Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

Bela, recatada e do lar X Derrotada e próxima do adeus: as representações de Dilma e Marcela na edição 2474 da Revista Veja

Os interdiscursos na retórica midiática como instrumento de manutenção dos papéis sociais de gênero na política: as representações femininas na edição 2474 da Revista Veja


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Texto escrito em parceria com a jornalista Deisy Mayer.

Inicialmente, ressaltamos que o presente texto não se trata de uma crítica aos papeis sociais que as personalidades envolvidas ocupam. Trata-se de uma visão amparada a partir de estudos da Análise do Discurso de vertente francesa e da Retórica sobre os signos imagéticos e enunciados da edição 2474 da Revista Veja, relacionando-os às formações discursivas e aos interdiscursos que regem as relações responsáveis pelos efeitos de sentidos produzidos no material. Na análise, os interdiscursos são entendidos como instrumento retórico do veículo Veja como imposição e manutenção de papéis sociais ligados ao gênero feminino por meio do que é socialmente aceito pelo público-alvo do veículo (Pathos).

Apesar de diversas correntes teóricas do Jornalismo defenderem a produção jornalística objetiva, com função referencial e livre da opinião dos profissionais da comunicação; para o desenvolvimento desta análise, parte-se do princípio de que não existe neutralidade e que essa “não neutralidade” fica ainda mais evidente por meio do estudo dos gêneros do jornalismo de Revista. O discurso, de acordo com Koch (2002, p. 136), é repleto de “intenções, sentimentos e atitudes do locutor com relação ao seu discurso”. Segundo a autora, “a linguagem passa a ser encarada como forma de ação, ação sobre o mundo dotada de intencionalidade, caracterizando-se, por tanto, pela argumentatividade” (KOCH, 2003, p. 17). O mesmo pode ser afirmado na perspectiva da análise do discurso. De acordo com Gadet, Haroche, Henry e Pêcheux (2014, p.56):

A linguagem é irredutível a uma ordem homogênea, já que é capaz de modalização, de predicação sobre o predicado e de desnivelação enunciativa (sobreposição do tipo “ele me disse para te dizer”...), de jogo sobre substitutos e de deslocamentos de referências (ambiguidades sobre palavras, equívocos dos enunciados), deformando sem cessar suas próprias construções (GADET; HAROCHE; HENRY; PÊCHEUX, 2014, p. 56).

Mesmo entre os gêneros textuais considerados com função referencial (como os jornalísticos), essa relação acontece. Segundo Dittrich (2003, p. 21) por meio dos textos jornalísticos, os leitores “conhecem os fatos, fazem julgamentos e até mesmo decidem prioridades em projetos pessoais ou financeiros”, e essa relação torna-se ainda maior em textos de revista (como o objeto de análise deste artigo), isto, porque, considerando a periodicidade das revistas, os conteúdos apresentados não tem por objetivo o compromisso com a factualidade (amplamente explorada nos demais veículos midiáticos como os portais da web e o jornal impresso), tornando-se assim, uma visão aprofundada de determinadas temáticas e, consequentemente, mais subjetiva.

Por meio da corrente teórica da análise do discurso de vertente francesa, desenvolvida por Pêcheux (1988), passa-se a compreender que a argumentaividade, nos mais diferentes gêneros do discurso, é influenciada pelos interdiscursos inseridos em determinado contexto social. De acordo com Orlandi (2013) os interlocutores envolvidos no processo de comunicação passam a ser considerados sujeitos históricolinguísticos frutos do esquecimento e da ideologia.

Nesse aspecto, a presente análise consistirá em, a partir da análise do discurso de vertente francesa (AD) e da Retórica, identificar os interdiscursos responsáveis pela formação de papéis sociais do gênero feminino, especificamente, no atual contexto político-social em que o país insere-se, considerando-se como corpus de análise, os paradigmas abordados a partir dos papéis e das convenções sociais nos enunciados que compõem o perfil Marcela Temer: bela, recatada e “do lar” e a representação da Presidente da República Dilma Rousseff na Revista Veja, edição 2474 Extra. A análise incide sobre os enunciadosdos objetos simbólicosrelacionando-os às formações discursivas e aos interdiscursos que regem as relações responsáveis pelos efeitos de sentidos produzidos a partir da leitura.

