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Se vale a pena fazer, vale a pena exagerar.

Gabriel Oro

As pessoas costumam dizer que, se vale a pena fazer, vale a pena fazer bem feito. Eu já acho que se vale a pena fazer bem feito, vale a pena exagerar também. Acompanhe aqui outros exageros literários como este, todas as semanas

5 documentários para entender a história dos games

Quem for criança daqui a dez anos provavelmente não vai acreditar quando ouvir que games eram considerados coisa de criança até alguns anos atrás. De bolas prateadas e máquinas enormes em arcades escuros, até os torneios milionários em estádios lotados, vem sendo uma longa estrada. Uma grande história. Estes documentários contam essa história melhor que eu jamais conseguiria.


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A indústria de games já não sofre mais com as incertezas de um mercado em desenvolvimento. Consistentemente vem arrecadando o dobro de outros gigantes do entretenimento, como o cinema, por exemplo. Empresas novas e velhas fazem fortunas graças a uma verdade inegável: o mundo adora games. E não só as crianças, em menos de trinta anos a publicidade dos consoles saiu das revistas infantis para entrar em séries sobre política estrelando ganhadores de Oscars. Um público muito bem crescidinho.

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Essa evolução foi relativamente rápida, mas possível apenas porque tem gente do mundo inteiro dando o sangue todos os dias por nada mais que sua paixão pelos games. A indústria do cinema, mais antiga e madura, estava lá pra ver tudo acontecer e nos conta melhor essa história. Esses documentários são o suficiente para entender melhor como e quando essa história aconteceu, desde as luzes empoeiradas de velhas máquinas de arcade, até campeonatos gigantes com mais audiência que a NBA. Infelizmente, vários deles só estão disponíveis em inglês, frequentemente sem legendas, então no final do artigo há uma listagem que inclui recomendações mais mainstream com legendas em várias línguas.

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1. Special When Lit (2009)

Direção: Brett Sullivan

A história dos jogos eletrônicos começa com muito de jogo e só um pouco de eletrônico. Special When Lit conta a história do que foi um dos maiores fenômenos da história do entretenimento, um jogo de luzes brilhantes e sons alegres, uma bola prateada e apenas dois botõs. Pinball. Nenhum outro jogo dominou a indústria por tanto tempo, foram cerca de duas décadas como uma sensação mundial, amada por muitos e odiada por outros tantos. Pinball inspirou até música do The Who, gerou um cenário competitivo que se mantém até hoje, e foi cobaia das primeiras legislações feitas especificamente para jogos eletrônicos. No ocidente, especialmente nos Estados Unidos, as máquinas estavam em todo lugar. Uma geração cresceu vendo a popularidade do jogo nunca se abalar, até o final dos anos 70 quando as máquinas de arcade tomaram o mercado, e os donos de bares e lanchonetes nunca ganhariam tanto dinheiro quanto nos anos que seguiram.

Onde assistir: O documentário está no YouTube, mas em 360p e apenas com legendas em inglês. Você também pode adquiri-lo em alta definição no iTunes por U$12,99.

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2. The King of Kong (2007)

Diretor: Seth Gordon

Uma característica compartilhada por muitos grandes documentários é que, várias vezes, o cineasta tem uma história em mente e acaba se deparando com outra completamente diferente. Tenho a impressão que foi exatamente isso que aconteceu em The King of Kong, que poderia ter sido apenas mais um dos muitos documentários sobre a era de ouro dos arcades, mas que acabou se transformando em uma das grandes referências do gênero documental. A ideia do filme era contar as histórias de Billy Mitchell, recordista mundial do game Donkey Kong, e Steve Wiebe, um novato que alegava ter quebrado o recorde que já durava mais de 20 anos.

A premissa parece apenas divertida, ou mesmo boba, até que passamos a conhecer melhor os "personagens". As dificuldades na vida de Steve, a situação que o levou a perseguir o título, a personalidade de Billy Mitchell e uma série de acontecimentos estranhos que ocorrem durante as gravações criam uma história completamente inesperada e fazem desse documentário um "must watch" para qualquer fã de games, ou simplesmente do gênero. Muitos outros filmes foram feitos sobre a era do arcade, como Chasing Ghosts (2007), The King of the Arcade (2014) e High Score (2006), mas nenhum consegue contar a história de forma tão didática e envolvente quando o clássico de Seth Gordon.

Onde assistir: The King of Kong faz parte do catálogo do Netflix, mas sua presença ali é instável. No YouTube, pode ser assistido em inglês.

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3. King of Chinatown (2010)

Direção: Jordan Levinson, Calvin Theobald.

Nós viemos da era do arcade. Nós vivemos hoje o crescimento exponencial dos eSports, os games competitivos. O elo perdido entre esses dois mundos está na comunidade de jogos de luta e em um game de 2009: Street Fighter IV.

