dos vestígios da medusa

Impressões sobre a poesia das palavras e das coisas.

Mariana Silveira

"Uma tarde é suficiente para ficar louco ou ir ao Museu ver Bosch" Roberto Piva (Piazza I)

Algumas palavras sobre Black mirror

Black mirror sugere que uma versão obscura da vida se manifesta torrencialmente no cotidiano do homem contemporâneo e, ao que tudo indica, armadilhas infalíveis se alastram por todos os lados, levando os homens a um buraco tenebroso, sem volta.


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Guy Debord, que em 1967 apontava que a existência estaria fadada a ser vista e repercutida como representação, de modo que as experiências seriam moldadas pelo espetáculo, não se surpreenderia diante da sociedade atual, em que se vive através das postagens de mídias sociais, atribuindo à tecnologia a importância do ser em toda a sua virtualidade, materializada através de imagens e texto.

Black mirror é uma crônica de ficção científica que anuncia o modo com que a tecnologia pode ser, de maneira mais perversa, a causa de desgraças humanas. Uma questão importante a se pensar: seria mesmo a tecnologia a grande responsável pelos atos humanos da contemporaneidade?

Percebemos nos episódios os veículos que corroboram para algumas das desgraças: reprodutibilidade em massa das informações em segundos, quase impossível manter privacidade em virtude dos novos meios de comunicação, atribuir o término das relações amorosas a recursos que apagam o cônjuge, deletando-se memórias num piscar de olhos, utilizar dispositivos que permitam viajar no tempo e proporcionam uma realidade paralela tão real e viva como a vida crua, esta que uma vez o homem se habituara, dentre outras questões.

Encontramos neste cenário de um futuro real e imediato um homem perturbado com a sua história, deslocado e que não sustenta o peso de suas angústias devido à dependência narcótica da tecnologia.

Em um dos episódios, um casal entra em conflito pelo fato de a esposa estar grávida e não querer o filho, ao passo que o marido quer. Para acabar com a briga, a mulher opta por deletar seu marido através de um botão que consta em deixar que a pessoa exista apenas enquanto silhueta, sem voz, apagando de maneira prática o outro de sua vida. Para tanta facilidade brutal, podemos pensar em Narciso e Medusa como histórias dominantes em todo este processo tecnológico.

Narciso pelo fato de o homem viver para divulgar seus grandes momentos, em uma atitude que permite não amar nada a não ser a si mesmo, ignorando as experiências ao redor e, em ataques de vaidade, fazer valer as suas fotos pelo que representam ao mundo, ignorando o fato como realmente existiu. Medusa é evocada pelo fato de o homem atuar como assassino, justamente como a górgona, de todos aqueles que cruzarem seu caminho, petrificando aquele que incomoda num lance de botões.

Em outros momentos da série os personagens estão à margem, totalmente inertes, sem o menor traço de tecnologia. Quando uma personagem perde todos seus pontos, num episódio em que as pessoas são avaliadas com estrelas por todos em todos os momentos, descobre que pode ser autêntica e descarregar toda sua raiva e energia acumulada neste viver de aparências, sem temer uma avaliação negativa de outrem. Tal situação demonstra aquilo já evidenciado por Freud em O mal estar da cultura: o ser humano deve sublimar seus instintos de modo a poder trabalhar, produzir e assim viver em sociedade, através de leis que garantam um controle social, neste caso as leis de uma ditadura tecnológica.

Black mirror questiona se somos realmente responsáveis pelas nossas atitudes neste cenário de completa artificialidade humana na dependência dos dispositivos. É necessário evocar Sartre, que atribui a liberdade ao homem, sendo este responsável pela sua existência por completo. Haveria como vencer o entorpecimento de tantos gadgets e aplicativos que permeiam tal condição humana? Aparentemente, sozinhos estamos, a encontrar um Perseu interior, cheio de amor e coragem, e que este dê conta do recado…


Mariana Silveira

"Uma tarde é suficiente para ficar louco ou ir ao Museu ver Bosch" Roberto Piva (Piazza I).
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