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Se vale a pena fazer, vale a pena exagerar.

Gabriel Oro

As pessoas costumam dizer que, se vale a pena fazer, vale a pena fazer bem feito. Eu já acho que se vale a pena fazer bem feito, vale a pena exagerar também. Acompanhe aqui outros exageros literários como este, todas as semanas

Sete dicas para escrever grandes histórias de terror

Não existe um gênero fácil de se escrever, mas o terror é um desafio com as próprias regras. Seguindo algumas dicas simples e diretas, você poderá começar a dominar essa temática adorada por tantos leitores, e criar histórias que vão tirar o sono de muita gente.


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Escrever histórias de terror não é mau negócio. Quer dizer, pros padrões de quem trabalha com literatura. Mesmo que você não seja um autor publicado, há muito interesse por histórias desse gênero na internet e um bom número de autores que adquiriram uma espécie de "fama cult", inclusive lançando carreiras bem sucedidas dessa forma. Algumas publicações e podcasts do gênero inclusive pagam razoavelmente bem por novas histórias, e a escrita pode gerar uma renda extra bem honesta. Nas palavras de Stephen King: se você escreve algo, alguém gosta o suficiente pra te dar dinheiro por aquilo, o dinheiro entra e paga sua conta de luz, então você é um escritor.

Eu reuni algumas dicas que vão ajudar tanto escritores experientes, como iniciantes no gênero. Os atalhos e os pilares que você deve dominar para criar uma história de terror. Aproveite.

Saiba usar a estrutura narrativa

Preste bem atenção nisso: Incidente incitante, ponto de virada, clímax. Se você não conhecia essa estrutura, agora conhece. Não esqueça jamais. É uma estrutura narrativa básica que serve para todos os gêneros e pode ser observada em todos os seus livros, filmes e contos preferidos. Primeiro algo acontece que chama a atenção do leitor: o incidente incitante. Depois, algo acontece que muda a história: o ponto de virada. Finalmente, a história chega ao momento que vinha sendo construído: o clímax. Um livro pode ter essa estrutura dezenas de vezes ou uma só, com vários pontos de virada. Mas lembre-se: história não é sinônimo de livro e o terror é um gênero que trata particularmente bem as histórias curtas. Você não tem que seguir essa estrutura sempre, pode fugir dela sempre que for melhor para contar a história, mas tenha a estrutura em mente, tenha esse recurso à sua disposição, uma das ferramentas mais úteis na sua caixa.

A história pode ser mais curta

Isso é verdade para todos os gêneros, mas torna-se imprescindível no terror, e um pré-requisito básico para quem escreve para um ambiente digital. Remova da sua história tudo aquilo que não é a história. Leia e releia seu conto e corte tudo o que for dispensável, desafie-se, estabeleça um número máximo de palavras e faça de tudo para chegar naquele número. Uma história curta lida e apreciada várias vezes será muito mais recompensadora que uma epopeia lida por ninguém. E lembre-se: a medida de uma história é pelo número de palavras, não pelo número de páginas ou caracteres.

Comece pelo fim

Há várias linhas para se desenvolver uma história, alguns autores gostam de planejar e mapear cada detalhe em um enredo antes de começar a narrativa em si. Outros preferem ter uma ideia e sair escrevendo sem saber onde vão terminar. O primeiro jeito pode ser metódico demais, mas o segundo é uma estrada para lugar nenhum quando se trata de terror. Você tem que ter um conceito, um tema. Em suma: tem que ter pensado em algo assustador. O "algo assustador" de muitos filmes é: pessoas estão morrendo e não sabemos quem é o assassino. Um clichê que não assusta muito hoje em dia. Em O Iluminado, o "algo assustador" é a ideia de que a pessoa que deveria lhe proteger é aquela que quer te machucar, uma noção verdadeiramente aterradora. A Hora do Pesadelo explora a ideia de que você corre o risco de uma morte horrível se cair no sono, o medo constante de não poder dormir, outra grande ideia, essa de Wes Craven. Sua história só vai ser tão boa quanto o conceito que agregou a ela. Agora, se você tem um bom "algo assustador" e for um escritor competente, o resto vai se encaixar sozinho.

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A força da primeira pessoa

A maneira como a narrativa vai ser contada é uma escolha muito pessoal, que varia de caso a caso, e não existe um jeito certo ou errado. Ao começar a sua história, porém, contemple a possibilidade de usar a primeira pessoa. Quando você conta a história como se fosse uma narrativa real contada pelo seu protagonista, você o aproxima do leitor de uma forma muito forte, a história adquire tons de realidade e o seu clímax pode ser ainda mais forte. Outro recurso muito usado em curtas.