Os jogos de luta dominaram os arcades por toda a década de 90, mas tiveram uma grande queda em sua popularidade nos anos 2000. Street Fighter, a maior franquia do gênero, foi renegada a um papel de coadjuvante, lembrança nostálgica para as gerações que conheceram o jogo na infância. Apesar disso, um grupo dedicado de jogadores manteve viva a comunidade e em 2009 foram recompensados com um novo jogo cujo sucesso estrondoso começou a criar rachaduras nas barreiras que separavam os games dos esportes.

King of Chinatown segue a trajetória de Justin Wong, principal jogador de SFIV dos Estados Unidos, e seu caminho até o campeonato mundial onde ele encontra os “deuses” japoneses, considerados os melhores do mundo.

Onde assistir: O filme também está no YouTube, em inglês e pode ser adquirido por U$13,00 no iTunes.

*Uma curiosidade sobre o gênero: nos anos 90 foi produzido um documentário chamado Bang the Machine, que deveria ser a "grande produção" da história dos documentários sobre games. Porém, após anos de desenvolvimento e discussões legais com relação às trilhas sonoras que seriam usadas, o escritório da produtora, localizado no World Trade Center, foi uma das vítimas dos ataques de 11 de setembro de 2001 e apenas uma cópia sobreviveu. Essa cópia tinha a trilha sonora que não podia ser usada, e jamais foi lançada oficialmente. Incrivelmente o documentário também nunca caiu na net, e só pode ser assistido em alguns poucos eventos por ano.

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4. Second Skin (2008) ou Looking for Group (2014)

Direção: Juan Carlos Pineiro Escoriaza / Kern Konwiser, Kip Konwiser

Os dois servirão ao mesmo propósito: apresentar a realidade de World of Warcraft, talvez o maior fenômeno mundial da história dos games, e o que ele representou para seus jogadores. A diferença é que Second Skin tem um olhar mais humano e intimista, focado nos jogadores, nos benefícios e nos problemas que o jogo gera em suas vidas. Já Looking for Group é totalmente focado na produtora do jogo, a Blizzard Entertainment, em como o game foi criado e no impacto positivo que teve na vida das pessoas. A primeira expansão de WoW teve em seu primeiro dia uma arrecadação superior ao lançamento de qualquer filme lançado no mundo no mesmo ano, a uma fração do custo de produção.

Enquanto Looking for Group teve um maior investimento, Second Skin possui o mérito de “entrar na cabeça” das pessoas ao contar suas histórias. Conhecemos, por exemplo, uma mãe cujo filho se suicidou, e que culpava o jogo por isso. Ela mantinha uma instituição de auxílio a pessoas viciadas em games e inicialmente parece uma pessoa muito bem intencionada, até que os pontos de vista de outros mostram que, na vida real, as coisas não são tão simples assim. Um grande mérito de um documentário é a capacidade de contar uma grande história através de várias histórias menores, deixando que o espectador tire as suas próprias conclusões sobre o que aconteceu. Isso, Second Skin faz muito bem. Qualquer um dos dois conta a história da transição dos games de PC para algo mais sério, escolha o que parece fazer mais o seu estilo.

Onde assistir: Second Skin: Disponível no YouTube em inglês. Looking for Group: Disponível no YouTube com legendas em inglês.

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5. Free to Play (2014)

Direção: Scott Balcerek

Nós começamos com jogos quase analógicos, entramos no arcade, vimos a transição para home gaming e o cenário competitivo e agora entramos de cabeça em uma das grandes forças dos games atuais: free to play. Jogue sem pagar, só pague se quiser. As audiências incríveis que passaram a assistir games competitivos em estádios de futebol, os streams online com centenas de milhares de pessoas acompanhando em tempo real e premiações milionárias para os vencedores. As finais dos campeonatos mundiais de alguns games já são assistidas por mais pessoas que a NBA, os principais gamers têm mais seguidores nas redes sociais que os maiores atletas ou estrelas de TV de seus países.

Free to Play conta essa história megalomaníaca através de várias histórias pequenas, as vidas de alguns jogadores e os sacrifícios que cada um deles fez para se tornar um dos melhores do mundo. É um documentário que deixa o espectador um pouco cético no início, afinal são só uns jovens jogando videogame, e antes de perceber você está perdido na história desse bando de meninos correndo atrás de seus sonhos. Free to Play é uma excelente apresentação do cenário atual da indústria de games competitivos, independente de qual seja o nível de conhecimento do espectador no assunto.

Onde assistir: O documentário está disponível no YouTube oficial da Valve, com legendas em português.

Menções honrosas:

Há vários outros ótimos documentários sobre o assunto que você pode assistir se quiser se aprofundar sobre o assunto. Aqui vão alguns deles:

Indie Game: The Movie (2012)

Atari: Game Over (2014)

Chasing Ghosts: Beyond the Arcade (2007)

I Got Next (2011)

Focus (2011)

I am Street Fighter


Gabriel Oro

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