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Se vale a pena fazer, vale a pena exagerar.

Gabriel Oro

As pessoas costumam dizer que, se vale a pena fazer, vale a pena fazer bem feito. Eu já acho que se vale a pena fazer bem feito, vale a pena exagerar também. Acompanhe aqui outros exageros literários como este, todas as semanas

Star Wars e os Clássicos do Terror

As referências aos grandes clássicos do cinema de terror na maior saga da ficção científica. Como George Lucas homenageou um outro gênero em seus filmes, e contou uma fantástica história nova usando várias histórias velhas.


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Star Wars é um fenômeno cultural tão conhecido e tão icônico que os filmes, jogos, quadrinhos, e tudo mais que leva o selo "Disney aprova", acaba sendo visto como pequenas partes de uma única grande história, e não tanto como obras que existem por si só. As pessoas conseguem discutir qualquer mínimo aspecto da franquia em grande detalhe, as roupas, as armas, a genealogia, o caráter dos personagens, e deve até haver algum fórum online sobre os calçados dos jedi. É fácil esquecer que quando os primeiros filmes foram lançados entre os anos 70 e 80, toda essa saga eram só eles mesmo, os filmes. E bons filmes, diga-se de passagem. O valor técnico e artístico dos primeiros Star Wars é muito frequentemente esquecido em detrimento da história contada e do que ela se tornou. Ainda assim, há vários aspectos muito interessantes sobre a saga de um ponto de vista cinematográfico, desde o uso de luz, a construção dos cenários e, meu preferido, as referências.

Eu tenho duas coisas em comum com George Lucas: uma forte propensão a engordar após os 40, e uma grande paixão pelos clássicos de terror. No meu caso, expresso isso vendo filmes de monstro mesmo depois de adulto, um hábito não tão construtivo, verdade. No caso de Lucas, ele deixou esse sentimento claro em cada um dos episódios da sua principal obra, e vou mostrar isso para aqueles que tiveram o bom senso de não gastar anos de suas vidas assistindo coisas em preto e branco sobre vampiros, lobisomens e mãos assassinas. Sim, eu disse mãos assassinas. Existe isso.

Pra quem não está muito familiarizado com a história do cinema de terror americano, no início a Universal foi o estúdio que mais se destacou no segmento. Há dois períodos muito importantes para filmes desse tipo, e o primeiro é informalmente chamado de Era de Ouro, nas décadas de 30 e 40. Foi ali que saíram as primeiras versões do Drácula, A Múmia, Frankenstein, o Fantasma da Ópera e etc. A Era de Prata, nos anos 70, foi uma revitalização do gênero principalmente através de refilmagens e versões européias dos filmes clássicos.

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Hoje, o terror é visto como uma categoria secundária, tem um público um pouco nichado e há até um estigma sobre atores ruins, mas na Era de Ouro a coisa era bem diferente. Filmes de terror estavam entre os maiores sucessos de bilheteria, então o gênero formou alguns dos principais atores da época, como Lon Channey, Vincent Pryce, Bela Lugosi, Peter Lorre e Boris Karloff. Os astros da Era de Prata não costumam receber o mesmo destaque, mas havia também vários grandes atores entre eles, um dos quais foi Peter Cushing. Ele interpretou várias vezes os Drs Van Helsing e Frankenstein, que tinham algo em comum: eram os únicos capazes de exercer algum controle sobre os monstros de seus respectivos filmes, Dracula e o monstro de Frankenstein. Eis que, em Uma Nova Esperança, é Cushing o personagem “Grand Moff Tarkin”, único além do Imperador a exercer algum comando sobre um novo monstro: Darth Vader. Essa é a primeira grande referência aos clássicos de terror que George Lucas colocou em Star Wars, um dr. Van Helsing para um ser de capa preta em uma galáxia distante. Aliás, Vader foi interpretado na trilogia original por David Prowse, que também atuou como o monstro de Frankenstein ao lado de Peter Cushing.

