Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

Devemos discutir gênero em sala de aula?

O papel da escola é formar cidadãos críticos e romper com a intolerância e o preconceito


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Entendendo a sala de aula como um ambiente, fruto das mais diversas discrepâncias sociais e culturais, e considerando a importância do bom desenvolvimento subjetivo dos alunos para o futuro, compreender a fase de transição da Pós-Modernidade e o porquê de muitos conflitos sociais modernos, a partir do viés da psicanálise, torna-se fundamental aos profissionais da educação. Abordando a temática, o livro Sublimação, ato criativo e sujeito da psicanálise, desponta-se como uma ótima opção para conhecer mais sobre o assunto.

A partir das reflexões apresentadas na obra dda doutora em psicologia e professora do curso de Psicologia do Instituto Filadélfia de Londrina, Zeila Facci Torezan, é possível refletir acerca dos índices de violência (simbólica ou não), distribuídos por todas as classes, frutos do isolamento social, da virtualidade das relações humanas advindas da modernização e das novas formas de adoecimento, como a depressão, principalmente entre crianças em idade escolar.

De acordo com a autora, não é possível considerar a subjetividade como desgarrada ou independente de um contexto sócio-histórico. Sendo assim, entende-se que a formação subjetiva está intrinsecamente ligada aos paradigmas sociais vigentes e, considerando a atual fase de transição influenciada pelo hibridismo cultural Pós-Moderno e pelo niilismo, Torezan argumenta sobre os novos parâmetros que regulamentam a organização familiar e como eles influenciam a formação identitária dos adolescentes: “Cada vez mais autônoma em relação ao laço social, e atravessada pelo lema dos direitos iguais, a família sofre uma espécie de achatamento em suas relações e de dissipação da autoridade parental. Masculino e feminino já não guardam as diferenças de outrora, vivemos sob o imperativo de uma particular ética contemporânea caracterizada por uma apologia do consumo em conjunto com efeitos nefastos do enfraquecimento da lei na cultura, da suposta superação humana de todo e qualquer limite e da anulação das diferenças”.

A partir da reflexão proposta por Torezan, e considerando como objeto de reflexão e análise, o processo de formação subjetiva em sala de aula, visando à formação de cidadãos críticos e livres de forma igualitária, entende-se que a desconstrução dos mais diversos preconceitos por meio da orientação dos professores é extremamente necessária e aceita pela maior parte da sociedade. Porém, quando o preconceito a ser combatido é especificado, muitas pessoas mudam de posicionamento.

Considerando a questão de gênero, por exemplo, de acordo com o historiador, doutor em educação e professor da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), Paulo Humberto Porto Borges, a sociedade está pautada em expectativas em relação ao papel social que cada indivíduo irá cumprir na sociedade a partir do sexo biológico. Assim, debater a temática em sala de aula é uma forma inclusive de garantir os Direitos Humanos: “O papel da escola é romper toda intolerância e preconceito. Eu costumo falar que a escola é o local que o senso comum não pode entrar. Tem que se debater as coisas de uma maneira mais científica e mais humanizada. Eu entendo que a raça humana tem diversas formas de manifestar sua sexualidade, e a escola tem que deixar isso claro, de forma a garantir que cada ser humano, cada integrante da raça humana se exercite em sua sexualidade seja ela qual for, e a escola não pode replicar teorias machistas, homofóbicas, sexistas, que tolham essa diversidade, essa pluralidade humana”, afirma.

A temática ficou em evidência, recentemente, devido à discussão dos Planos Nacionais, Estaduais e Municipais de Ensino. Em nível nacional, por exemplo, o projeto que foi desenvolvido e discutido por equipes de especialistas nas mais diversas áreas do conhecimento com o intuito de promover a igualdade entre os gêneros, foi apelidado como “ideologia de gênero” e barrado com o argumento de ir de encontro às bases culturais das parcelas mais conservadoras da sociedade. Mas, será mesmo que os professores não devem discutir gênero em sala de aula?

A advogada Clara Becker, que é cristã assídua e representa boa parte da opinião pública, acredita que todos os seres humanos devem respeitar seu sexo de origem, pois aqueles que não o fazem, desrespeitam os desígnios de Deus: “Você já nasce, não tem como querer escolher se vai ser menino ou menina. De jeito nenhum! Minha opinião é não. Desde que o mundo é mundo, pai, mãe e filhos: Isso é uma família. Esse tipo de educação vem de casa, já nas escolas, tem muito o que ensinar, não tem o porquê ficar explicando esse tipo de ideologia de gênero!”, afirma.

