educação fora da caixa

Explorações sobre aprendizagem livre e doutorado informal

Alex Bretas

Doutorando informal, aspirante a cantor e admirador das boas metáforas

Como nasce um jardim?

Ensinamentos mágicos de Rubem Alves para dar vida aos nossos projetos partindo do desejo.


Rubem Alves era completamente apaixonado por jardim. Várias de suas ideias para a educação vinham vestidas nessa metáfora — embora para ele também fosse um deleite os jardins literais. Para criar um jardim, não se trata de gerá-lo do zero: o caminho é sonhá-lo a partir de uma dada paisagem e trabalhar para “desobstruir a passagem”, permitindo que ele apareça.

Pense no jardim como um sonho muito importante para alguém. Ou algo que você deseja desesperadamente aprender ou se aprofundar. Percebe como alterar a perspectiva de gerar do zero para desobstruir o caminho pode transformar nosso olhar?

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Nós, espécie humana, temos um jeito muito especial de nascer. Primeiro vem o desejo, aquela vontade visceral de se envolver, de (inter)agir. Em segundo está o prazer, o gozo, satisfazer-se com a concretização do desejo. Rubem Alves evoca William Blake para dizer: “prazer engravida!”. E é verdade: podemos ficar grávidos a partir dos nossos inalienáveis envolvimentos. Em seguida à gestação está o parto, a etapa final do nascimento. É quando a natureza encarrega-se de apresentar ao mundo o belo jardim que se foi revelando desde o primeiro instante do querer.

Nascer, aqui, é uma alusão aos processos de aprendizagem, aos processos de criação. É partir de uma outra metáfora para ampliar nossa consciência a respeito de como damos vida às nossas ideias, projetos e percursos, ou como poderíamos dar.

Lemniscata Nascimento - post.png

A figura da lemniscata, ou a representação do infinito, pode também comportar a metáfora do nascimento dos nossos projetos, desde que se inicie pelo desejo. A polaridade à esquerda refere-se ao sonho, e o lado direito remete à realização, ao trabalho. Imagine todas as transformações do corpo de uma mulher para sustentar o desenvolvimento de um novo ser durante a gestação. Lembre-se da expressão “trabalho de parto”.

O Eu ocupa o ponto central, pelo fato de ser por meio da nossa consciência e de nossas escolhas que se faz possível fluir de uma polaridade a outra. Para se revelar um belo jardim, é preciso que haja um jardineiro dedicado, que trabalhe para esculpir a paisagem a fim de que nasça outra, nova. A boa notícia é que, partindo de um desejo genuíno, tornamo-nos ótimos jardineiros quase sem perceber.

Quantas vezes no ensino, no trabalho, nas nossas relações, sentimo-nos restringidos a perceber como única opção ignorar as nossas vontades? Pode estar na hora de prestar atenção ao nossos sonhos de jardim. Quem sabe com mais projetos nascidos do desejo autêntico de cada um tenhamos paisagens coletivas mais desejadas por todos nós?


Alex Bretas

Doutorando informal, aspirante a cantor e admirador das boas metáforas.
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