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Mas só essa referenciazinha não é suficiente. Podemos mais. O grande ator do gênero durante a Era de Prata foi Christopher Lee, que foi o conde Drácula em quase dez filmes entre 58 e 76. Em A Guerra dos Clones, Lee vestiu novamente uma capa preta para interpretar um mestre jedi que se juntou ao lado negro da força. Seu nome era Dooku. Aliás, conde Dooku, a única pessoa com tal título em todo o universo de Star Wars. Ele também foi o primeiro personagem na cronologia dos filmes a usar efetivamente uma capa, em vez de algo como um robe ou uma túnica.

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Uma das cenas mais criticadas da nova trilogia é o grito de Darth Vader em A Vingança dos Sith, que realmente pareceu um pouco inadequado na hora. Quando analisamos a cena inteira, no entanto, vemos quase uma janela para um filme antigo de terror. Vader está com os braços e pernas presos a uma mesa, que gira pra colocá-lo de pé, enquanto o seu mestre observa. Com a notícia que ele recebe de Palpatine, o monstro nasce, se desprendendo das suas amarras e gritando para os céus. É praticamente uma refilmagem do nascimento do monstro de Frankenstein, e torna o fato de que o primeiro ator por trás da máscara de Vader foi também o monstro em várias versões de Frankenstein ainda mais representativo. Essa é a referência óbvia, mas a cena pode remeter a dezenas daqueles (magníficos) filmes B que passavam tarde da noite na TV aberta, com baixa produção, raios mal feitos e uma película que transpira anos 80. Nada de novo, mas de algum jeito, novo.

Falando em monstros, muitos fãs destacam as semelhanças entre a primeira trilogia e O Mágico de Oz, de 1939. Ok, eu admito que O Mágico de Oz não é um filme de terror, a não ser que você seja uma pessoa bastante sensível, mas a referência ainda é válida. Obi-Wan e Yoda desaparecem quando morrem, de forma muito parecida com a bruxa má de Oz. Aliás, há quem acredite que essa referência se estende à maneira como Luke Skywalker vai encontrando os outros personagens, C3PO é como o homem de lata e Chewbacca o leão sem coragem.

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Claro que seria possível levar essa coisa de referências pra um nível muito maior, a série tem inúmeras homenagens aos filmes de Kurosawa e a outros clássicos do cinema japonês, de forma semelhante ao que Tarantino faz em suas obras até hoje. A própria cena da cantina, com Han Solo atirando em um alienígina por debaixo da mesa, é uma referência a Três Homens em Conflito, de Sergio Leone, o western mais famoso da história. São gêneros tidos como secundários agora, mas que sobrevivem através dos filmes que influenciaram, e Star Wars talvez seja o maior exemplo de todos.

No contexto dos blockbusters atuais, esse tipo de ode ao cinema de outra época é normalmente deixado de lado. Filmes de heróis, por exemplo, que alcançam grandes bilheterias, em geral ainda são produções com um trabalho de direção e roteiro relativamente fracos, mais focados na ação e em efeitos especiais caros do que na maneira de se contar uma história. São bons filmes para o gênero, mas pobres como obras cinematográficas, salvo algumas honrosas excessões. E eles prestam homenagem apenas a si mesmos, ou melhor, às suas versões originais em quadrinhos.

Essa é, para mim, a coisa mais fantástica de Star Wars, mesmo com todos os problemas que a segunda trilogia possa ter tido. A capacidade que os filmes têm de contar uma história nova, contando um monte de histórias velhas. A maneira como um diretor coloca um pedaço de si na obra pelas referências que o tornaram quem ele é. Torcemos para que os novos filmes e JJ Abrams não esqueçam uma das coisas que a saga tem de melhor: é muito mais que um filme, mas também é um filme, e precisa saber de história para entrar pra história.

Pra quem se interessar por filmes de terror clássicos e quiser se aventurar por esse mundo, há um ótimo documentário inglês em três partes chamado A History of Horror, narrado por Mark Gatiss, que é um bom lugar para começar e vai agradar até aos fãs mais hardcore do gênero.


Gabriel Oro

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