e a vida o que é diga lá meu irmão

Pensamentos transformados em palavras

Júlia Scheibel

Mãe do João, publicitária, poetisa mestre em comunicação. Atua em comunicação organizacional. Conheça mais em: www.juliascheibel.com.br

O efeito bolha social

A gente já ouviu falar muito sobre o efeito bolha, aquela sensação de estar separado, individualizado de um mundo ao redor. O mundo contemporâneo, a tecnologia, a segurança, os excessos da vida cotidiana nos trazem essa realidade. Da infância ao mundo adulto não vivemos mais a diversidade, nem a paciência, nem o compartilhamento do tempo, do espaço, do heterogêneo.


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A gente já ouviu falar muito sobre o efeito bolha, aquela sensação de estar separado, individualizado de um mundo ao redor. O mundo contemporâneo, a tecnologia, a segurança, os excessos da vida cotidiana nos trazem essa realidade. A tecnologia nos oferece essa segurança de expor nossas opiniões em uma rede somente de amigos. Nós podemos privatizar nossos posts em prol de um ambiente seguro, tanto de opinião quanto de exposição. Teclamos, compartilhamos, oferecemos likes a todo o momento, por meio do celular, para outras pessoas que gostamos, aceitamos, convivemos (mesmo que virtualmente).

Somos capazes de compartilhar pensamentos, críticas, soluções, engajamentos sociais, mas não enxergamos o outro no ambiente em que estamos, nem aceitamos ou convivemos com as diferenças. Ouvimos, vemos e lemos dizeres de amigos, patrocínios e propagandas.

E as crianças? Eu sou mãe e meu filho passa o dia todo na escola, na turma dividida por idades. As atividades do contra turno (conhecido como período integral) são separadas por idade e as atividades por escolha dos pais ou dos alunos. Pode ser futebol, balé, natação além da atividade pedagógica/dever de casa. Meu filho vive com amigos da mesma faixa etária. As turmas em todas as escolas são organizadas assim... Isso traz segurança e facilidade em logística. E as educadoras mediam as ações e brigas das crianças.

Crianças não lidam com as dificuldades de uma turma heterogênea em idade, gostos, afinidades como na turma da rua, do condomínio, da quadra. Tempos atrás, soltos, a gente tinha que brincar decidindo, em conjunto com o grupo pelas próprias crianças, sem mediação de adultos. Salvo um pai ou outro que vinha! A criançada do bairro aceitava crianças mais novas nos jogos, chamados de café-com-leite, pois não entendiam as regras (ou não conseguiam correr muito). Havia medo dos meninos mais velhos! E com o tempo, os adolescentes saíam do convívio com os menores para assuntos mais “de adulto”. Era tudo muito natural entre grupos formados pelas próprias crianças. A gente sofria rejeição, implicância, mas amadurecia com as intempéries infantis.

Hoje, os pais quando passeiam pensam se o local possui brinquedoteca para as crianças. E assim jantarem/almoçarem em paz. Em casa, a TV e a internet oferecem entretenimento, desenho infantil, seriados, 24horas por dia. Não se dividem a TV, o tempo e o espaço físico entre toda a família de forma a atender todos os gostos. Oferecemos aos nossos filhos (e a nós mesmos) o excesso sem a oportunidade do aprendizado, da divisão. Não temos a experiência do heterogêneo, da diversidade. É excesso do mesmo, do igual. Vivemos em uma bolha social. Nós, adultos, e elas, as crianças. Se não forem tolerantes, será que o dia a dia nos traz essa resposta?


Júlia Scheibel

Mãe do João, publicitária, poetisa mestre em comunicação. Atua em comunicação organizacional. Conheça mais em: www.juliascheibel.com.br .
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