dos vestígios da medusa

Impressões sobre a poesia das palavras e das coisas.

Mariana Silveira

"Uma tarde é suficiente para ficar louco ou ir ao Museu ver Bosch" Roberto Piva (Piazza I)

Nadja: um caminhar surreal

Nadja, romance de André Breton publicado em 1928, revela a disposição de um narrador que caminha pela cidade de Paris em busca de acasos que lhe sejam inspiradores. Quando encontra a passante Nadja numa esquina, inicia-se um jogo permeado pela loucura e a arte.


nadja.jpg Fotografia que ilustra o livro

André Breton dispensa apresentações. Grande idealizador do surrealismo, não escondia a sua admiração por Baudelaire, Rimbaud e, o mais feroz de todos, Lautreamont, que escreveu o apavorante-belo “Cantos de Maldoror”, obra que apresenta, dentre seus diversos temas, talvez um dos mais inquietante à existência: acatar a condição diabólica acima de qualquer caráter moral e humano.

174breton.jpg André Breton. Foto de Henri Manuel

Sabe-se que os vanguardistas gostavam muito de viver a cidade e fazer com que ela fosse objeto de inspiração para suas criações. A admiração pela urbe é anunciada por Baudelaire em diversos poemas, sendo um dos mais significativos A uma passante, texto que evidencia a força do efêmero e o poder da morte nos olhos daqueles que provam da sua taça.

A uma passante

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.

Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,

Uma mulher passou, com sua mão vaidosa

Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.

Eu bebia, como um basbaque extravagante,

No tempestuoso céu do seu olhar distante,

A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho… e a noite depois! – Fugitiva beldade

De um olhar que me fez nascer segunda vez,

Não mais te hei de rever senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! “nunca” talvez!

Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,

Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

(Traduzido por Guilherme de Almeida)

Breton, ao escrever este romance, realizou a prática daquilo que considera ser uma atividade chamada de escrita automática: escreve-se aquilo que vem à mente, num estado entre a vigília e o sono, de modo a expressar o que o inconsciente tem de mais poderoso: a bruteza dos nossos mares internos.

O livro inicia-se com a célebre pergunta: quem sou? Este ponto de partida o leva a narrar suas caminhadas em Paris, sendo tais percursos também registrados por fotografias.

Nadja3_525.jpg Página do livro com fotografia do Hotel des Grands Hommes

A flanerie de Breton é a motivação de sua escrita e encontrar Nadja pelas ruas é um enigma a ser decifrado. Suas inquietações o levam a buscar certo acaso objetivo, sendo este um acontecimento de grande epifania em que demonstra sua disposição para acontecer-lhe algo que esteja ao encontro de suas expectativas naquele momento.

O mistério entre Nadja e o narrador apenas cresce, umas vez que combinam de se encontrar em distintos lugares da cidade a fim de discutir questões de literatura, arte e filosofia. Os momentos em que se encontram apresentam sempre um teor súbito em que a loucura de Nadja apenas ganha força por conta de suas falas desconcertantes e seus modos de vestir, que variam de mendiga a fidalga num curto espaço de tempo.

Desses encontros fortuitos e instigantes, resta a reflexão de Breton:

É possível que a vida peça para ser decifrada como um criptograma. Escadas secretas, molduras de onde os quadros deslizam rapidamente e desaparecem para dar lugar a um arcanjo de espada em riste ou para dar passagem aos que devem avançar para sempre, botões que são premidos muito indiretamente e provocam o deslocamento em altura e comprimento de toda uma sala com a mais rápida mudança do ambiente: pode-se conceber a grande aventura do espírito como uma viagem desse gênero ao paraíso dos ardis.

Viver a cidade e envolver-se com todos os episódios possíveis e dignos de reflexão é uma proeza que mostra-se como um jogo aberto que demanda criação. Breton diz que a beleza será convulsiva ou não será beleza. Que a reinvenção humana também seja.


Mariana Silveira

"Uma tarde é suficiente para ficar louco ou ir ao Museu ver Bosch" Roberto Piva (Piazza I).
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