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Se vale a pena fazer, vale a pena exagerar.

Gabriel Oro

As pessoas costumam dizer que, se vale a pena fazer, vale a pena fazer bem feito. Eu já acho que se vale a pena fazer bem feito, vale a pena exagerar também. Acompanhe aqui outros exageros literários como este, todas as semanas

Death Note: o filme - onde deu errado?

Não é fácil você ver unanimidades entre os fãs de quadrinhos, mas nada une tanto as pessoas quanto um inimigo em comum. O que deu errado com a tão antecipada adaptação da Netflix para um dos expoentes dos quadrinhos japoneses?


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*Se já não é óbvio, esse texto contém spoilers do filme Death Note (2017).

Death Note é uma das obras literárias orientais mais conhecidas no ocidente. Tanto o original de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, quanto a adaptação para a televisão dirigida por Tetsuro Araki são referências em seus respectivos gêneros. A história segue Light Yagami, um jovem japonês de inteligência prodigiosa que encontra um objeto que não pertence ao nosso mundo, um Death Note, um dos cadernos que os deuses da morte utilizam para reclamar as vidas mortais para si. Ao receber tal poder, Light passa a utilizá-lo na missão de livrar o mundo de todo o mal, criando uma nova ordem e elevando a si próprio a um estado divino. Os conflitos morais de matar pelo bem maior e a perseguição de Light por um detetive igualmente genial são os pontos centrais da trama. Death Note é um clássico acima de qualquer suspeita, uma história inovadora e elegante que angariou fãs no mundo todo.

Em 2017, a Netflix tomou para si o nada modesto desafio de transformar em um longa-metragem essa história, quase quinze anos após seu lançamento. E faz sentido. Para adaptar um dos mangás de maior sucesso na história, ninguém melhor que a Netflix, certo? Eles já adaptaram diversos quadrinhos de sucesso da Marvel, já fizeram os próprios animes e têm algumas das séries mais bem produzidas da atualidade.

Então por que o resultado final foi um tão espetacular, retumbante, grotesco, macabro e contundente fracasso? Onde tudo deu errado?

Protagonista fraco

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Tudo começa pelo protagonista. Já em sua apresentação, tentaram transmitir a genialidade do personagem mostrando ele fazendo o dever de casa dos colegas por dinheiro. O que não é nada demais, convenhamos, o dever de casa é feito para o seu nível de escolaridade, não é nenhuma grande prova de inteligência fazer o tema. E logo que ele entra em contato com o Death Note e comprova sua eficácia, a primeira coisa que ele faz é contar tudo para a menina bonita do colégio, com quem nunca havia conversado antes. Vamos parar por um momento para contemplar a escrotice desse momento: você recebe de um Deus o poder sobre-humano de controlar a vida e a morte, utiliza-o para cometer dois assassinatos e depois encontra uma garota bonita e mostra tudo para ela na esperança de conseguir sexo. Bom, ao menos deu certo, mas o personagem ainda fica parecendo um idiota.

Light Turner é sem graça, chato, bidimensional e suas ações expressam princípios morais diferentes de seu discurso. Uma das bases da boa narrativa, tanto em filmes como em livros, é tornar memorável a apresentação de um novo personagem. Com a possível exceção de Ryuk, todos os personagens do filme têm apresentações completamente esquecíveis, que falham em definir aspectos relevantes de suas personalidades.

Personagens difíceis de gostar

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Eu já mencionei ela: Mia Sutton. Mia é a colega e posteriormente namorada de Light, uma jovem bonita, inteligente, e com claras tendências sociopatas. Ela tem seus méritos em relação a Misa, sua equivalente na história original, que é uma personagem submissa e permanentemente dependente dos homens ao seu redor. Mia é mais forte, independente, se impõe, o problema é que… ela simplesmente não tem graça. Não é divertida ou inteligente o suficiente para você gostar dela por isso, sua personalidade é ainda mais bidimensional que a de Light e a personagem parece mal resolvida, por vezes agindo em benefício próprio e por vezes fazendo escolhas que vão contra o perfil que vimos anteriormente. Falta qualquer coisa que deixe ela interessante.

