dos vestígios da medusa

Impressões sobre a poesia das palavras e das coisas.

Mariana Silveira

"Uma tarde é suficiente para ficar louco ou ir ao Museu ver Bosch" Roberto Piva (Piazza I)

Wesley Duke Lee: perfil do artista que fez o primeiro happening no Brasil

O artista paulistano é responsável por um dos primeiros happenings no Brasil, realizado no extinto João Sebastião Bar, e também criou inúmeros trabalhos de gravura, ilustração e publicidade, além de ensinar em seu ateliê. Seu legado permeia toda uma estética de vanguarda, sendo artista de excentricidade ímpar.


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Foto: João Musa

No dia 23 de outubro de 1963, a Vila Buarque, simpático bairro próximo ao centro de São Paulo, ficou abalada. Wesley Duke Lee (1931-2010), recém chegado da Europa, realizou uma mostra bem ousada que resultou em caso de polícia. Tratava-se de um happening (basicamente uma forma de arte em que o visual e o teatral acontecem com a participação do público, não podendo ser reproduzido, pois a ação ocorre em tempo e espaço únicos) em que as pessoas entravam no ambiente portando lanternas e viam os quadros um por um, uma vez que o bar era muito escuro.

Os quadros expostos em questão fazem parte da série intitulada Ligas, em que o nu feminino é celebrado, porém tachado de altamente obsceno. Pelo fato de os quadros terem sido rechaçados de algumas galerias de arte, o happening foi a ideia que melhor saciou a vontade de Duke Lee de expor suas obras. Cacilda Teixeira da Costa, grande estudiosa do artista, afirma que ele queria criar uma situação dramática que fosse levada à catarse, pois neste acontecimento também havia cinema, música, dança e tiros de espingardas de brinquedo. Com este cenário, em plenos anos 60, não foi muito difícil alguém chamar guardas para que acabassem com o evento.

Os tiros da espingarda de brinquedo lembram aquilo que André Breton anunciou no Segundo Manifesto do Surrealismo: “O mais simples ato surrealista consiste em ir para a rua, empunhando revólveres, e atirar ao acaso, até não poder mais, na multidão. Quem não teve, ao menos uma vez, vontade de assim acabar com o sisteminha de aviltramento e cretinização em vigor, tem seu lugar marcado nessa multidão, barriga à altura do cano da arma. A legitimação de um tal ato, a meu ver, não é de modo nenhum incompatível com a crença nesse clarão que o surrealismo busca revelar no fundo de nós. Quis somente incluir aqui o desespero humano, aquém do qual nada poderia justificar essa crença.”.

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Foto: Otto Stupakoff

Filho de mãe portuguesa e pai americano, o artista morou nos Estados Unidos, mais precisamente Nova York, em 1952, e o que mais lhe impressionara foi justamente o surrealismo e o grupo Dada, tanto da filosofia destes grupos quanto o quesito plástico envolvido. Voltou ao Brasil, trabalhou com publicidade e aproximou-se do artista Karl Plattner, que o convidou a uma temporada na Europa em 1958. Lá, visitou a Exposition internationale du Surréalisme (1959), organizada por André Breton. O Surrealismo naquele momento havia sido desprezado por Tristan Tzara e Sartre. Mesmo assim, tal exposição causou grande impacto em sua trajetória, pois aproveitou a atmosfera surreal-dadaísta de Paris, levando-o a aprimorar suas relações com a imagem, o movimento e o sonho através de artistas do movimento do novo realismo que acabara de eclodir na Europa. Este novo movimento prezava por encontrar novas abordagens perceptivas do real, tendo como principais representantes os franceses Arman, Dufrêne, Hains, Klein, Raysse, Restany, Spoerri, Tinguely e Villeglé na passagem dos anos 50 para os 60.

Devido a tais influências, Duke Lee formou o grupo de realismo mágico junto com o crítico Pedro Manoel Gismondi, a pintora Maria Cecília Gismondi, o fotógrafo Otto Stupakoff e o escritor Carlos Saldanha. Thomas Souto Correia era grande amigo do artista neste período e foi o responsável por apresentá-lo a uma futura parceira artística, no caso com o poeta surreal-xamã-beatnik-exu-paulista Roberto Piva, autor de Paranoia, livro composto por 19 poemas que foram concebidos através de um método paranoico-crítico desenvolvido por Salvador Dali. Duke Lee havia lido Paranoia e manifestou a vontade de ilustrar o livro com fotografias. Passou cerca de 7 meses fotografando a cidade e desta junção pode-se ter, em uma só obra, uma São Paulo verbal e visual.

Na abertura da Rex Gallery em 1966 a qual montou junto aos artistas Nelson Leirner, Geraldo Barros, Frederido Nasser, Carlos Fajardo e José Rezende, transformou o espaço numa grande balada para que todos pudessem se expressar de alguma maneira, mesmo que fosse através da dança. A festa de abertura da galeria pode ter sido um meio de expressar crítica à ditadura que começou a assolar o país nos anos 60, embora Teixeira da Costa afirma que o artista sempre manteve atitude política independente, ressaltando que a obra de arte deveria surgir da alma. Seu trabalho figurativo foi de encontro ao abstracionismo difundido na época. Para tanto, em vídeo de uma série americana intitulada “The creative person”, Wesley é ressaltado pela qualidade de suas pinturas e a de seus alunos, sendo produto de exportação tão forte quanto a Bossa Nova e o café.

Nos anos 70 e 80 realiza diversas experimentações com instalações, colagens e vídeos. Nos anos 90 participa da Bienal de Veneza. Continuou produzindo até onde conseguiu, pois teve Alzeimer e partiu em 2010. Mesmo doente, preocupava-se com o destino de suas obras. Esta sua preocupação transformou-se em sorte para os paulistanos, pois no dia 14 de dezembro de 2015 São Paulo ganhou um novo instituto que leva seu nome, casa aconchegante que reúne acervo e espaço de pesquisa.

Duke Lee merece ser melhor reconhecido e estudado como artista brasileiro não somente pelo fato de ter realizado o primeiro happening no país, mas por ter explorado inúmeros materiais e técnicas que vão do medieval ao xerox, por ter criado uma mitologia própria evidenciada em suas obras e por ter difundido a pintura figurativa no mapa internacional das artes. Foi uma grande figura admirável, extravagente e que buscava sempre conciliar a diversão entre amigos e o trabalho artístico.


Mariana Silveira

"Uma tarde é suficiente para ficar louco ou ir ao Museu ver Bosch" Roberto Piva (Piazza I).
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