educação fora da caixa

Explorações sobre aprendizagem livre e doutorado informal

Alex Bretas

Doutorando informal, aspirante a cantor e admirador das boas metáforas

1 dia na vida: pesquisando com o olhar de uma criança

Às vezes é preciso compreender a fundo primeiro, sem comparar nem julgar. Já se imaginou passando 1 dia vivendo uma outra vida que não a sua?


1 dia na vida 1.jpg Por Daniela Arcon. Fonte: Portal Aprendiz.

Quando precisamos compreender profundamente determinada questão, público ou trabalho, muitas vezes os métodos de pesquisa mais tradicionais falham. A técnica 1 dia na vida — também conhecida por shadowing ou imersão em contexto — é uma forma de se lançar numa mini-jornada de aprendizagem por meio da observação e da vivência do contexto que buscamos conhecer.

Como o próprio nome sugere, a ideia é viver um dia inteiro na companhia de uma ou mais pessoas que são alvo da investigação. Isso significa fazer o que elas fazem, comer o que elas comem, dormir onde elas dormem, conversar com quem elas conversam e assim por diante. Quanto mais você conseguir vivenciar a rotina habitual das pessoas, melhor.

Por quê?

Ter a coragem de se colocar numa vivência do tipo 1 dia na vida pode gerar diversos reflexos positivos. Do ponto de vista do pesquisador, aspectos mais sutis de comportamento, crenças e visões de mundo do público investigado vão se revelando a partir do contato mais humano e duradouro. No que se refere às pessoas acompanhadas, elas tendem a se sentir reconhecidas por perceberem o interesse genuíno que o pesquisador demonstra por elas. Isso gera confiança, o pressuposto fundamental para que consigamos perceber suas reais formas de viver. Muitas outras técnicas de pesquisa apresentam dificuldade em superar a barreira da confiança.

A postura de observação, usual quando se faz 1 dia na vida, é importante porque nos ajuda a adiar nossos julgamentos e fortalece a nossa presença. Ao longo do dia, começamos a compreender o que está por trás das atitudes das pessoas, porque elas agem daquelas formas. E esse entendimento vai ganhando corpo até que passamos a detectar inclusive incoerências entre discurso e prática — algo comum a todos nós. No limite, acessamos um grau de empatia que é capaz de operar potentes reflexões em nossa visão sobre o outro e sobre nós mesmos. Identificamos as semelhanças que nos unem, para além das diferenças.

Como?

É possível aplicar a técnica de 1 dia na vida em várias situações diferentes: pesquisas de mercado, investigações com finalidade social, intercâmbios culturais, resolução de conflitos, novos desafios profissionais, imersão no dia-a-dia de empresas etc.

Quatro princípios podem nortear o desenho e a vivência desse método:

Definir a intenção: estabeleça o propósito da jornada por meio de questões como “O que eu quero aprender com isso?”; “Quais as três principais perguntas que acredito que poderão ser muito bem respondidas a partir dessa vivência?”. Escrever a intenção no formato de um tweet (até 140 caracteres) também pode ser útil.

Suspender julgamentos: uma vez iniciado o dia, tente não fazer comparações do que você observa com o que você já conhece. Não se trata de concordar ou discordar, e sim de entender profundamente. Os julgamentos provavelmente aparecerão na sua mente: aceite que eles venham, mas se esquive deles para se focar no que está à sua frente.

Acessar a ignorância: imagine-se com o olhar e a curiosidade de uma criança ao se deparar com uma situação completamente nova. Faça perguntas exploratórias e amplas às pessoas, evitando embutir pressupostos e hipóteses prévias.

Ser empático: entenda que o outro vê a partir da realidade dele, necessariamente diferente da sua. A empatia ocorre quando você consegue acessar o mundo da pessoa e compreender as motivações dela para fazer o que faz. Deixa ela saber que você se interessa e que reconhece as escolhas e atitudes dela como legítimas.

Para desenhar uma intervenção de 1 dia na vida, separe algumas horas dias antes da jornada para definir a intenção e planejar a logística. É possível utilizar o método tanto individualmente quanto num pequeno grupo de pesquisadores. No dia subsequente à vivência, tenha ao menos um período (preferencialmente a manhã) para refletir e conversar sobre o ocorrido. Nesse momento, é muito útil recontar as histórias mais marcantes e escrever os pensamentos, sentimentos e atitudes manifestados tanto pelo público quanto pelos pesquisadores. Somente ao final reserve um tempo para falar sobre os aprendizados e insights.

Passar 1 dia na vida de uma pessoa ou de um grupo pode revelar percepções muito diferentes das que costumamos cultivar. Topa o desafio?

Para saber mais:

Shadowing - Presencing Institute

Toolkit IDEO - ver "Imersão em contexto" a partir da página 32

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Esta é uma das ferramentas do Kit Educação Fora da Caixa, uma caixa de ferramentas para quem quer sair da caixa da educação. Quer saber mais sobre o projeto e acessar todas as outras ferramentas? Clica aqui.


Alex Bretas

Doutorando informal, aspirante a cantor e admirador das boas metáforas.
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