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Se vale a pena fazer, vale a pena exagerar.

Gabriel Oro

As pessoas costumam dizer que, se vale a pena fazer, vale a pena fazer bem feito. Eu já acho que se vale a pena fazer bem feito, vale a pena exagerar também. Acompanhe aqui outros exageros literários como este, todas as semanas

Seis botões e salto alto

A história de Ricki Ortiz, lenda viva da era dos arcades e primeira jogadora transexual a ganhar fama no concorrido cenário de games competitivos.


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Era 1996 e ao entrar no arcade, se ouvia música. O lugar tinha poucas lâmpadas próprias, mas cada uma das máquinas brilhava com uma luz diferente, tons de neon gritando na noite. As crianças que entravam lá tinham um sentimento semelhante ao que adultos devem sentir ao entrar em Las Vegas. Ao menos era o que todos pensávamos na época. Alguns jogos mais antigos tinham sons orgânicos, como o Pinball por exemplo. Algumas máquinas ocupavam espaço demais para jogos não muito sofisticados, como os games de corrida que tinham dois grandes bancos e uma voz robótica que gritava a cada curva, somando à sinfonia espontânea do local. Você ia chegando mais para o fundo do arcade e via máquinas de bichinhos de pelúcia, games mais antigos escanteados em algum espacinho mais escuro, até um ocasional Pac-Man, que já era simples demais pra essa geração.

De repente, um bolinho de pessoas em torno de uma das máquinas. As pessoas se acotovelam para ver o que está acontecendo. Dois personagens clamorosamente estereotipados se enfrentam em uma luta na tela. Um deles, o russo, parece um urso em forma humana. O outro, americano, é uma espécie de "Johnny Bravo encontra Top Gun". Os caras jogando sabem o que estão fazendo. Conhecem todos os macetes, sabem dar todos os golpes. A luta termina, imediatamente o perdedor sai e outro menino toma o seu lugar. Pega uma fichinha de uma fila junto aos botões e insere na máquina. Será que você seria bom o bastante pra jogar com esses caras? Só tem um jeito de descobrir. Você abre passagem a cotoveladas, chega até eles e coloca sua ficha no final da fila.

"Depois sou eu.", diz. Um novo desafiante.

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Essa cena provavelmente se repetiu em todos os países por onde já passou uma máquina de arcade. Pode ter sido em São Paulo, Buenos Aires, Londres ou no velho Arcade do Chinês em Porto Alegre. Acho que nenhum tipo de jogo despertava tanto o que há de melhor e pior nas pessoas quanto aqueles velhos games de luta. Acredito que para a maioria das pessoas nascidas nos anos 80/90, Street Fighter é só uma lembrança de infância. Dinheiro demais gasto em arcades e bolhas no polegar de tanto tentar dar shoryuken no controle da Nintendo. Mas algumas pessoas continuaram jogando. Quase todas, meninos, como era a norma nos arcades. Aliás, "menina" era usado como insulto. "Joga que nem menina" ou "Tá jogando no nível namorada" eram expressões comuns. Havia, porém, uma menina que jogava melhor que todo mundo. Ela só não sabia disso ainda.

Nos Estados Unidos surgiu um cara chamado Ricky Ortiz. Ele adorava jogos de luta e seu talento era enorme. O game evoluiu, saíram novas versões e ele continuou jogando. Fez disso uma carreira, vejam só, e muito bem sucedida. Realizou meu sonho de infância, e o de muita gente aliás, ao conseguir ganhar a vida honesta e confortavelmente apenas jogando Street Fighter. Por um tempo, chegou a ser o melhor jogador das Américas e pegou um vice campeonato mundial. Foi contratado por um dos maiores patrocinadores de games nos EUA.

Agora, o que vocês precisam saber sobre o mundo dos games é que, surpresa, é um ambiente extremamente heteronormativo. Pouquíssimos jogadores profissionais são mulheres e elas tem que passar por uma quantidade de provações que não são aplicadas aos homens.

Mais ou menos uns quatro anos atrás, Ricky começou a mudar bem claramente sua aparência. Mais uns dois anos e ele pediu ao patrocinador e à mídia que passassem a se referir a seu nome no gênero feminino. "A Ricki Ortiz", agora com "i". Se quem acompanha esse cenário vê o quanto é difícil para uma mulher de sexo biológico feminino conseguir seu espaço, eu não consigo nem imaginar pelo que Ricki deve ter passado nos últimos anos. Só ela sabe.

Uma parte da comunidade fez piada, claro. Uma minoria vocal, que existe em todo lugar. Muita gente apoiou, verdade. O que eu achei melhor ainda: muita gente foi indiferente. "Chamem do jeito que ela quiser", disseram, "só me importa se sabe jogar.".

E ela sabe. Ah ela sabe.

A revista Playboy fez uma reportagem com perfil e pequeno resumo da trajetória de vida de Ricki em seu site oficial. Ver essa matéria toda dedicada a ela no site de uma das revistas mais famosas do mundo (e voltada para o público masculino, ainda mais) me deixou sinceramente feliz. Acredito que Ricki seja a mulher mais bem sucedida da história dos games competitivos. Em uma entrevista pra IGN, ela (que já tem 32 anos) respondeu à pergunta "Onde você se vê daqui a dez anos?" de uma maneira bem simples: "Jogando Street Fighter".

Pode parecer estranho pra quem não acompanha a cena profissional, mas isso diz muito. Eu não me importo com como ela quer ser chamada, só me importa que ela está vivendo o meu sonho de criança a cada campeonato ganho. E ela também está vivendo o sonho de meninas que nem se importam com o game, mas ainda não descobriram quem realmente são e estão sofrendo por isso. E ela também está representando as meninas que querem entrar no jogo, mas são afastadas pela cultura preconceituosa que ainda existe. Ela representa muita gente, e não tem o menor espaço pra erros, no jogo e na vida. Obrigado Ricki, obrigado por viver o sonho, mas também por nos dar mais de você, mesmo ao preço que deve pagar todos os dias por ser quem é e receber a exposição que vem com o cargo. O preço que só você conhece.

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Gabriel Oro

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