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Se vale a pena fazer, vale a pena exagerar.

Gabriel Oro

As pessoas costumam dizer que, se vale a pena fazer, vale a pena fazer bem feito. Eu já acho que se vale a pena fazer bem feito, vale a pena exagerar também. Acompanhe aqui outros exageros literários como este, todas as semanas

Vale a leitura? A Arte de Escrever, de Arthur Schopenhauer

"Vale a Leitura?" é uma série de resenhas literárias para ajudar a otimizar o seu tempo: eu leio aqueles livros que você sempre pensou "Nossa, tenho que ler isso uma hora dessas" e dou meu modesto parecer na forma de: vale a pena?


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A primeira coisa que você deve saber sobre A Arte de Escrever é que a obra provavelmente não vai atender suas expectativas iniciais. Quando alguém pega um livro com esse título, cuja autoria é de um dos mais famosos escritores europeus, um filósofo reconhecido e com uma razoável bibliografia, você espera algum ensinamento prático sobre, bem, a arte de escrever. E até tem um pouco disso... eu acho. A verdade é que Schopenhauer provavelmente nunca teve a intenção real de escrever esse livro específico, trata-se de uma coletânea de textos soltos retirados de outra obra. Um livro de editora, podemos dizer.

Inicialmente, por mais de metade das 168 páginas (Edição da L&PM, 2005) o que o autor faz é basicamente reclamar. Sério. Eu sei que estou minimizando a proeza discursiva do livro ao dizer isso, mas quando alguém pega essa obra procurando algum tipo de guia para melhorar e crescer como escritor, fica com essa mesma sensação. Ele reclama dos seus escritores contemporâneos, das publicações, de Hegel, das pessoas que não querem ler coisas melhores, das pessoas que leem demais, dos professores, dos alunos e por aí vai. Há alguns conselhos literários nessa primeira parte, mas são pontuais e um pouco simplórios como "sempre anote suas ideias" e "não gaste tempo demais lendo as coisas dos outros, escreva as suas próprias".

Só a partir da segunda metade começamos a ver uma abordagem mais direta com relação a literatura, e alguns conselhos bem interessantes. Separei os principais deles, na minha modesta opinião, pela ordem em que aparecem no livro:

- As palavras existem para simplificar, mas o excesso delas dificulta. Evite o uso excessivo de adjetivos e a prolixidade exagerada (p. 93); - É muito mais fácil para você entender suas ideias que para o leitor, então escreva sempre de maneira muito clara e objetiva (p.111); - Deve-se escrever como um arquiteto constrói: esboçando o projeto e completando-o cuidadosamente. Ordene bem suas ideias antes de começar a escrita em si (p.115);

Estes me parecem de fato bons ensinamentos, mas foram basicamente os únicos conselhos práticos realmente úteis que eu encontrei em todo o livro. Por outro lado, há passagens que, ao serem lidas atualmente, soam ridiculamente desatualizadas e por vezes absurdas. Em determinado momento, Schopenhauer sugere que o alemão, junto do grego e do latim, são os únicos idiomas realmente puros e belos, enquanto o francês é uma língua feia com um uso foneticamente desleixado de sufixos. Ele também afirma explicitamente que todo escritor sério tem que saber latim.

No meio de tudo, há ainda algumas ideias interessantes sobre literatura como um todo, mas em geral são noções pouco práticas, como a de que ler uma tradução é o mesmo que ler um livro diferente, já que cada língua tem suas próprias características. É algo interessante de se pensar e sem dúvida um ponto legal pra discutir, mas no fim do dia você não vai aprender um novo idioma só pra ler um livro, nem deve deixar de ler uma obra traduzida só porque não conhece o idioma original. Em uma época na qual você pode comprar livros de autores do mundo inteiro com um toque na tela do celular, sentado no banheiro do trabalho fazendo um número remunerado, se restringir dessa maneira não tem sentido nenhum.

É verdade que Schopenhauer provavelmente não se referia a escrita de ficção, e sim a escrita argumentativa, mas após terminar o livro eu senti que se tivesse apenas lido os três tópicos destacados ali em cima, teria tido o mesmo crescimento técnico na escrita. Se o que você procura são conselhos de um grande escritor, eu recomendo procurar os textos de Chuck Palahniuk, ou ler o excelente "Ernest Hemingway on Writing", que provavelmente vai atender muito mais às suas expectativas e lhe ajudar a melhorar seu trabalho. Já se seu objetivo é entender a obra do autor, obras como Parerga e Paralipomena, de onde saíram os textos de A Arte de Escrever, serão bem mais instrutivas. Ao terminar a leitura, sente-se que não foi alcançado qualquer destes objetivos.

Curiosamente, uma das ideias que eu mais gostei em todo o livro foi que, como o tempo de leitura de um indivíduo é limitado, devemos gastar este tempo apenas com bons livros. Você tem razão Arthur, e sinto dizer que "A Arte de Escrever" não vale a leitura.

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Se você tem uma opinião diferente sobre A Arte de Escrever, ou gostaria de sugerir outro livro para Vale a Leitura?, deixe seu comentário aqui embaixo.


Gabriel Oro

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