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De tudo um pouco.

Adriana Gandelman

Gosto de letras, livros, quadros, filmes, vinhos, lugares, línguas, cheiros, papos amenos, gargalhadas, músicas, silêncio, abraços, lembranças

Por quê “A Revolução dos Bichos” deveria ser leitura obrigatória em qualquer lugar do mundo?

“A Revolução dos Bichos” é uma fábula moderna que nos ajuda a identificar líderes déspotas e regimes opressores, que operam através de técnicas de alienação e manipulação psicológica da população. Um livro sobre porcos disfarçados de homens.


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A importância central de “A Revolução dos Bichos” reside na crítica a regimes totalitários (sejam eles comunistas, fascistas ou capitalistas), embora George Orwell tenha se baseado mais especificamente nos acontecimentos que se desenrolaram na antiga União Soviética desde a Revolução de 1917 até 1944. A trama, escrita entre 1943 e 1944, foi construída baseando-se na história do comunismo soviético, sendo vários personagens baseados em figuras reais, como Stalin, Lenin e Trotsky. Mas a crítica pretendia se estender também a outros regimes totalitários em ascensão na época, como o fascismo de Hitler na Alemanha e de Franco na Espanha.

O gênero escolhido por Orwell para sua ácida crítica ao antigo regime soviético foi a fábula, formato já utilizado por Esopo (o escravo contador de histórias na Grécia Antiga) e La Fontaine (escritor francês que viveu no século XVII) para descrever as idiossincrasias inerentes ao comportamento humano através de animais que falam e se comportam como...humanos. As fábulas tem fins educativos e permitem que a gente conheça mais sobre a sociedade em que vivemos e sobre nós mesmos. Além disso, ao contar uma história sobre pessoas mas centrada num contexto animal, Orwell cria a distância necessária para enxergarmos os absurdos de nosso comportamento. A denúncia disfarçada numa fábula se torna tão mais efetiva em regimes sujeitos a censura, pois o autor sempre pode alegar ter escrito uma narrativa meramente fantasiosa.

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“A Revolução dos Bichos” conta a história de uma fazenda onde os animais, cansados de serem maltratados e oprimidos pelos homens, um dia se rebelam e colocam os humanos para correr. Começam a administrar a fazenda eles mesmos e criam a ideologia do Animalismo, que segue 7 mandamentos:

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No início a fazenda começa a prosperar, todos os animais se sentem livres e felizes. Aos poucos, os porcos sendo a raça mais inteligente, assumem a liderança e se tornam responsáveis pelas decisões da coletividade. Um deles, Napoleão, encantado com a perspectiva de poder em potencial, trata de eliminar seu possível rival (também porco) e aos poucos adota uma postura de déspota na fazenda. Eles vão acumulando mais e mais benefícios para a classe deles e os diferentes animais (representando as diferentes parcelas da sociedade) vão lidando como podem, a maioria acreditando cegamente em tudo que é dito, outros tentando fugir, outros desconfiando mas se sentindo impotentes para lutar contra. Todos os elementos presentes em regimes totalitários estão lá: uma classe trabalhadora alienada, a manipulação psicológica através da fabricação de um inimigo externo, o culto à personalidade do líder, o forte papel da propaganda com objetivo de alienar através da repetição de slogans, poemas e músicas, a adoção de medidas tirânicas e a criação de privilégios para uma elite dominante às custas do suor de seu povo. E, principalmente, o abandono dos ideais sociais inicialmente defendidos, de tal forma que os 7 mandamentos criados na revolução a certa altura são substituídos por um só:

Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais do que os outros.

O livro extrapola a questão dos desvios que a revolução russa tomou. Poderíamos reconhecer diversos ditadores nas atitudes do personagem Napoleão: Augusto Pinochet no Chile, Hugo Chávez na Venezuela, Slobodan Milosevic na Sérvia e na Iugoslávia, Mao-Tse-Tung na China, Idi Amin em Uganda ou Pol Pot no Camboja.

É preciso que esta fábula moderna continue contribuindo para a humanidade ao nos alertar dos perigos da ascensão de certos líderes com discursos demagógicos, cujos conteúdos disfarçam intenções ulteriores e cujas promessas de prosperidade e liberdade costumam agraciar apenas uma minoria. George Orwell nos ensina, enfim, a reconhecer porcos disfarçados de homens.


Adriana Gandelman

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