Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

Como estrelas na terra

No filme "Como estrelas na Terra", o jovem professor vê em Ishaan uma criança triste e reprimida, porém, inteligente e muito talentosa, e se determina em salvar o garoto. Faz aquilo que ninguém fez antes pelo menino: tenta entender o seu problema analisando cadernos, conversando com um amigo do menino, e ao detectar indícios de dislexia, procura os familiares dele.


comoestrelasnaterraweb1.jpg

Em ritmo constante, aliado à sirene do fundo musical, o quadro negro, em uma sala de aula comum, é preenchido aleatoriamente por letras e números sem uma ordem cronológica. Frente ao quadro, professoras tradicionais anunciam as notas de cada aluno. A maioria das crianças recebe o sorriso de aprovação ao bom desempenho, menos Ishaan, o protagonista do filme indiano “Como estrelas na Terra” que é disléxico e recebe de volta uma expressão de desesperança e decepção.

O menino é parte de uma tradicional família de classe média, e por ser irmão do garoto mais inteligente da escola, é cobrado constantemente por seus pais para que melhore seu desempenho. Ishaan não pode ser culpado por sua dificuldade. Ele não consegue associar signos, fonemas e grafemas e em vez de receber o auxílio e a atenção que precisa, recebe de seus pais o descaso e a desaprovação, tornando-o alvo de broncas, humilhações, enquanto os professores veem as dificuldades do menino com preconceito, qualificando-o como engraçadinho, sem-vergonha e preguiçoso.

A dislexia é um problema que afeta milhares de crianças como Ishaan em todo o mundo. Como se não bastasse suas dificuldades, seus erros são constantemente destacados por seus pais, que demonstram irritação referente à “falta de capricho” do filho: “Pare de brincar e conserte seus erros!”. O menino de 8 anos ouve o tempo todo: preguiçoso, incompetente, burro (etc.).

Ao perceberem que Ishaan corre o risco de repetir novamente o 3º ano, e por não aceitarem que o filho poderia ter algum problema de aprendizagem, os pais da criança resolvem colocá-la num internato. O menino muda: seu sorriso, sua alegria, sua vivacidade e até o gosto pela pintura são substituídos pela tristeza do abandono, e pela sensação de fracasso.

Ao contrário do que esperam seus pais, o pequeno, além de continuar não aprendendo, passa a reprimir os talentos que já tinha, entregando-se a depressão. Seus olhos gritam por socorro perante a exigência da nova escola: “Já domamos cavalos selvagens, vamos domar este também”. A partir daqui, Ishaan passa a aceita todas as rotulações em que é submetido sem nenhuma reação. Deixa de pintar, de falar, de brincar e até de observar os peixinhos no aquário. Enfim, Ishaan tem sua infância tolhida, não pela dislexia, mas sim pela falta de preparação de seus professores e a desinformação de seus pais, sendo proibido de ser ele mesmo.

A vida do garoto começa a mudar quando o chato professor de artes, que obriga os alunos desenhar linhas retas sem réguas, da lugar a Ram. O novo professor de educação artística vem de uma escola especial em que desenvolve um trabalho de superação com crianças deficientes. Sua trajetória e seu bom humor são fundamentais na construção da empatia entre ele e Ishaan (a empatia professor\aluno é fundamental no processo de aprendizagem da criança disléxica).

O jovem professor vê em Ishaan uma criança triste e reprimida, porém, inteligente e muito talentosa, e se determina em salvar o garoto. Faz aquilo que ninguém fez antes pelo menino: tenta entender o seu problema analisando cadernos, conversando com um amigo do menino, e ao detectar indícios de dislexia, procura os familiares dele.

Na casa dos pais do menino, o professor afirmar que Ishaan não é um menino rebelde ou preguiçoso, já que seu mau desempenho escolar justifica-se não na falta de empenho, mas sim na dislexia. A família do menino recusa-se em aceitar o problema da criança. Apesar de o professor explicar que cada criança tem o seu tempo de aprendizagem, e que o menino, com o carinho da família também superaria suas limitações, o pai apenas chora. E envergonha-se por ter um filho “incapaz”, imaginando a possibilidade de sustentá-lo a vida toda.

