dos vestígios da medusa

Impressões sobre a poesia das palavras e das coisas.

Mariana Silveira

"Uma tarde é suficiente para ficar louco ou ir ao Museu ver Bosch" Roberto Piva (Piazza I)

O camponês de Paris

Muito se fala sobre as Passagens de Walter Benjamin e pouco sobre o livro que o originou, a obra O camponês de Paris, de Louis Aragon


arcades-project1.jpgFotografia das passagens

Ler é um vício àqueles que mergulham nas combinações labirínticas das palavras.

A obra de Louis Aragon O camponês de Paris [Le paysan de Paris] tem muito a contribuir para melhor se desvendar o que acontecia na pulsante capital do século XIX que incitava tanto a produção artística, coração das vanguardas como o Dadá e o Surrealismo.

Walter Benjamin inspirou-se neste livro para escrever um de seus trabalhos mais célebres Passagens [Das Passagen-Werk]. Trata-se de um grande ensaio sobre a cidade de Paris no século XIX, em que a capital se construía como metrópole, agregando inúmeros caminhos em seus boulevares que eram, ao mesmo tempo, portas de entrada e saída.

Aragon transmite esta atmosfera das passagens em seu romance, que apresenta traços de autores como Lautreamont, Apollinaire e Gérard de Nerval. A narrativa, pautada por uma série de impressões do caminhante que se deslumbra com a urbe ao tentar entender sua dinâmica, é de tirar o fôlego. Conta Benjamin que lia apenas 3 páginas deste livro por dia para não ter um ataque do coração.

Talvez o capítulo mais empolgante esteja no ínicio. A passagem da Ópera, em que podemos presenciar a figura do flaneur como aquele que caminha, observa e se sente bem na cidade, tentando manter uma vida regada e regida através da poesia.

Um aspecto muitíssimo importante que a obra mostra é a experiência da cidade sendo vivida como um organismo vivo constante de embates entre o público e o privado, espaço que favorece também intersecções entre o real e o imaginário aos olhos das mentes atentas.

O camponês de Paris, editado pela IMAGO e traduzido por Flávia Nascimento, conta ainda com um valioso posfácio de Jeanne Marie Gagnebin, ajudando-nos a penetrar com mais destreza nos labirintos do efêmero, tão caros a todos aqueles que se sentem devedores da modernidade.


Mariana Silveira

"Uma tarde é suficiente para ficar louco ou ir ao Museu ver Bosch" Roberto Piva (Piazza I).
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