa o dia todo em companhia de narcóticos e sexo. Ao tentar suicídio, para numa clínica de reabilitação onde conhece Sibel Güner, moça também de origem turca que, ao ouvir seu nome, o propõe em casamento porque quer deixar a casa onde vive com seus pais, sendo este passaporte a única maneira de usufruir de todas as ofertas de delícias possíveis na badalada Hamburg.

Conflitos oriundos motivados pelo passado acontecem e também o inevitável: apaixonam-se e acabam por deflagrar ruínas em virtude deste amor. São vidas que, ao cheirarem do mesmo narciso no abismo, descem aos subterrâneos de Hades, sem saber se poderão voltar à superfície.

Edge_of_Heaven_3.jpgCena do filme Do outro lado

DO OUTRO LADO

Trata-se de uma narrativa de idas em vindas pela Alemanha e Turquia. Histórias que se cruzam por conta de uma mesma sina: a busca por entes queridos, desaparecidos, que acaba por desvencilhar nós a um preço muito alto a se pagar.

Nejat, professor de literatura na Alemanha, negligencia a escolha do pai, Ali, que foi a de unir-se com uma prostituta, Yeter, que por sua vez manda dinheiro a Istambul, periodicamente, para ajudar sua filha, a ativista Ayten. Um percalço acaba por matar Yeter, fazendo com que Nejat parta para Istambul em busca da filha enquanto esta voa para a Alemanha a fim de encontrar sua mãe.

História que representa a verdade da tradição grega de que o destino está acima dos deuses e dos homens. Os acontecimentos estão para serem vividos, independentemente de se aguentar a carga ou não.

SoulKitchen.jpgCena do filme Soul Kitchen

SOUL KITCHEN

Comédia leve e bem conduzida (sim, ele faz comédias!), tem por título o restaurante de preços módicos “Soul Kitchen”, em Hamburgo.

Zinos, vendo que seu restaurante está a falir, busca meios de manter seu negócio aberto e atrair mais clientes. Consoante a isso, sua namorada Nadine parte para Shangai a trabalho, ele machuca sua coluna e ainda tenta ajudar seu irmão que está em liberdade condicional. Recusa oferta de vender seu negócio e, para tentar melhorar seus lucros, contrata um temperamental chefe de cozinha, que mais atrapalha que ajuda.

Apesar do tom descontraído e trama despretensiosa, não apenas Zinos como os outros personagens estão em situações de provação em que devem controlar toda sua hybris em prol de um destino melhor. Destaque para a trilha sonora eclética e empolgante.

***

Mais uma vez citando Nietzsche “A minha fórmula de grandeza do homem é amor fati: não pretender ter nada diverso do que se tem, nada antes, nada depois, nada por toda a eternidade. A Necessidade não existe apenas para suportar-se_ todo o idealismo é mentira em face da Necessidade_ mas para que a amemos.” Este trecho de outro escrito seu, Ecce homo, figura de modo pleno aquele amor que se tem pelo destino e pela narrativa de toda uma vida, coisa que construímos com as intempéries que surgem na nossa história. Assistir aos seus filmes é lavar a alma e deixar-se levar pelas tempestades do acaso.


Mariana Silveira

"Uma tarde é suficiente para ficar louco ou ir ao Museu ver Bosch" Roberto Piva (Piazza I).
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