Ram deixa a residência do menino decepcionado, mas agora, mais do que nunca, entende que ele é o único que pode ajudar o menino a vencer seus fantasmas. Marca então uma reunião com o diretor da escola e informa o problema do garoto. O diretor afirma, então, que Ishaan deve ser transferido para uma escola especial. Ishaan fica na escola graças a insistência Ram, que compromete-se ao diretor em ajudar o menino, oferecendo-se para acompanhar o garoto individualmente, duas ou três vezes por semana.

Ram aos poucos devolve a Ishaan seu sorriso merecido. O professor faz a criança entender seu problema: diz ao menino que assim como Leonardo da Vinci e Albert Einstein (ambos disléxicos), ele também pode vencer suas dificuldades e não necessariamente precisa ser um fracassado. As crianças disléxicas, na maioria das vezes, devido ao preconceito e a humilhação em que são submetidas, perdem a confiança em si. Ram entra na vida de Ishaan, sendo mais do que um mediador de conhecimento. Este mostra-se também um amigo, e o apoio que o menino não encontrou nem em sua família.

A partir da afetividade entre os protagonistas, é perceptível o quanto a confiança e a empatia são fundamentais no processo de aprendizagem. O menino entusiasmado fica mais confiante e, por saber que não sofrerá mais humilhações, já não teme mais errar. Consequentemente, passa a tentar várias vezes, até conseguir. Ishaan teve um final feliz, mas, caso não tivesse encontrado Ram ou outro profissional com este perfil, poderia tornar-se um menino ainda mais depressivo. Talvez sua confiança nunca fosse resgatada, e mesmo que por insistência e medo, aprendesse a ler, nunca seria um leitor crítico.

desenho-prof2.jpg

Entendendo a Dislexia

A primeira forma de aprendizagem do aluno na escola é o letramento, este será a base de todos os outros conhecimentos a serem adquiridos posteriormente, por isso, problemas no processo de alfabetização poderão contribuir negativamente para a criança na aprendizagem de novos conhecimentos.

Isto ocorreu com Misaki (pseudônimo). A garota, hoje aos 19 anos é universitária, e mostra como é possível ser disléxica e levar uma vida normal. Apesar de estar na faculdade, nem sempre foi fácil: sua dislexia foi diagnosticada apenas aos 14 anos, e quando era criança, sofreu com o preconceito e o despreparo da família e da escola:

Eu descobri a dislexia quando tinha 14 anos. Desde pequena eu sempre fui uma criança tímida e tive dificuldades para aprender a ler. Meus pais foram muito ausentes na minha infância, então eles não perceberam isso. A pré-escola foi o pior ano da minha vida, eu não sabia “desenhar o número 2”, nem o “A”, eu ia para casa e ao invés de minha mãe pegar o caderno e ver o que eu fiz de errado, ela fazia as minhas atividades. Meus professores percebiam que não era a mesma letra, me mandavam desenhar no quadro, eu não conseguia, e meus colegas faziam brincadeiras a respeito disso, o que me deixava muito magoada.

Na primeira série, todos os meus colegas aprenderam a ler. A premiação para quem conseguia aprender, era ganhar um livro, e eu nunca ganhei aquele livro. Era frustrante. Eu aos 9 anos era a única criança da minha sala que ainda não sabia ler. Consequentemente, não conseguia fazer meus trabalhos, e meus pais, ao invés de procurar ajuda especializada para o meu problema, faziam as minhas atividades.

Quando aprendi a ler já estava no final da 3ª série. Antes disso, nas aulas de leitura eu apresentava os textos decorados: minha mãe me fazia decorar os textos das aulas de leitura em casa para eu não passar vergonha, e com isso meus professores não viam o meu problema. Eu comecei a gostar de ler na 4ª série, me interessei por mangas e animes [por isso a escolha desse pseudônimo]. Eu deixei de aprender muita coisa no ensino fundamental e médio devido ao conteúdo que perdi no ensino básico.

