drinking wine and killing time

De tudo um pouco.

Adriana Gandelman

Gosto de letras, livros, quadros, filmes, vinhos, lugares, línguas, cheiros, papos amenos, gargalhadas, músicas, silêncio, abraços, lembranças

Síria e a Nova Guerra Fria

A crise na Síria é muito mais complexa do que se possa imaginar. A questão dos refugiados em busca de asilo tão comentada nas últimas semanas é apenas a ponta do iceberg. Existem diversos países envolvidos em maior ou menor escala neste conflito, incluindo a Rússia e os EUA, num intrincado jogo de xadrez político-econômico que já está sendo chamada de a Nova Guerra Fria.


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Com apenas 1 hora de antecedência a embaixada americana em Bagdá recebeu a visita de um general russo avisando que os primeiros ataques aéreos seriam lançados por Putin na Síria.

Em entrevista, o secretário de defesa dos EUA, Ashton Carter, afirmou que a forma como foram notificados foi no mínimo pouco profissional, e acrescentou que enquanto a Rússia se concentrar em atacar as forças rebeldes sem um plano paralelo de transição política, corre o risco de fazer o conflito simplesmente se agravar, além de promover uma maior instabilidade na região, que é justamente o que Moscow alega estar tentando evitar. Segundo ele, é como colocar gasolina na fogueira. Em suma, os EUA defendem que Assad deveria sair do poder, posição que a Rússia condena.

Curiosamente, até agora somente 1 em cada 5 ataque aéreos russos tem como alvo o EI (Estado Islâmico), grupo terrorista que a Rússia alega estar combatendo. Os ataques tem se concentrados mais no caminho que liga Damasco a Aleppo, uma rota estratégica que liga a capital a outras cidades, incluindo Latakia, por onde se descobriu que a Rússia tem enviado material bélico pesado para uma possível investida terrestre. E o fato de ter recentemente violado o espaço aéreo turco sem ter dado nenhuma explicação convincente, está tirando o sono dos líderes da OTAN. Em virtude destas acusações, novos ataques aéreos foram feitos e a Rússia alega ter destruído 10 novos alvos de infra-estrutura do grupo terrorista EI.

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Enquanto isso os EUA lideram uma coalizão envolvendo mais de 60 países, numa tentativa de derrubar os centros terroristas controlados pelo EI, através de uma série de ataques aéreos orquestrados para este fim. E alegam estar tentando mais diálogo com o governo russo em busca de uma união de forças em prol de uma solução comum. Mas como viemos para neste “disse-me-disse”?

Quando falamos na crise da Síria, estamos também falando de uma crise local (dentro do próprio país), regional (na região do Oriente Médio) e internacional (envolvendo outros países). Tudo começou com a Primavera Árabe e as diversas rebeliões em 2011, que incentivaram a população local a protestar nas ruas após 15 crianças terem sido presas por grafitarem mensagens contra o governo num muro em Daraa. Os protestos eram pacíficos, mas as autoridades responderam de forma violenta. Inicialmente os manifestantes pediam a libertação das crianças, democracia e maior liberdade. Eventualmente começaram a pedir a resignação de Bashar al-Assad. Bashar assumiu o poder em 2000, após a morte de seu pai Hafez al-Assad, que havia dado um golpe de estado em 1970 e acabou permanecendo no poder por 30 anos. Como muitos ditadores, ele inicialmente parecia uma esperança de renovação, mas logo mostrou sua face cruel e desumana. A oposição foi crescendo na Síria de forma desorganizada e vários grupos foram criados para tentar depor o presidente. Não existe uma união ou liderança em comum. Acredita-se que hoje existam até 1.000 grupos diferentes de rebeldes desde que o conflito se iniciou.

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Mas a guerra travada hoje não é mais para remover o líder do governo. Desde o início do conflito, outras potências financiaram os diferentes grupos rebeldes, enviando armamentos, suprimentos e criando campos de treinamento militar nas zonas fronteiriças. Em agosto de 2013, houve um ataque de armas químicas nos arredores de Damasco, a capital. Quase 1.500 pessoas morreram, sendo que cerca de um terço destas pessoas eram crianças. O relatório das Nações Unidas concluiu que o responsável pelo ataque foi o próprio governo, que negou a acusação e culpou os rebeldes. Alguns países discutiram a possibilidade de uma intervenção. Em outubro do mesmo ano, a Rússia, que sempre manteve laços estreitos com a Síria, surgiu com a solução de destruição de todas as armas químicas do país para acalmar os ânimos da comunidade internacional. Em dezembro os EUA e o Reino Unido anunciaram que parariam de enviar suprimentos médicos e alimentos para a Síria, para não correr o risco destes serem interceptados e roubados pelos grupos que eles não apoiavam.

