drinking wine and killing time

De tudo um pouco.

Adriana Gandelman

Gosto de letras, livros, quadros, filmes, vinhos, lugares, línguas, cheiros, papos amenos, gargalhadas, músicas, silêncio, abraços, lembranças

O ódio que nos torna prisioneiros

O sábio Confúcio disse: “Antes de embarcar numa jornada de vingança, cave duas covas.”, numa alusão de que uma delas será a sua própria. O excesso de ódio levou justamente aos atos que tentamos combater. Ódio puro e simples leva a mais ódio. O ódio não te liberta. Pelo contrário, ele te prende ao ser odiado. Vamos exercer e exceder naquilo que nos difere dos bárbaros: empatia e solidariedade com o próximo.


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Desde que os atentados terroristas começaram a ser noticiados, não consegui desgrudar da televisão, alternando entre CNN, TV5 e Globo News. Diversas cenas chocantes, várias especulações a respeito das causas e consequências dos atos criminosos, dezenas de entrevistas com testemunhas ou especialistas. Sendo parte de minha família francesa e trabalhando diretamente com colegas franceses, aqueles atos bárbaros tornaram tudo muito mais chocante e assustador. Não foi um ataque simplesmente ao povo francês. Foi um ataque a humanidade como um todo; o triunfo equivocado da falta de respeito ao ser humano, da falta de compaixão, da falta de qualquer bom senso, da falta de amor ao próximo.

Para espairecer um pouco resolvi assistir a um thriller americano chamado “Prisoners” (com a péssima tradução em português “Suspeitos”).

O filme narra a história de 2 casais, um (formado por Terence Howard e Viola Davis) com uma filha adolescente e outra de uns 8 anos, e o outro casal, vivido por Hugh Jackman e Maria Bello, com um rapaz adolescente e uma menina da mesma idade. Eles são vizinhos e muito amigos. As famílias são muito unidas e tudo vai bem até o dia em que as duas meninas vão brincar na rua e desaparecem. Um policial começa a investigar o caso, encontra um primeiro suspeito que parece apresentar distúrbios mentais, mas como nada encontram que possa incriminá-lo, ele é liberado, para a fúria de Keller, personagem de Jackman. Ele entra então numa espiral de vingança cega, sequestrando o rapaz e o torturando por vários dias numa tentativa obstinada de obter algum tipo de confissão que o leve a descobrir o paradeiro de sua filha. Keller entra nessa jornada de loucura por acreditar que a polícia não está fazendo o seu trabalho direito, eventualmente cooptando seu amigo para ajudá-lo nessa tarefa sanguinária. Ele acaba voltando a beber, se tornando num animal furioso, para descobrir no final que o rapaz até tinha uma informação para dar, mas não era o culpado propriamente. Pelo contrário, era também vítima. Já o policial, quando apreende o segundo suspeito se sente frustrado por não obter as informações que deseja e perde a cabeça, partindo pra cima dele. Num descuido o suspeito pega sua arma e se mata, deixando o policial ainda mais perdido e arrependido por seu destempero. O título do filme cai como uma luva sobre esses vários personagens, ora prisioneiros literalmente, ora prisioneiros metafóricos de uma situação.

Fiquei pensando no quanto o ódio que cega, acaba sempre trazendo mais ódio, nubla o nosso julgamento e nos faz agir de forma precipitada, muitas vezes destruindo qualquer possibilidade de resolver a situação que pretendíamos resolver inicialmente. E fiz um paralelo com o cidadão comum, aquele que não tem poder político, que não participa das grandes decisões de chefes de estado, enfim, que é apenas observador dos fatos (com maior ou menor grau de informação a respeito deles) e que vai discutir os atentados terroristas nos próximos dias com o pessoal do trabalho, com o porteiro ou com os amigos na mesa de bar. Como eu e talvez como você.

Odiar todos os muçulmanos após os ataques em Paris me parece uma solução simplista demais, além de equivocada, já que se sabe que apenas uma parte deles é radical e pratica estes atos de selvageria.

Além disso, pedir a retaliação imediata ao Egito ou a Síria no calor da emoção, não parece ser a solução mais sensata. A experiência nos prova que o cérebro pensa melhor quando o sangue não está fervendo. Independente dos ataques, existem diversas investigações em curso, diversos suspeitos debaixo do radar da inteligência francesa, americana etc, e diversos agentes em campo que não podem ter suas identidades comprometidas. Além disso, a situação no Oriente Médio de maneira geral é historicamente bastante complexa e vem contando com o envolvimento de diversas nações. No cenário atual ninguém pode tomar uma medida isolada.

O sábio Confúcio disse: “Antes de embarcar numa jornada de vingança, cave duas covas.”, numa alusão de que uma delas será a sua própria. O excesso de ódio levou justamente aos atos que tentamos combater. Ódio puro e simples leva a mais ódio. O ódio não te liberta. Pelo contrário, ele te prende ao ser odiado. Lutemos então por justiça, por uma investigação apurada dos fatos, por uma união cada vez maior entre os seres humanos.

E não esqueçamos dos 129 que morreram e dos 352 que ficaram feridos e possivelmente traumatizados por esta tragédia. Vamos exercer e exceder naquilo que nos difere dos bárbaros: empatia e solidariedade com o próximo.


Adriana Gandelman

Gosto de letras, livros, quadros, filmes, vinhos, lugares, línguas, cheiros, papos amenos, gargalhadas, músicas, silêncio, abraços, lembranças.
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