Uma estranha história de amor

Desde cedo me pergunto: o que realmente é amor? Comecei a observar o mundo aos meus cinco anos. Com a inocência de um garotinho, via como as pessoas se cumprimentavam e sorriam, achava que poderiam ter algum vinculo amoroso por ter tanta felicidade presente, afinal, sorrir e fazer sorrir também podem ser uma forma de amor


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Desde cedo me pergunto: o que realmente é amor? Comecei a observar o mundo aos meus cinco anos. Com a inocência de um garotinho, via como as pessoas se cumprimentavam e sorriam, achava que poderiam ter algum vinculo amoroso por ter tanta felicidade presente, afinal, sorrir e fazer sorrir também podem ser uma forma de amor. Curioso era ver que por pouco motivo o sorriso se transformava em lágrimas, daí eu não conseguia compreender aquele avesso. Será que o amor também se expressava em lágrimas, perguntava-me sem ter quem me respondesse, afinal de contas eu era apenas uma criança de meia década e para os adultos eu não Sabia nem o ‘’bê-á-bá’’.

Assim que completei dez anos minha mãe me deu um cachorro, a felicidade era tão grande que eu gritava para a rua inteira ouvir – EU AMO A MINHA MÃE! Dormia tarde e acordava cedo para brincar com meu banguela, o nome que dei a meu amado cachorro, pois é ele virou meu amor. Banguela fazia milagres em minha vida, de verdade, ele era como um irmão para mim, já que eu sou filho único.

Eu era um aluno exemplar, sempre ganhei o prêmio Mérito Aluno Exemplar e assim eu criei uma grande inimizade dos meus coleguinhas de escola. Uma vez uns valentões do colégio me seguiram até perto da minha casa para tomar a medalha do prêmio supracitado, por sorte meu melhor amigo pulou o muro da varanda e com um brado exclamou: AU AU AU! Ele não era muito bom em português, mas nem precisava de muito, aquele grito foi o suficiente para assegurar minha integridade física. No dia seguinte decidi construir um palácio para rei Banguela com madeiras e garrafas pets que eu ia arrumando nas lixeiras, afinal, se ele fuçava o lixo, porque eu também não poderia? Eu era o seu súdito, às vezes fazia o bobo da corte e doutra era apenas seu massagista. Contudo, Banguela era um pouco mal educado e perseguia as pessoas na rua, até que certo dia um vizinho cansado de seus latidos deu comida envenenada para meu companheiro, não teve jeito. O Banguela se foi deixando um vazio enorme em meu coração. Eu chorava o tempo todo me perguntando por que existem pessoas capazes de fazer tamanha crueldade. Dai me perguntava: será que existem pessoas sem amor?

Na minha adolescência eu era um garoto tímido, anti-social e estranho. Aos quinze anos a puberdade me aparecia de forma silenciosa, os desejos eram diferentes dos garotos normais, eu era um cara incrivelmente romântico. Como no primeiro parágrafo, eu voltei a observar as pessoas, principalmente às garotas do meu colégio. Eram todas lindas ou eu era muito tolo, não sei, mas eu tinha queda por todas, sei lá, acho que eu era meio indeciso. Entre uma observação e outra deparei-me com uma garota, de cabelo preto, unhas vermelhas e uma farda escolar maravilhosa. Ela era da classe ao lado, do nono ano B e eu era do nono ano A, por um eu não estudava na mesma sala. Não sabia o seu nome e tinha vergonha de perguntar a outros alunos como se chamava aquela oitava maravilha do mundo, vai que a galera começasse a me zoar, eu ia ter que mudar de colégio e isso não fazia parte dos meus planos. Um dia eu flagrei, meio que sem querer, ela de namorico com o Carlos, o garoto mais popular do colégio, e aquela cena partiu meu coração em pedaços, mais pedaços do que quando eu perdi o Banguela. Foi aí que eu desisti do amor, isso era demais para meu coração, ela não podia fazer isso comigo, eu a amava muito e o que ela fez? Brincou com meus sentimentos. Como dizia o poeta Silvano Sales: “esse tal de amor dói, esse tal de amor dói”.

