drinking wine and killing time

De tudo um pouco.

Adriana Gandelman

Gosto de letras, livros, quadros, filmes, vinhos, lugares, línguas, cheiros, papos amenos, gargalhadas, músicas, silêncio, abraços, lembranças

Uma breve história do olhar em 4 atos

Qual seria a real importância da escolha do narrador de uma história?
Diferentes narradores definem as diferentes perspectivas pelas quais podemos ver uma história. O olho que observa também é o mesmo que interpreta. Quanto menos óbvio ele for, mais original poderá ser o texto. Através de 4 exemplos diferentes na literatura desde a Idade Média até os dias atuais, veremos como uma narrativa pode se transformar em função do olhar que a descreve.


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Até que ponto quem conta uma história contribui de forma decisiva com seu relato parcial sobre os fatos vividos?

Narradores não tradicionais conseguem nos contar histórias pouco óbvias. Todas tem múltiplas facetas e podem ser narradas de diferentes formas. Mas a maior parte da literatura é focada em narradores convencionais, que acabam fazendo um relato de certa forma esperado. É claro que o texto em si pode ser extremamente bem escrito e isto não está em questão, mas o ponto de vista escolhido pode fazer toda a diferença na originalidade do texto e na sua recepção.

Vejamos a história de Cristo, que todos conhecem, tradicionalmente contada no Novo Testamento. Um novo olhar surge ao se investigar as elegias anglo-saxãs, com o poema “A Visão da Cruz”, escrito por um autor desconhecido na Idade Média. O poeta começa contando sobre “o mais precioso dos sonhos”, a respeito de uma árvore resplandecente que crescia até o céu. A árvore começa a falar e, a certa altura, o leitor se dá conta de que esta árvore é na realidade a Cruz. Ela se recorda de como foi levada e plantada em uma colina, de seu encontro com Cristo e da sensação acolhedora e indescritível ao sentir o seu abraço, de como foi erguida junto a ele, que a esta altura estava morrendo, e finalmente, de como a terra ficou escura, o mar tremeu e o Universo se entristeceu com sua morte. Depois ela divaga por considerações morais, mas o fato de relatar a paixão de Cristo sob a ótica da Cruz é uma forma absolutamente original de se narrar talvez a mais antiga e popular das histórias da humanidade.

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Já no conto “The Lady’s Maid”, escrito por Katherine Mansfield em 1920, a delicada relação entre a patroa e sua criada, Ellen, é contada através do olhar da criada por meio de um monólogo interno. O leitor descobre quem ela é e como lida com sua empregadora através de um “diálogo” com uma convidada que veio pernoitar na casa de sua patroa, onde só Ellen fala, respondendo a perguntas que só podemos imaginar, pois não chegam a ser feitas. Assim o leitor é convidado a deduzir através do que é dito e do que não é dito, sua personalidade servil e leal, seu passado, suas confissões e seus arrependimentos, além da forma como se relaciona com os diferentes personagens citados, dentre eles seus familiares e seu noivo, que ela teve que abandonar. Certamente a história seria outra se fosse contada pelos olhos de sua patroa.

Um outro exemplo seria o brilhante livro “Tia Julia e o escrevinhador”, de Mario Vargas Llosa, escrito em 1977. Ele trata da história de Varguitas, um jovem de 18 anos que trabalha numa Rádio popularesca na Lima dos anos 50. Ele sonha em ser escritor mas exerce um trabalho burocrático. A grande audiência da rádio se dá durante a transmissão das radionovelas, com suas histórias fictícias de amores impossíveis. Estes folhetins fazem tanto sucesso, que o boliviano Pedro Camacho, mestre em criar histórias mirabolantes, é contratado para escrevê-los. Ao mesmo tempo chega na cidade Tia júlia, com quem Varguitas irá desenvolver uma paixão desenfreada, apesar da diferença de idade e do preconceito familiar. Ao longo do livro, vamos conhecendo um pouco mais sobre o romance dos dois, entremeado por capítulos onde as histórias inventadas pelo delirante Pedro Camacho são contadas com todos os clichês narrativos que fazem sucesso no mundo das radionovelas, para surpresa do leitor desavisado, que inicialmente precisa de algum esforço para separar a história “real” das fictícias. Aos poucos, devido ao insano volume de trabalho, Pedro Camacho vai misturando seus personagens e tramas, e Vargas Llosa segue confundindo o leitor de forma genial, envolvendo-o com tantos enredos. A forma encontrada pelo escritor para contar as diferentes narrativas torna o livro absolutamente original.

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Por fim, “A Sociedade Literária e a Torta de casca de batata”, escrito por Mary Ann Shaffer e Annie Barrows em 2008, é um romance epistolar cuja trama e cujos personagens ganham vida através da correspondência de cinco diferentes personagens. Aos poucos vamos tendo contato com uma série de episódios narrados sob óticas distintas e assim vamos conhecendo melhor a história de Juliet Ashton e de como foi parar na ilha inglesa de Gwernsey no pós-guerra, após receber uma carta de um morador que ela não conhecia. As cartas trocadas entre diferentes personagens ao longo do livro nos conduzem pela pitoresca história de um clube do livro chamado “A Sociedade Literária e a Torta de casca de batata”. Ele foi criado de forma improvisada durante a época em que a ilha estava ocupada pelos alemães, para disfarçar o fato de que um grupo de moradores estava fazendo um banquete em torno de um porco assado com batatas após o toque de recolher. O clube continuou a se encontrar após este episódio e Juliet, imediatamente interessada pela história, começou a se corresponder com vários moradores da ilha para conhecer melhor suas experiências durante a Guerra. O formato epistolar escolhido pela autora permite o desenvolvimento de múltiplas perspectivas por parte dos personagens, que podem contar os fatos através das lembranças e escolhas narrativas de cada um, revelando ao leitor seus humores e personalidades distintos.

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Podemos ver que nenhuma narrativa seria a mesma se fosse contada pelos diversos personagens de uma mesma história. O ângulo do narrador é capaz de lançar uma perspectiva diferente, que define todo o rumo da história. A genialidade de um escritor reside em diversos fatores combinados entre si, mas sem dúvida alguma, saber encontrar o personagem certo para dar voz a suas ideias é uma arte.


Adriana Gandelman

Gosto de letras, livros, quadros, filmes, vinhos, lugares, línguas, cheiros, papos amenos, gargalhadas, músicas, silêncio, abraços, lembranças.
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