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Os outros são só isso, outros. “L”, um dos mais amados personagens na história dos Mangás, é no filme um fiapo do L da história original. Ele constantemente perde a razão e age com base em impulsos bobos, o que torna difícil aceitar o pressuposto de que ele é algum tipo de gênio, o mesmo problema do protagonista. Além deles temos o pai de Light, James, que é um chefe de polícia americano genérico. Todos os outros são esquecíveis, a exceção novamente fica por conta de Ryuk, o “shinigami”, um deus da morte sobre quem falaremos em seguida.

O desperdício de Willem Dafoe

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Quando foi anunciado que seria Dafoe a interpretar Ryuk, o deus da morte fanfarrão com um gosto por maçãs, a decisão pareceu inquestionável. A expressão, o sorriso, a voz, a personalidade, ele era a escolha certa. Willem Dafoe caracterizado como Ryuk teria sido por si só algo capaz de transformar em memorável um filme comum, ou em excelente um filme memorável. As atuações dele como o Duende Verde em Homem Aranha e como o vampiro Nosferatu em A Sombra do Vampiro são testemunhos à sua capacidade de trabalhar com maquiagem, CG e incorporar personagens diabólicos exagerados.

Mas, em vez disso, o que tivemos foi aquela coisa estranha.

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Não dá nem pra ver nada! Ele fica no escuro o filme inteiro! Não venham me dizer que isso foi uma opção para retratar a natureza obscura do personagem ou algo assim, foi um recurso preguiçoso. Qual é a moral de escolher alguém com a expressão facial perfeita para interpretar um monstro se você vai passar o filme inteiro sem mostrar o rosto dele? Dafoe nem aparece como Ryuk nos créditos, aparece como “VOZ do Ryuk” enquanto algum outro cara está creditado como Ryuk. O que eles estavam pensando!?

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O próprio Ryuk não é um personagem tão interessante quanto na versão original, escolheram dar-lhe um papel de “mestre das marionetes”, um manipulador em vez de um apostador. E, acredito eu, tentaram fazer com que a história do filme fosse o caminho de Light para ganhar seu respeito. O ator fez o que podia, a voz ficou ótima, mas simplesmente não era o bastante, e nós ficamos com a sensação amarga de que, se um dia vierem a tentar fazer um filme bom de Death Note, já desperdiçaram Willem Dafoe.

Regras existem por um motivo

Mesmo que uma obra de fantasia lide com forças impossíveis, essas forças são a exceção. Quer dizer, só porque você tem um elemento “mágico” na história, não quer dizer que todos os acontecimentos estão isentos de explicação, se as regras do jogo definidas pelos próprios autores não são seguidas, a imersão na história é destruída e a obra começa a flertar com a mediocridade. Eles estabelecem, mesmo no filme, que o caderno tem o poder de controlar as pessoas, mas não de fazer o impossível acontecer. Quando, no clímax da história, Light usa o Death Note para controlar o movimento de queda de uma folha de papel, fazendo-a flutuar até uma fogueira, a imersão é esculachada. A história se torna difícil de engolir pois as regras a que fomos introduzidos deixam de significar qualquer coisa, é o famoso “plot armor".

Em conclusão:

Qualquer adaptação deve ser analisada por duas óticas. A primeira, e mais importante, é o seu valor como obra, independente do material-fonte. Há diversas adaptações que mudam muito o material de origem, mas mesmo assim resultam em obras que são boas por si só: V de Vingança, A Menina que Roubava Livros, O Poderoso Chefão e A Princesa Prometida são alguns exemplos. Por esse ponto de vista, Death Note não é nada além de um filme ruim, pouco engajador e que dá a sensação de um bom conceito desperdiçado. A estética até que é interessante, o uso de iluminação neon nas cenas noturnas traz cores exageradas que dão uma vibe de quadrinho ocidental, como é feito na série Demolidor, também da Netflix. Não é um filme mal dirigido, inclusive acho que a equipe de direção está de parabéns pela estética, considerando o roteiro que tinham para trabalhar. A segunda ótica é analisar a obra em relação ao material de origem. E nesse sentido, sim, o filme é medíocre.

A expectativa com as produções da Netflix é sempre alta. Talvez o legado de Death Note seja, justamente, mudar um pouco isso. Minha expectativa baixou.

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Gabriel Oro

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