O vale da estranheza

Esse termo designa uma teoria da estética que iniciou com o estudo da robótica. Basicamente, quando pessoas veem um boneco ou um robô, tendem a ter maior simpatia por ele quanto mais humanas são suas feições. Mas só até um certo ponto. Há o momento em que algo fica humano demais, mas... não o suficiente. Quando algo é quase humano, mas não é, ele se torna estranho, perturbador, amedrontador. Nesse momento há uma queda na curva da simpatia, um "vale". Até que o objeto fica humano o bastante para ser quase indistinguível de uma pessoa real, e aí volta a ser simpático, a linha sobe e o vale está formado. Existe essa zona cinza, o vale da estranheza. Ao descrever um personagem que deve projetar medo no leitor, esse recurso pode ser muito útil. "Ela tinha o rosto inocente e a pele lisa, como a de uma criança, mas os olhos eram opacos como pedras em um rio"; "quando ele mostrou seu rosto pude ver que sorria, mas um sorriso desesperador, como se suas bochechas fossem curtas demais e o rosto fosse incapaz de descansar, preso para sempre, distorcido naquele formato". Michael Myers, com sua máscara, e o monstro de Frankenstein conforme descrito no livro são bons exemplos de aparência que cai no vale da estranheza.

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Os três tipos de terror

Em seu livro A Dança Macabra, Stephen King fala sobre os três tipos de terror. O primeiro deles é o gore, a visão de sangue, vísceras, cenas de tortura, imagens perturbadoras. Filmes como "O Albergue" exemplificam essa categoria. O gore é quando as luzes se apagam e algo viscoso se esfrega no seu braço.

O segundo tipo é o horror. É o sobrenatural, criaturas que não deveriam existir, monstros, zumbis, fantasmas. A série literária Goosebumps, de R. L. Stine é cheia de exemplos. O horror é quando as luzes se apagam, e uma mão com garras pega seu braço.

O terceiro e último tipo é o terror. King considera esse o mais assustador de todos. É o ilógico, o que vai além da compreensão, o que se entranha em sua cabeça e faz o chão sumir debaixo de seus pés. "As Bruxas de Blair" é um exemplo, alguns dos capítulos de "O Iluminado" também. Terror é quando as luzes se apagam, você sente um hálito na nuca, ouve uma respiração, mas quando se vira não há nada ali.

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Emoção antes de tudo

Para finalizar, uma lição simples mas que garante um impacto profundo em qualquer escritor de terror, mas especialmente nos contos. Em qualquer história, existe uma hierarquia de coisas importantes que você deve desenvolver. Quando alguém começa a escrever, é comum cair no erro de se dedicar quase que inteiramente ao enredo, quando ele na verdade não está tão alto na hierarquia, lição que aprendi assistindo uma palestra do escritor espanhol Carlos Zafón. Quando você pensa em um livro que gosta, o enredo é a primeira coisa que se lembra? Dificilmente. As pessoas lembram primeiro de um personagem, do momento de clímax, até de uma frase que falou particularmente com elas. Há vários itens mais alto que o enredo na lista de prioridades. Mas no terror, um elemento surge acima de todos os outros: a emoção.

Desenvolvimento de personagens, enredo, momentos, tudo é secundário em uma história de terror. O medo é o principal. Começar com uma história e sair escrevendo não é o caminho mais certeiro nesse gênero, como dito anteriormente. Quando você começa uma história deve ter em mente qual a emoção que quer despertar nas pessoas e como vai fazer isso. Lembre-se, você começa pensando em algo assustador. Muito assustador. Uma criatura demoníaca que entra em sua mente e o único jeito de se livrar dela é passando-a a outra pessoa. Um assassino que viaja em seus sonhos. Ser atacado por quem deveria estar te protegendo. A angústia de não ter evitado algo terrível que aconteceu a alguém. Uma criatura feita de partes de pessoas mortas, que ganha vida e descobre um mundo cheio de monstros. Histórias que podem ser resumidas em pouquíssimas palavras. Comece com um algo assustador, e construa sua história para chegar até ele, e não o contrário.

Integrando esses conceitos em seu trabalho, tenho certeza que vai tirar o sono de muita gente.

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Gabriel Oro escreve histórias para diversos canais e tem um apreço particular pelo terror. Também contribui com uma coluna sobre literatura na ObviousMag.


Gabriel Oro

As pessoas costumam dizer que, se vale a pena fazer, vale a pena fazer bem feito. Eu já acho que se vale a pena fazer bem feito, vale a pena exagerar também. Acompanhe aqui outros exageros literários como este, todas as semanas.
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