O fato de eu não gostar de comentar o meu problema com ninguém, é porque eu sofri muito preconceito. Quando estava no 1º ano do ensino médio eu fui diagnosticada como disléxica, algumas pessoas souberam do meu problema, e elas achavam que tinham que sentir pena de mim. Elas achavam que eu não tinha capacidade de chegar onde elas chegariam. Isso me magoa muito, a visão preconceituosa das pessoas. Albert Einstein tinha isso, e nem por isso ele deixou de chegar onde queria! Todos são capazes!

Como o homem, a linguagem também evoluiu e ficou mais complexa. As crianças aprendem a falar por ter a necessidade de compreender o mundo que as rodeia. Assim, além de um vocabulário mais complexo, com o tempo, por necessidade, a criança passa a associar fonemas e grafemas, desenvolvendo também a escrita.

Infelizmente, aprender a ler não é um processo totalmente natural. As crianças possuem necessidades diferentes, e nem todas se adéquam ao processo “universal” de alfabetização, sendo papel do profissional da educação, desenvolver métodos criativos e, se necessário, singulares às particularidades de cada aluno.

Diferentemente da linguagem oral, a leitura não acontece naturalmente a partir da interação com os familiares: deve ser ensinada, e para aprender a ler, a criança precisa aprender a associar vários signos, como, por exemplo, ter o conhecimento de que a linguagem é formada por palavras, as palavras por sílabas, as sílabas por fonemas e que as letras do alfabeto os representam. Apenas realizando isto automaticamente, o individuo poderá realizar uma leitura fluente e compreensiva.

O maior obstáculo do professor em alfabetizar as crianças com dislexia, é que, mesmo não apresentando deficiência na fala, elas possuem dificuldade para associar os fonemas e grafemas automaticamente por não terem um conhecimento das unidades linguísticas. A dislexia atinge uma em cada cinco crianças, assim em todo bairro e em toda sala de aula, há crianças lutando para conseguir ler.

De acordo com a Dra. Sally Shaywitz, em seu livro “Entendendo a Dislexia”, a dislexia é caracterizada por um rendimento de leitura inferior ao esperado para a idade cronológica, a inteligência medida e a escolaridade do indivíduo. É importante destacar que essa condição deve ser diferenciada das dificuldades escolares decorrentes de déficits sensoriais, cognitivos, emocionais e de fatores educacionais, sócio-culturais e econômicos adversos.

Para a psicóloga Ana Maria Muxfeldt, a dislexia não é empecilho para incluir um aluno em sala de aula comum, apesar de suas dificuldades, os disléxicos não são incapazes. Pais, professores e colegas, devem entender que o aluno disléxico apenas não consegue interpretar signos, o que não significa que ele não possa desenvolver outras habilidades. A educação inclusiva é necessária e baseada no princípio da necessidade de uma educação para todos. Por isso o professor deve adequar diversas formas de aprendizagem às necessidades de cada aluno e não o contrário.

A Drs. Shaywitz descreve a dislexia como um problema também social, pois apesar de ser um problema biológico e hereditário, os disléxicos são discriminados, e apontados por muitos como “preguiçosos” ou “pessoas que colhem os benefícios de um tratamento especial associado a um mau diagnóstico”. De acordo com a Associação Brasileira de Dislexia, o transtorno acomete de 0,5% a 17% da população mundial, pode manifestar-se em pessoas com inteligência normal ou mesmo superior e persistir na vida adulta.

Dislexia.jpg

A criança é disléxica?

Mediante as dificuldades da criança no desenvolvimento da leitura e escrita, deve-se procurar profissionais especializados na área, para que sejam realizadas avaliações pertinentes e singulares a cada uma. Segundo a psicóloga Ana Maria Muxfeldt, antes do diagnóstico definitivo de dislexia, é importante destacar que diversos outros fatores também podem causar as dificuldades de aprendizado na leitura, como déficit intelectual, problemas na metodologia de ensino, problemas emocionais, "bloqueios psicológicos" ou conflitos familiares graves.

De acordo com a psicóloga Ana Maria Muxfeldt, as crianças são alfabetizadas cada vez mais cedo, e por isso, muitas podem apresentar dificuldades de aprendizagem, mas a dislexia só pode ser detectada a partir do momento em que o individuo atinge um certo nível de maturidade cognitiva (6 anos).

