Gabriel, de pequeno a pensador

Uma breve história do jovem que inovou a música popular brasileira e inseriu a cultura do rap nos ouvidos e corações. Ídolo de uma geração que descobrira a paixão por uma música irreverente e ao mesmo tempo crítica e referência para os que, como ele, sonhava em ser poeta.


gabriel-o-pensador.jpg Foto: Fabiano Battaglin/TV Globo

Gabriel Contino quando pequeno era fã de surf e de dar um role de skate com os amigos, vivia uma vida normal como todo garoto de sua idade. Mas ainda moleque, despertou uma paixão nova em sua vida, a música. Entrou para uma banda do colégio e alguns anos após conheceu o rap, cultura americana que ascendia em todo mundo na década de 1980. Era muito fã de Michael Jackson por causa de suas danças e pelas produções cinematográficas de seus clipes, como o thriller – o que mais gostava. Além do gosto pela música, Gabriel era um ótimo escritor, e tem como grande incentivadora a sua tia-avó, que em seu aniversário de quinze (15) anos deu sua primeira máquina de escrever. Daí por diante começou a escreve sem parar, fazendo textos e músicas incansavelmente, sendo reconhecido pelos seus professores, familiares e amigos como o garoto que amava escrever, contudo não perdeu sua essência de criança, praticava esportes: surf, futebol e skate, mas o pequeno, como era conhecido por seus amigos, sabia que isso não era seu forte, o seu dom mesmo era a escrita. Então, um dia, após fazer uns raps se intitulou Gabriel O Pensador, criando em sua personalidade um nome artístico sem ao menos ser artista, pois o seu sonho de garoto não era ser famoso e ganhar dinheiro – isso ele já tinha – e sim ser poeta.

Começou timidamente com algumas músicas e a cada composição mostrava a seus amigos, que foram gostando dessa nova cultura e começaram a comprar a idéia do pensador, ficando vidrados a cada letra que ele escrevia. Nas músicas ele falava de corrupção, desigualdade social, drogas, igreja, liberdade, pobreza, polícia, racismo e violência, criticando tudo isso citado com uma forma irreverente do rap, mas não perdendo a essência de senso crítico. Com as poucas músicas geradas, foi fazendo pequenas apresentações para sua família, amigos e alguns públicos da rocinha, o local onde ele passava todo seu dia (apesar de ser rico, sempre viveu na favela com seus amigos).

Na década de 1990, o Brasil passava por uma grande crise política e econômica, onde o atual presidente da época Fernando Collor de Melo após ganhar as eleições de 1989 tentou acabar com a inflação que estava assombrando o Brasil com números altíssimos e teve como principal medida o confisco das cadernetas de poupança por um longo período, fez isso para diminuir a quantidade de moeda em circulação e assim preservar seu poder de compra, sendo que essa medida não deu certo e com o passar do tempo os brasileiros ficavam insatisfeitos com o governo Collor. Além de não acabar com a inflação, Collor foi acusado de manter uma sociedade com o empresário e tesoureiro de sua campanha Paulo César Farias. Segundo o irmão de Fernando Collor, Pedro Collor o PC Farias, como era conhecido, fazia transações financeiras fraudulentas a mando do ex-presidente. Com todos esses escândalos, o povo foi criando movimentos estudantis para tirar Fernando Collor do poder. Foi aí que a figura do Gabriel o Pensador se tornou pública e de cunho nacional, em 1992 lançou uma música chamada ‘’Tô feliz (matei o presidente)’’, que mesmo sendo censurada por conter trechos que incitavam o assassinato do presidente e que tinha partes ofensivas a primeira-dama Rosane Collor, virou febre nacional e aquele jovem garoto desconhecido despertou olhares de grandes gravadoras.

A partir de uma fita demo que criticava o governo e o presidente atual da época, Gabriel foi contratado por uma grande empresa do ramo musical e passou a produzir mais raps e encantar não só seus amigos, mas o Brasil inteiro. Foi o pioneiro, junto com o MV Bill, a instituir a cultura do rap no país, foi por sua conta que esse novo ritmo musical virou febre principalmente entre os jovens e cresceu de uma forma assombrosa. A cada música lançada, era um sucesso contagioso, tipo chiclete que não saia mais da cabeça, como o ‘’retrato de um playboy’’ e ‘’cachimbo da paz’’. Criou fama, conquistou um grande público, ganhou muito dinheiro, mas admiravelmente não perdeu sua essência, continuou íntegro e humilde. Apesar de rodar o mundo mostrando seu talento, ele nunca se esqueceu dos amigos de infância da rocinha que sempre estiveram ao seu lado, sendo para ouvir as musicas que o amigo escrevera ou indo pegar onda.

O auge de sua carreira como cantor foi de 1993 a 2000 onde a maioria de seus grandes sucessos foram feitos, apesar de ser um hit que gera preconceito pela sociedade conservadora por ser intitulado como musica de ‘’marginal’’, ele fez com que o rap se tornasse popular entre as crianças e os senhores da melhor idade. Entretanto, o grande poeta compositor, ainda tinha um sonho guardado em seu coração, que era o de ser tornar um escritor. Como nós sabemos a vida de um escritor aqui no Brasil não é fácil, pouco espaço nas janelas culturais, pouca visibilidade da mídia e pouco incentivo para suas obras torna quase impossível se viver de contos. Mas, como Gabriel já era reconhecido mundialmente por suas músicas críticas e irreverentes foi fácil se tornar um grande poeta, deu início a sua carreira de escritor por volta de 2001 lançando o livro ‘’Diário Noturno’’, um livro que fala da vida através de contos e poemas.

Com seu coração totalmente voltado para a sociedade menos favorecida, os moradores da favela da rocinha. Criou uma organização não-governamental chamada ‘’Pensando Junto’’, que foi feita para as crianças da favela para evitar a evasão das escolas por parte das mesmas. Nessa ONG tem reforço escolar, aulas de músicas, cidadania e diversos cursos, que tem o intuito de fazer com que os jovens não saiam da escola e formá-los cidadãos e futuros profissionais.

Então, aquele jovem cujo apelido era pequeno, com o tempo cresceu e se tornou um grande homem, de coração puro, solidário, íntegro e humano. O sonho de se tornar um poeta foi além do que ele poderia imaginar e deu-lhe o título de O pensador, dedicando sua vida para ser referência na poesia e na arte mergulhando fundo dos corações e mentes da garotada. Assim, fez nascer uma geração de jovens com posicionamentos críticos, formando uma legião de fãs e ao mesmo tempo, uma legião de escritores, cantores, leitores e o melhor de tudo, conseguiu formar cidadãos ensinando que o melhor da vida é compartilhar conhecimento com os amigos, ter respeito com o próximo, usar a sabedoria para o bem e ter dedicação à leitura.


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