Com o passar dos anos eu fui perdendo minha timidez e fui fazendo amizade com os terráqueos, pois é eu acho que era eu extraterrestre. Enfim, eu passei a conversar mais com as pessoas e foi ai que eu aprendi uma palavra nova – amizade. Nossa como isso era bom, saber como o outro estava e falar como eu me sentia no momento era sensacional, parecia à parceria que eu tinha com o Banguela, a diferença é que eles não balançavam só a cabeça. Dentre essas amizades, uma era especial, a da Marta. Ela era da mesma sala que eu, muito inteligente, bonita e amava animais, tanto que iria prestar vestibular para medicina veterinária, deve ser por isso que nos identificamos e nos aproximamos tão rapidamente. Marta e eu éramos brother, ela me contava seus segredos e eu os meus, eu ficava lisonjeado em saber seus segredos e meu dia só ficava bem quando nós sentávamos no chão do corredor da escola e passávamos o intervalo inteiro conversando. Ela me fazia esquecer todos os problemas de casa, me fazia lembrar como a vida era linda e que não era bom perder tempo reclamando ou até brigando com alguém, nós éramos inseparáveis e juramos nunca perder nossa amizade. Certo dia nós fomos a uma festa que o nosso terceiro ano do ensino médio estava organizando, aquelas festinhas que fazem para arrecadar dinheiro para a formatura, ela era da comissão e eu nem sabia se iria participar como formando. Voltando, nessa festa eu bebi um pouco a mais da conta e ela me levou para casa, minha mãe que gostava muito dela a deixou cuidar do meu quase coma alcoólico. Na manhã seguinte quando acordei com a cama girando, ou era eu, não sei, só sei que eu não tinha ponto fixo no teto, ela estava ao meu lado dormindo, fiquei confuso, mas meu coração acelerou como nunca antes, uma sensação única ate o momento. Levantei sem fazer barulho para não acordá-la e perguntei a minha mãe o que estava acontecendo, ela me disse que eu estava muito bêbado e que a Marta me levou para casa e cuidou de mim, eu como um bom cavalheiro fui até a padaria próxima a minha casa e comprei um café da manha para ela.

No outro dia ao vê-la foi diferente, um frio na barriga, o coração acelerado e a garganta seca, que bosta era isso que eu estava sentindo meu Deus? Quando ela abriu aquele sorriso lindo e disse: está melhor? Eu não sabia como ainda estava vivo depois daquele turbilhão de coisas que eu senti dentro de mim. Ao passar do tempo ela também foi me olhando de uma forma mais carinhosa, e como era mais atirada que eu disse: eu acho que to gostando de você! Eu como não era bobo já joguei logo a rede e disse: eu sonho todos os dias com você! Pronto, daí ficamos e depois de uma semana já estávamos namorando. Um ano depois, ela fazendo medicina veterinária e eu jornalismo, decidimos nos casar, afinal, o nosso amor era do tamanho do céu, de uma imensidão espetacular e de um brilho radiante. Começamos a juntar nosso dinheiro e aos poucos fomos pagando as coisas da festa e comprando os móveis de casa, minha mãe ajudando de um lado e a família dela do outro, ambas nos incentivavam e nos amavam muito. Marcamos a data para dezembro, afinal, nós éramos apenas dois jovens universitários.

O grande dia chegou. Flores, velas, orquestra, o padre, os convidados, todos estavam lá, todos ansiosos com nosso casamento. A cada segundo que passava eu ficava mais nervoso, suando frio, sem saber o que fazer. Passaram-se uma hora da prevista para o inicio da cerimônia, e eu pensando – vou pagar uma nota preta por essa hora de atraso – e uma das madrinhas para me confortar falava: é chique a noiva demorar, não se preocupe! Não estava preocupado, só estava um pouco nervoso, deve ser normal para quem é marinheiro de primeira viagem. As horas se passavam e nada da minha amada chegar, todos já estavam sem entender o motivo de tanta demora, uns diziam que o carro poderia ter quebrado, outros que o motorista errou o cominho e eu não falava nada de tão aflito.

Ate que em certo momento uma mulher entrou e veio em minha direção, eu não fazia idéia de quem fosse. Ela me entregou um envelope com uma carta dentro e saiu correndo, antes de abrir a carta eu tremia de nervoso e todos me mandavam abrir, eu já estava prevendo o que estava escrito na carta, mas não queria ler. Quando comecei a ler meus olhos se encheram de lagrimas e perdi o chão, a carta dizia o seguinte: Rafa, eu sei que você me ama e que fez de tudo para que nosso amor desse certo, mas eu não sou capaz de te acompanhar. O que eu sinto por você não chega perto do que você sente por mim. Desculpa só ter coragem de te contar agora e te contar dessa forma, mas foi à única forma que encontrei pra te contar que eu não te amo. Infelizmente eu só vim cair na real agora, logo agora Rafa. Eu juro que não queria que terminasse assim, mas é isso. Estou indo embora da cidade e da sua vida, espero que seja feliz e arrume alguém que te ame assim como você me amou. Obrigado por tudo que você fez por mim. Fica com Deus!

Então, o que é o amor? Acho que só existe o amor próprio, aquele que faz você ir à frente a um espelho e falar: poxa, como você está bonitão. Comecei a ver a vida de uma maneira diferente, passei a viver um dia de cada vez e nunca apostar tanto em uma pessoa, já que o tempo me provou que elas podem ser corrompidas ou perderem os sentimentos. Se o que falavam era mentira eu não sei, só sei que vou sempre acreditar no amor, pode ser utópico, pode ser que eu leia muito conto de fadas. Posso morrer sem saber o que é um amor verdadeiro? Eu tenho consciência que amei e que sempre vou amar e a partir de agora me conformarei de que nem todos amam como eu amo todos. Passo a acreditar que o amor é à maneira de cada um, sem que ninguém queira mudar ou dizer como eu ou você deva amar. Como já disse um dia o grande Tim Maia: ´´E na vida a gente tem que entender, Que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri...´´


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