Na análise, utilizou-se o termo papel social que deve ser entendido como “o padrão segundo o qual o indivíduo deve agir na situação” (BERGER, 1986, p. 109), ou seja, para a perspectiva assumida em um determinado momento, “a identidade é atribuída socialmente, sustentada socialmente e transformada socialmente” (BERGER, 1986, p. 112), sendo as relações ideológicas que se estabelecem na sociedade, responsáveis pelos dogmas a serem obedecidos. Esse processo, para a AD, atravessa o sujeito linguístico-histórico interdiscursivamente, a partir do que Maingueneau (1997, p.32), denomina como lugares “cuja especificidade repousa sobre esse traço essencial segundo o qual cada um alcança sua identidade a partir e no interior de um sistema de lugares que o ultrapassa”.

Representações de Dilma e Marcela na edição 2474 da Revista Veja

Os objetos de análise foram publicados na Edição 2474 intitulada “Extra”, edição especial do veículo publicada em 18/04/2016 contendo conteúdos referentes à aprovação do processo de Impeachment definida em votação na Câmara dos Deputados no domingo (17/04/2016). Para análise, considerar-se-ão os interdiscursos em relação à formação do papel social feminino a partir dos signos linguísticos e imagéticos (conforme a imagem abaixo) como instrumentos retóricos utilizados pelo veículo como tentativa de manutenção e de imposição das características consideradas “naturais” ao gênero feminino (Pathos).

As imagens apresentadas na abertura deste texto fazem parte da mesma edição da revista. Analisando os signos que compõem ambas, torna-se inevitável a comparação e a relação das mesmas ao papel socialmente imposto à figura feminina no que tange a política. Considerando os elementos semióticos, a então presidente da República, Dilma Rousseff tem sua face parcialmente apresentada com expressão de cansaço e de desapontamento. A imagem é acompanhada do enunciado “Dilma: derrotada e próxima do adeus”, figura de linguagem com relação direta ao afastamento da presidente devido ao impeachment.

Diferentemente da apresentação de Dilma nas páginas iniciais da revista, o perfil de Marcela Temer é publicado como um apêndice do texto sobre seu respectivo marido “A hora e a vez do vice”. A partir dos signos imagéticos, Marcela Temer é apresentada com expressão serena em um ambiente elevado e iluminado estabelecendo-se assim, relação direta à sua ascensão e a posição social que irá ocupar. O vestuário escolhido, sem decote e cobrindo os ombros remete diretamente ao título “Bela, recatada e do lar”. A forma como ambas são estereotipadas, Marcela e Dilma, também possibilita aos leitores da revista, que infiram sobre a ascensão e a decadência de papéis sociais paradoxais relativos ao gênero feminino, apresentando o de Marcela como o mais adequado às mulheres.

Com o subtítulo “A quase primeira-dama, 43 anos mais jovem que o marido, aparece pouco, gosta de vestidos na altura dos joelhos e sonha em ter mais um filho com o vice”, o texto valoriza estereótipos ligados à submissão feminina em relação aos homens como em “a Mar do Mi”. O texto a apresenta como padrão comportamental e de beleza feminina “ideal” como em “Marcela sempre chamou atenção pela beleza, mas sempre foi recatada”, corroborando a hipótese de desempenhar seu papel social “corretamente” em “Michel Temer é um homem de sorte”. Aqui, entra-se a noção da análise do discurso a respeito dos interdiscursos, onde esses “padrões” são socialmente impostos à sociedade por meio da memória social e da noção de “esquecimento”, onde os sujeitos, de acordo com Orlandi (2013), são considerados históricos e linguísticos frutos do esquecimento e da ideologia; e a imposição dos papéis sociais influem diretamente na formação da subjetividade.

Assim, de acordo com Mosca (2001), é nesse quadro de domínio das questões simbólicas, que se dá o choque de lógicas diferentes: a do interesse e a dos valores, que no caso do veículo de comunicação, são os mesmos. Nesse sentido, por meio da análise, fica evidente a função persuasiva da revista de manutenção de determinados estereótipos e de fortalecimento de papéis socialmente impostos por meio dos “elementos emotivos que constituem e fundamentam a estrutura dos sujeitos, ultrapassando o seu papel puramente informativo para cumprir uma finalidade de incitamento e de sedução” (MOSCA, 2001, p. 40).

Obs.: O presente texto foi adaptado ao Blog a partir de artigo científico publicado na revista científica de Estudos da Comunicação Temática. A análise completa com aprofundamento teórico e referências pode ser lida por meio do link


Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná..
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