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Se vale a pena fazer, vale a pena exagerar.

Gabriel Oro

As pessoas costumam dizer que, se vale a pena fazer, vale a pena fazer bem feito. Eu já acho que se vale a pena fazer bem feito, vale a pena exagerar também. Acompanhe aqui outros exageros literários como este, todas as semanas

Vale a leitura? O Sol é Para Todos, de Harper Lee

"Vale a Leitura?" é uma série de resenhas literárias para ajudar a otimizar o seu tempo: eu leio aqueles livros que você sempre pensou "Nossa, tenho que ler isso uma hora dessas" e dou meu modesto parecer na forma de: vale a pena?


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O Sol é Para Todos foi escrito pela americana Harper Lee, e a primeira coisa que merece destaque sobre o livro é que ele está ridiculamente à frente de seu tempo. À frente de seu tempo nível George Orwell ou, sei lá, o cara que inventou o pão de queijo. Esse livro conta a história de uma menina inteligente pra caramba chamada Jean Louise (que por algum motivo todo mundo chama de Scout), de seu irmão Jem e de um moleque muito chato, mas gente boa, chamado Dill.

Scout e Jem moram no interior do Alabama pós abolição, nos anos 30, que é provavelmente um dos piores lugares pra se viver se você acontece de não ter a pele bem branquinha, o que eles têm. Bem, tirando talvez o Alabama pré abolição, esse era pior. Os irmãos são órfãos de mãe e vivem com seu pai, Atticus, um advogado e um baita cara. O título original, que traduz para "Matar uma Cotovia", se refere a um ensinamento de Atticus, que lhes diz que não há pecado maior que matar uma ave cotovia, pois trata-se de um pássaro que não enche o saco de ninguém nem destrói as plantações, ela só faz música da boa pra gente ouvir.

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Ok, talvez essas não tenham sido as palavras exatas, mas deu pra entender.

Sendo uma criança de classe média no sul americano, Scout começa o livro com uma visão bem superficial sobre os negros que habitam a cidade, incluindo a empregada doméstica da família, Calpurnia. Tudo isso muda quando uns colegas do colégio começam a xingar ela e seu irmão, chamando seu pai de "nigger lover" (uma terminologia que anos depois gerou críticas ao livro, como aconteceu com Mark Twain). Ao perguntar o motivo, eles descobrem que Atticus está fazendo a defesa legal de um homem negro chamado Tom Robinson, acusado de estupro por uma família branca da cidade. A autora entra em uma narração fluida e instigante, falando sobre o racismo, seu status da sociedade americana e apresentando o mundo brilhantemente pelos olhos de uma criança, com todas as sinceridades e ingenuidades que isso acarreta. A história avança em um ritmo bem dinâmico e o livro te deixa flutuando entre medo, tristeza, alegria e indignação do início ao fim.

Para mim, a história pode ser dividida essencialmente em três partes:

A primeira delas é a casa dos Radley. Os protagonistas são vizinhos de um casarão misterioso onde mora uma família um pouco reclusa. Um dos habitantes, Arthur "Boo" Radley não saía de casa havia muitos anos e toda a criança bisbilhoteira local inventa teorias sobre ele ser louco e a casa ser amaldiçoada. Como a invenção de uma criança é a verdade absoluta de outra, o lugar é perigoso, misterioso e instiga a imaginação de Scout. Eles ficam constantemente tentando espiar a casa, e em várias ocasiões é sinalizado que Boo Radley reconhece a insistência das crianças e uma espécie de laço se desenvolve lentamente entre eles, mesmo sem jamais terem se encontrado pessoalmente. É um arco da história que evolui conforme a mente das crianças amadurece, e o leitor vai "amadurecendo" junto ao aprender mais sobre os personagens.

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A segunda parte é o julgamento de Tom Robinson. A autora faz questão de mostrar que, apesar da sociedade americana ser essencialmente corrompida pelo racismo, há pessoas que escolhem não fazer parte disso e lutar do jeito que podem por uma mudança social. Uma dessas pessoas é o pai de Scout, o advogado Atticus Finch. Não há como entrar muito na história sem cair em um poço de spoilers, mas se você gosta de ficções com um tema criminal, o julgamento será um prato cheio.

Depois desse ponto o livro toma um novo rumo e foca mais na relação entre os irmãos, o crescimento de Jem e a pressão da sociedade conservadora da época pra que Scout "aja como uma dama". Essa sociedade é analisada e criticada com uma certa serenidade, e a relevância da crítica é tamanha que muito dela se aplica ainda hoje.

O final da história é transmitido através de um dos mais bem escritos diálogos da história da literatura americana. Poucas tarefas são mais difíceis para um escritor que a de mostrar ao leitor o que está acontecendo sem jamais contar diretamente, apenas lhe dando as ferramentas para descobrir por si próprio. Harper Lee consegue isso com maestria, em um final simples mas genial, no sentido original da palavra. Rico tanto em forma como em conteúdo, O Sol é Para Todos é um dos melhores livros da literatura norte-americana, o que não é dizer pouco. Para quem está pensando em ler, garanto que não se arrependerá. A avaliação é clara: vale a leitura.

Se você tem uma opinião diferente sobre O Sol é Para Todos, ou gostaria de sugerir outro livro para Vale a Leitura?, deixe seu comentário aqui embaixo.


Gabriel Oro

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