Porém, a discussão de gênero vai muito além da questão dos transgêneros (condição onde a expressão de gênero e/ou identidade de gênero de uma pessoa é diferente daquelas atribuídas ao gênero designado no nascimento). De acordo com o doutor em Letras pela UFF (Universidade Federal Fluminense), pós-doutor pela Universidade de Coimbra, Portugal, e professor da Unioeste, Alexandre Sebastião Ferrari Soares, ainda há uma disparidade muito grande entre homens e mulheres: “As mulheres conquistaram muitas coisas a partir do movimento feminista, mas ainda há muitas coisas a serem conquistadas e a briga será diária. As mulheres ainda ganharem menos do que os homens desempenhando a mesma função, é uma questão discriminatória. E como é que a gente muda isso na prática? Discutindo, denunciando, apontando, colocando o dedo na ferida em relação a essas questões. Nosso papel é fazer com que a mulher compreenda que tem tanto valor quanto o homem na sociedade”, declara.

Quem concorda que a discussão de gênero deve ocorrer em sala de aula, é a professora de artes Telma Serafini Boschirolli: “A escola é o local em que o nosso estudante vem para ter o conhecimento científico e uma visão de mundo mais ampliada o possível. Então, esse é o local privilegiado para que ele tire dúvidas, para que aprenda, para que desconstrua preconceitos. O conhecimento nos ajuda a desconstruir aquela coisa do senso comum e a compreender melhor o outro. Então, discutindo gênero e sexualidade com os alunos, você abrirá para eles visões de mundo diferentes. Você possibilita contato com esse mundo real em que ele está inserido, e se você traz essas discussões e as faz de forma democrática, ele vai desconstruir preconceitos e se tornar um cidadão que vai ver o mundo de uma forma melhor”, afirma.

Gênero e sexo

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Apesar de uma parcela significativa da população defender o contrário, a ciência confirma que o gênero nem sempre será atribuído a partir do sexo designado no nascimento. Segundo a doutora em genética pela USP (Universidade de São Paulo), Luciana Paula Grégio D'Arce Rodrigues, “o sexo biológico começa no momento da fecundação com a determinação da fecundação de um óvulo com o espermatozoide, quando o espermatozoide pode ser y ou x, e se um espermatozoide x fecundar um óvulo, se formaria um embrião do sexo feminino, e caso um espermatozoide y fecundasse, nasceria um indivíduo do sexo masculino. Entretanto, essa é a primeira instância da determinação do sexo biológico. Depois que se define cromossomicamente, o segundo passo é um gene que está principalmente no cromossomo y que iria engatilhar a via masculina que é chamado de gene do fator determinante testicular. Neste caso, quando o gene está presente, se desenvolve o sexo masculino, e se o gene estiver ausente, o sexo feminino. Se o gene está presente, primeiro ocorre o desenvolvimento das gônadas internas e, posteriormente, das genitálias externas. Porém, dentro da biologia, nós sabemos agora, com o avanço da genética, que o comportamento também influencia a questão de gênero e da sexualidade. Então, a gente ainda considera, dentro da genética, a escolha do indivíduo quanto à sua sexualidade no futuro, que teria influências genéticas e comportamentais”, afirma.

De acordo com a psicanalista Rita Kassab, a transexualidade é uma questão séria: “Além do indivíduo não manter desejos sexuais pelo sexo oposto, tem a dificuldade da aceitação do próprio corpo. Além do conflito e da pressão social, de você ser excluído da sociedade, de uma certa maneira, há também uma questão muito pessoal no sentido da não aceitação do próprio corpo e isso gera um conflito imenso, um transtorno muito grande, uma infinidade de angústias, a falta de aceitação e transtornos psicológicos e emocionais severos”, relata.

Segundo Rodrigues, considerando a perspectiva genética, o desejo sexual e a construção da identidade de gênero dependerá da constituição genética e de fatores ambientais. “Geneticamente falando, existem algumas evidências de um gene do cromossomo x, e um outro gene do cromossomo 8, que foi feito num estudo entre 400 homossexuais. Em cerca de 330, havia esse alelo em comum em indivíduos homossexuais, alelo esse que estaria ausente em indivíduos heterossexuais. Se está realmente no cromossomo x ou no cromossomo 8, ainda não se tem certeza, mas existe uma evidência genética, inclusive comparando dados de núcleos hipotalâmicos que são diferentes entre homossexuais e heterossexuais; existe a questão de que os homossexuais sentem um cheiro diferente para o homem em resposta aos ferormônios masculinos. Então, se não fosse geneticamente determinado, por que o comportamento definiria que ele sente um cheiro de um homem, se ele se atrai mais por um homem do que por uma mulher?”, questiona.