A inclusão de crianças disléxicas no atual sistema educacional estabelece várias barreiras a serem transpostas, como a preparação de profissionais especializados na área para prestar apoio aos professores; investimento na preparação da equipe escolar; e a conscientização dos demais alunos das dificuldades de seus colegas, sendo, também importante, a conscientização da instituição escolar, da importância de adaptações necessárias aos alunos com dislexia.

dislexico.jpg

O que é papel do professor?

É na escola que a dislexia aparece. Algumas crianças disléxicas podem revelar suas dificuldades em outros ambientes, mas nenhum deles se compara à escola. É através afetividade entre professor e alunos que este consegue tornar a aprendizagem menos cansativa e mais prazerosa. Assim, a relação é satisfatória a ambas as partes, já que impulsiona o aperfeiçoamento dos conhecimentos pedagógicos do primeiro, e as crianças, ao se sentirem queridas por seus educadores, tornam o problema mais fácil, já que não apresentarão barreiras no “querer aprender”.

Para Misaki, o professor deve estar ciente da existência de um aluno disléxico na sala de aula, para ser mais maleável. “O disléxico não deve ser tratado como uma pessoa especial, ele deve receber o mesmo tratamento dos demais alunos. O que devem ser relevadas são as dificuldades: Por exemplo, um aluno que não consegue se concentrar com barulho deve ter a chance de fazer o seu trabalho fora da sala”, afirma.

De acordo com a psicóloga Ana Maria Muxfeldt, repetir explicações é extremamente importante para os disléxicos, e para isso, o vínculo afetivo entre ambos é essencial, para que o professor possa continuar paciente, e os alunos não percam a motivação. Não existe a maneira “correta”de aprendizagem, por isso é papel do educador descobrir a maneira que mais interesse a criança.

Muxfeldt destaca ainda que o professor, em hipótese alguma, deve desistir de seus alunos com dislexia. O profissional deve tentar aplicar diversas metodologias até encontrar aquela que desenvolva as potencialidades da criança.

Considerando um grupo de alunos em processo de letramento, muitas dificuldades irão surgir. Assim, havendo a suspeita de dislexia, o educador deve sugerir aos responsáveis da criança e a escola o encaminhamento desta a um diagnóstico clínico, e se o transtorno de aprendizagem for comprovado, será necessária muita dedicação em casa com o auxilio familiar e em sala de aula.

É importante o aluno entenda seu problema, e o professor mostre ao mesmo suas competências e a capacidade de ter uma vida normal desde que seja dedicado. Também é papel do educador ser flexível nas atividades e na leitura, ao passar tarefas, por exemplo, sempre pedir a criança se ela entendeu suas instruções e disponibilizar a criança, leituras com temas que ela goste evitando que o aluno sofra bullying por seus colegas.

O papel dos pais

Os pais devem ter conhecimento do problema do filho e serem orientados a lidar com ele de forma correta, estes são os principais responsáveis pelo elo de ligação a criança, a escola e os especialistas, por isso é preciso que haja confiança entre ambas as partes envolvidas.

De acordo com Muxfeldt, a função da família é fazer com que o filho se sinta forte e confiante. É preciso que os pais passem por um período de adaptação, em que com o auxilio profissional, encontrarão a melhor forma de ajudar o filho.

Para ela, é essencial a criança disléxica a presença e o auxilio dos pais nos momentos de dificuldade. Isto faz com que o problema pareça menor, já que a criança terá a sensação de proteção e de apoio. É importante também ajudá-la a entender que cada pessoa é diferente da outra, mesmo entre as que não possuem nenhuma dificuldade.

De acordo com Misaki, os pais precisam ser mais presentes na vida dos filhos, e entender que eles precisam de atendimento especializados. “Meus pais são de igreja, e por esse motivo, eles acreditavam que eu não precisava de auxílio científico, porque Deus iria me curar! Eu acredito em Deus, não sou ateia, mas acho que o atendimento médico e psiquiátrico é necessário ao disléxico, e o quando antes ele acontecer, melhor será sua adaptação”, afirma.


Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná..
Saiba como escrever na obvious.
version 8/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Renan Bini
Site Meter