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De tudo um pouco.

Adriana Gandelman

Gosto de letras, livros, quadros, filmes, vinhos, lugares, línguas, cheiros, papos amenos, gargalhadas, músicas, silêncio, abraços, lembranças

Longe da Árvore (Far from the tree)

Diz um velho provérbio que uma mação não cai longe da árvore. O livro “Longe da Árvore” trata de crianças que nasceram bem longe de suas árvores, algumas delas alguns pomares adiante. Outras, do outro lado do mundo. Um livro sensível, que trata das diferentes formas de ser. Que nos ensina o que é ser... HUMANO.


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Muitos pais adoram dizer o quão perfeitos são seus filhos em intermináveis relatos sobre seus feitos na escola, na música ou nos esportes, possivelmente acreditando que enxergar perfeição seria o significado maior do amor por um filho (o que não deixa de ser também). Na verdade nem sempre é fácil amar os filhos por eles mesmos, com suas características próprias e idiossincrasias.

Existe um velho provérbio em inglês que diz: “an apple doesn’t fall far from the tree”, ou, em português, “uma maçã não cai longe da árvore”, numa alusão ao fato de que uma criança costuma se assemelhar a seus pais.

O livro “Longe da Árvore” (“Far from the tree”, de Andrew Solomon), trata de crianças que nasceram bem longe de suas árvores, algumas delas alguns pomares adiante. Outras, do outro lado do mundo.

É um livro que aborda de forma belíssima a história de crianças surdas, anãs, transgêneros, com síndrome de down, autistas, esquizofrênicas, com deficiências múltiplas, prodígio, filhos concebidos por estupros e menores infratores. Ou seja, é um livro sobre situações familiares complexas, sobre as quais ninguém quer falar. Sobre famílias que “aprendem a tolerar, aceitar e, por fim, celebrar crianças” que são bem diferentes do que seus pais imaginaram. Sobre um amor que não conhece limites. Todas as pessoas que tem filhos ou que lidam com crianças, deveriam ler este livro.

Salomon inicia abordando o termo “defeituoso”, caído em desuso pela carga supostamente pesada que possui. Modernamente ele foi substituído por “doença”, “síndrome” ou “condição”. Segundo ele, todos os três são tão pejorativos quanto. Ele afirma que o termo “doença” é usado para depreciar um modo de ser e “identidade” para validar essa mesma maneira de ser, numa falsa dicotomia. Ele explica que o vencedor do Prêmio Nobel de Física, Paul Dirac, identificou como a luz parece ser ora uma partícula, ora uma onda. Da mesma forma, o ser humano parece ter uma dualidade semelhante:

“Muitas condições são tanto doença como identidade, mas só podemos ver uma se obscurecermos a outra. A política da identidade refuta a ideia de doença, enquanto a medicina ludibria a identidade. Ambas saem diminuídas com essa estreiteza”.

Cada uma destas condições tem suas especificidades e desafios. Ao longo dos capítulos, o autor se debruça sobre diversas histórias de maneira tocante, concebidas não só através de entrevistas, mas pelo acompanhamento do crescimento de algumas crianças, e o leitor não tem como evitar se emocionar com a imensa dedicação e amor com que certos pais lidam com seus filhos.

Dentre as diversas histórias incríveis, ressalto o texto “Bem Vindo à Holanda” escrito por Emily Perl Knisley, mãe de uma criança com Síndrome de Down, onde ela descreve a experiência de receber uma criança diferente do planejado e o necessário “jogo de cintura” para se “recalcular a rota” e lidar com o novo:

“Ter um bebê é como planejar uma fabulosa viagem de férias para a Itália ! Você compra montes de guias e faz planos maravilhosos! O Coliseu. O Davi de Michelângelo. As gôndolas em Veneza. Você pode até aprender algumas frases em italiano. É tudo muito excitante. Após meses de antecipação, finalmente chega o grande dia! Você arruma suas malas e embarca. Algumas horas depois você aterrissa. O comissário de bordo chega e diz: - BEM VINDO A HOLANDA! - Holanda!?! - Diz você. - O que quer dizer com Holanda!?!? Eu escolhi a Itália! Eu devia ter chegado à Itália. Toda a minha vida eu sonhei em conhecer a Itália! Mas houve uma mudança de plano vôo. Eles aterrissaram na Holanda e é lá que você deve ficar. A coisa mais importante é que eles não te levaram a um lugar horrível, desagradável, cheio de pestilência, fome e doença. É apenas um lugar diferente. Logo, você deve sair e comprar novos guias. Deve aprender uma nova linguagem. E você irá encontrar todo um novo grupo de pessoas que nunca encontrou antes. É apenas um lugar diferente. É mais baixo e menos ensolarado que a Itália. Mas após alguns minutos, você pode respirar fundo e olhar ao redor, começar a notar que a Holanda tem moinhos de vento, tulipas e até Rembrants e Van Goghs. Mas, todos que você conhece estão ocupados indo e vindo da Itália, estão sempre comentando sobre o tempo maravilhoso que passaram lá. E por toda sua vida você dirá: - Sim, era onde eu deveria estar. Era tudo o que eu havia planejado! E a dor que isso causa nunca, nunca irá embora. Porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa. Porém, se você passar a sua vida toda remoendo o fato de não ter chegado à Itália, nunca estará livre para apreciar as coisas belas e muito especiais…. sobre a Holanda!”

Por fim, admiro a forma como Salomon reconhece sua própria ignorância ao começar a investigar as diversas complexidades inerentes ao objeto de sua pesquisa e de como aprendeu sobre as diversidades entre os indivíduos e sobretudo sobre si mesmo, conseguindo ao final do livro, perdoar e entender melhor as atitudes de seus pais que tiveram que lidar como puderam com sua homossexualidade.

Um livro sensível, que trata das diferentes formas de ser. Que nos ensina o que é ser... HUMANO.


Adriana Gandelman

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