Sala de aula

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A professora transexual Jaqueline Denardin acredita que todos nascem com o sexo definido. Porém, defende que a escolha do gênero deve ser permitida caso o indivíduo não se identifique com o sexo de origem: “Tem a ver com o como eu quero ser vista, como eu quero ser tratada e quais os valores que eu quero assumir. É importante ter o conhecimento sobre esse assunto, sobre a transexualidade, homossexualidade, bissexualidade, porque hoje nós temos um número considerável de alunos que estão nessas condições, que são homossexuais e se assumem, que são transexuais e se assumem... Nós estamos inseridos em um contexto diferente e nós precisamos ter o conhecimento de como trabalhar com os alunos, de como inserir esses conteúdos enquanto currículo, porque, nós vamos voltar a excluir essas pessoas?”, questiona.

De acordo com o professor Alexandre Sebastião Ferrari Soares, o papel da escola, quando ela traz a discussão de gênero em sala de aula, é fazer com que as pessoas pensem a respeito. “O que a gente não pode querer é que essas discussões não passem pela questão do ensino, porque são fundamentais. O preconceito a gente já aprende na família. A gente sabe respeitar o que é igual. No entanto, na escola, nesse ambiente mais democrático, a gente vai encontrar aquelas pessoas que não são iguais a nós, e é exatamente nesse ambiente heterogêneo que você estará exposto a essas situações de diferença. Então, a escola, quando traz essa discussão à sala de aula, faz com que, ao menos, os alunos possam pensar de forma diferente daquela com que ele era acostumado ou que ele percebia”, afirma.

Segundo a professora do Colégio Estadual Presidente Costa e Silva, Benilde Teresinha Depubel, a orientação a respeito de como abordar a temática em sala de aula, é a de que se o professor ou professora tiver o preconceito na casa dela, esse preconceito não pode ser trazido ao trabalho. “Se a pessoa possui determinada religião na casa dela, ela não pode fazer o proselitismo aqui da igreja dela. Ela não pode falar ‘reze para Deus lhe tirar essa vontade de ser homossexual’ porque na igreja dela consideram isso correto. A tolerância parece ser uma coisa muito legal, mas não é. Eu tolero você. Então eu tolero homossexual, eu tolero a sua religião. Isso está significando que eu não aceito e nem respeito. Nós estamos em um estágio tão rudimentar, que estamos ainda tentando chegar à tolerância, que não é uma coisa legal, mas nem até ela a gente chegou, porque tem gente que não tolera. A gente gostaria de chegar à solidariedade, mas para chegarmos à solidariedade, é necessário chegarmos primeiro à aceitação. Antes da aceitação vem a tolerância, e nem lá a gente chegou ainda”, afirma.

De acordo com o professor de geografia, Nelson Douhi, o aluno já chega com uma carga preconceituosa da família, então, “a função da escola, a função do professor, é fazer com que as pessoas sejam respeitadas de acordo com aquilo que elas consideram o correto para elas. Algumas questões, dentro da concepção de convivência de cada um, podem até ser consideradas incorretas, mas, se legalmente é permitido, as pessoas têm que aceitar. É algo que o professor tem que trabalhar dentro da sala de aula, que o respeito deve existir independente do seu gosto ou do que você acha que é certo ou não é, e sim do que é legal”, declara.

Douhi afirma ainda que a interação é necessária para o desenvolvimento pleno do indivíduo, e “a partir do momento em que o aluno sofre preconceitos devido à orientação sexual, ao gênero, ou à outra característica, prejudica-se o seu desenvolvimento pleno, que ocorre por meio da interação social, a participação em grupos para o desenvolvimento de atividades. Então, quando o aluno é excluído por causa disso, ele passa a ser prejudicado. Nós não temos casos extremos aqui no colégio, tivemos algumas situações leves de preconceito que conseguimos contornar bem, trabalhar bem, mas nós temos inúmeros casos de outras realidades que a gente sabe até de suicídio de alunos que passaram por discriminação”, afirma.


Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná..
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