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Se vale a pena fazer, vale a pena exagerar.

Gabriel Oro

As pessoas costumam dizer que, se vale a pena fazer, vale a pena fazer bem feito. Eu já acho que se vale a pena fazer bem feito, vale a pena exagerar também. Acompanhe aqui outros exageros literários como este, todas as semanas

A desculpa do cheiro de papel

Por que tanta gente ainda odeia livros digitais? O problema de tentar desqualificar grande parte da indústria editorial por razões que nada tem a ver com a qualidade das obras.


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Tecnicamente um livro é apenas um agrupamento de papéis unidos por um dos lados. A definição literal da palavra termina mais ou menos por aí. Apesar disso, todos sabemos que existe também um significado mais abstrato atribuído ao termo, que é o conteúdo dentro dessas páginas. A Epopeia de Gilgamesh é frequentemente apontada como um dos primeiros livros da história, apesar de ter sido escrita em argila e com bambus. Teoricamente, chamar de livro está errado, mas é fácil entender o que as pessoas que falam isso querem dizer. Afinal, mesmo escrito sobre pedra, pergaminho, papiro ou folhas A4 Chamequinho, o que interessa ao leitor comum é o conteúdo, certo?

Eu sempre achei que sim.

As histórias escritas tiveram vários lares durante a história. Os sumérios escreviam sobre argila e os egípcios faziam rolos verticais enormes, semelhantes aos que ficaram guardados nas prateleiras de Alexandria muitos anos depois. Eventualmente os europeus começaram a escrever em pergaminhos unidos pela lateral, formato chamado "codex", que a automatização das impressões gráficas transformou no padrão ocidental, evoluindo para o livro moderno. Por centenas de anos não tivemos grandes evoluções neste formato até que os e-books começaram a chegar ao mercado editorial, e esse é o motivo de toda essa laboriosa introdução.

Há um debate frequente entre leitores, sobre livros impressos versus livros digitais, e acredito que qualquer pessoa ponderada sabe que a única resposta possível para essa discussão é: cada um tem suas vantagens, as pessoas são livres para escolher o formato que mais lhes convém. Pessoalmente, não me importo com a plataforma onde uma história se encontra, e inclusive já tive a ótima experiência de escrever uma obra de ficção feita especialmente para ser lida online, em navegador ou aplicativo. Há, porém, um tipo de pessoa que parece se considerar o PURISTA dos livros, que do alto de seu conhecimento literário bate no peito e afirma que "livro digital não é livro" e solta frases de efeito como "Nada é melhor que sentir aquele cheiro de livro, e no e-book não tem isso". Chegamos nesse ponto, parece que as pessoas estão lendo com o nariz.

Cada indivíduo é bem-vindo a escolher suas leituras pelos critérios que achar melhor e todos temos nossas preferências, mas recusar-se a ler um livro digital pela ausência do "cheiro de papel" ou do "som das páginas" não é nada além de uma desculpa para continuar ignorante. Aliás, por muitos anos a igreja católica fez contrapropaganda aos livros de papel, afirmando a superioridade do pergaminho, e não tenho dúvida que muitas pessoas se recusavam a ler livros de papel por razões semelhantes. Se o melhor livro da sua vida só estivesse disponível em versão digital, quer dizer que você recusaria a leitura? E digamos que daqui a dez anos esteja conversando com alguém que leu o mesmo livro, você vai comentar sobre o cheiro que sentiu ao ler o cápitulo três e o barulho que vinha lá de fora quando chegou na metade? Arrisco dizer que não. O que vai importar é o conteúdo, e ainda bem.

Há várias boas razões para preferir o livro impresso, há pessoas que têm dores de cabeça pela luminosidade da tela, por exemplo (apesar de os e-readers modernos terem resolvido isso com as telas foscas). Da mesma maneira, havia vantagens de usar rolos em vez de livros, ou pergaminho em vez de papel (é só comparar o estado de conservação de um pergaminho de 500 anos e um papel de 50). Os e-books em geral são mais baratos, mais fáceis de transportar e têm impacto ambiental menor. Os livros impressos não correm risco de esgotar bateria no meio da leitura e podem adornar uma estante, para os que valorizam esse tipo de coisa. Mas por favor, a indústria literária suplica, não venha prestar o desserviço de tentar diminuir todo um novo setor do mercado editorial sob pretextos tão, tão pobres.

Você não tem que gostar, mas ao menos saiba desgostar pelos motivos certos.


Gabriel Oro

As pessoas costumam dizer que, se vale a pena fazer, vale a pena fazer bem feito. Eu já acho que se vale a pena fazer bem feito, vale a pena exagerar também. Acompanhe aqui outros exageros literários como este, todas as semanas.
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