Em 2014, o grupo radical EI (Estado Islâmico) cresceu no Iraque em grandes proporções e aproveitou a confusão causada pela guerra para se instalar no leste da Síria, adquirindo assim, mais terreno e poder. A fim de impedir o crescimento do EI, alguns países iniciaram discussões para decidir se iriam intervir, entre eles os EUA e o Reino Unido. Mas sabe-se que a Guerra ao Terror tem sido desastrosa, como no caso do Afeganistão, Iraque e Líbia, que estão afundados em ruínas. A região do Oriente Médio permanece instável e se tornou terreno fértil para grupos militarizadas e para o ódio generalizado da população contra o Ocidente, criando condições mais do que propícias para o crescimento de grupos radicais (como o EI).

E qual foi a participação dos EUA nessa história toda? Afinal, eles não tiveram uma atuação verdadeiramente incisiva na Síria e só abrigaram uma minúscula quantia de 1.500 refugiados. Na verdade, a participação americana na situação complexa no Oriente Médio começou há bastante tempo. A CIA e o MI6 queriam ter o Irã sob controle, e em 1953 organizaram um golpe para tirar do poder o 1o ministro democraticamente eleito e colocaram o Xá no poder. Ele era um ditador cruel e ficou no poder até 1979, quando foi deposto pelo povo durante a Revolução do Irã. Os EUA não ficaram satisfeitos e resolveram neutralizar o Irã, financiando e armando Saddam Hussein durante a guerra do Irã-Iraque, que durou de 1980 a 1988. E continuaram apoiando-o, mesmo sabendo q ele estava usando armas químicas contra a população iraniana. Derrubar o governo do Irã na época era mais importante do que defender os direitos humanos. Saddam perdeu a Guerra e os EUA mudaram de tática, tentando atacar o Irã diretamente, acusando-os de construírem armas nucleares para justificar possíveis ataques militares. Mas essa estratégia não vingou, pois os EUA perderam credibilidade em suas acusações sem provas sobre o Iraque e suas armas de destruição em massa. Então decidiram partir pra Síria, pois esta havia assinado um acordo de mútua defesa com o Irã e se a OTAN invadisse a Síria, o Irã seria obrigado a lutar para defendê-la e aí eles teriam sua guerra. No fundo, tudo seria uma cortina de fumaça para esconder uma disputa pelo controle da produção mundial de petróleo. Mas como um ataque direto poderia levar a uma rejeição por parte da opinião pública mundial, os EUA e a OTAN decidiram financiar e armar rebeldes sírios numa “Guerra por procuração”, ou ‘Proxy War’, que é um conflito armado onde dois países se utilizam de terceiros (os ‘proxies”) como intermediários ou substitutos, de forma a não lutarem diretamente entre si. Para isso, usaram países aliados na região, como o Qatar e a Arábia Saudita nas compras de armas, enviando-as para a Síria através da Turquia. O grupo apoiado pelos Estados Unidos, chamado de Exército Livre Sírio, que teoricamente estaria lutando pela liberdade, tem intenções de substituir as leis seculares da Síria pela Lei Islâmica (‘Sharia Law’), cujas interpretações mais radicais e literais das leis incluem punições como apedrejamento e decapitações para quem infringi-las.

Por outro lado, o governo da Síria conta com o apoio da China, do Irã e da Rússia, que formam um bloco forte e antagônico aos países do Ocidente. A China tem motivos econômicos para apoiar a Síria, com quem fez negócios em cifras substanciais. Além disso, ela forma uma coalizão com a Rússia no Conselho de Segurança das Nações Unidas, sempre votando contra (ou se abstendo de votar) em assuntos relativos a intervenções internacionais em outros países, como fizeram no caso da Líbia em 2011. Ela defende a ideia de que quaisquer problemas dentro de cada país devem ser resolvidos internamente, de forma a não criar precedentes que possam se voltar contra ela própria (afinal o país tem um histórico de medidas e práticas pouco democráticas).

Já a Rússia tem interesse em manter os americanos ocupados em guerras no Oriente Médio, enquanto fortalece sua posição e influência em países como a Bielorussia, a Moldávia e a Ucrânia, por exemplo. Desta forma ela consolidaria seu poder perante os antigos estados soviéticos. Conseguir o apoio destas nações não tem sido fácil, como por exemplo com a Geórgia. Ao se alinhar contra os EUA, Putin cria uma imagem de uma renovada superpotência soviética. Não é mera coincidência a quantidade de países que se aliaram ou flertaram com a União Euroasiática desde o início do conflito na Síria. Além disso, a única base militar da Rússia no Mediterrâneo fica na Síria, no porto de Tartus. Pode não ser enorme, comparado às bases americanas, mas tem localização estratégica. Estamos diante de uma nova Guerra Fria.

Trata-se de um delicado jogo de xadrez político-econômico e é difícil dizer que rumo a situação irá tomar diante do espetáculo público de medição de forças entre Rússia e EUA. Mas a triste realidade é que enquanto não houver uma solução para este conflito, milhares de pessoas continuarão pagando com suas vidas e outros milhões continuarão se espalhando pelo mundo numa busca desesperada por abrigo, comida e meios básicos de subsistência. Que no futuro estas pessoas não sejam lembradas apenas como números.

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Adriana Gandelman

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