Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

Ébano e Marfim

Reconhecer as desigualdades raciais e combatê-las para lutar contra o racismo


ébano.png

Ébano e Marfim vivem juntos em perfeita harmonia, lado a lado no teclado do meu piano. Oh Senhor, por que nós não vivemos? Nós todos sabemos que as pessoas são iguais onde quer que seja e que há bondade e maldade em todos! Nós aprendemos a viver, aprendemos a dar um ao outro o que precisamos para sobrevivermos, juntos, vivos... A música de Paul McCartney, originalmente intitulada Ebony and ivory, em inglês, traduz a questão da discussão racial.

Por que ainda discutimos a questão racial no Brasil? Por que ainda há divergências tão evidentes referente à qualidade de vida de negros e brancos? 127 anos depois de a Lei Áurea ser sancionada, a população negra brasileira enfrenta um abismo de desigualdades. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população negra é a mais vulnerável à pobreza: sete em cada dez residências que recebem Bolsa Família são chefiadas por negros, além disso, a taxa de analfabetismo é duas vezes maior entre os negros e, em média, possuem rendimento salarial 40% menor do que dos brancos.

Segundo a doutora em Psicologia e professora universitária, Ana Luiza Julio, “sem sombra de dúvidas há racismo no Brasil e ele é do pior tipo, ainda que não haja o melhor tipo, mas digo pior tipo, porque ele é, em geral, dissimulado, dificultando desta forma, que se possa reagir com maior vigor, para combatê-lo. Dissimulado, ele nos quer faz crer que não existe. Supõe que o (a) negro(a) seja paranóide, que tem complexo de perseguição. Dissimulado, ele inverte o sentido e faz com que os(as) negros(as) sejam os responsáveis pelo racismo”, afirma.

Nesse sentido, considerando que os preconceitos são culturais e que a escola é um importante instrumento de formação crítica e de desconstrução de preconceitos por meio do conhecimento científico, entende-se que é papel das instituições educacionais, não apenas fazer com que os alunos conheçam os aspectos socioculturais e históricos das origens da miscigenação brasileira, entre elas, as afro-brasileiras, como também, que compreendam a importância do desenvolvimento igualitário, entre as raças.

A Lei 10.639 regulamenta o ensino e o debate da história e da cultura afro-brasileira e africana nas escolas, no entanto, a maioria dos cursos de licenciatura não preparam suficientemente os professores para lidar com a questão. A professora de matemática Andressa de Lima relata que nunca houve nenhuma discussão relacionada ao assunto durante a graduação: “Se tivermos que lidar com isto na escola, nós mesmos teremos que ir em busca de alternativas para lidar com o racismo. A cultura afro-brasileira é importante porque faz parte das nossas origens. Acredito que deveriam haver palestras e cursos com reflexões e orientações a respeito”, relata.

Infelizmente, a ausência do debate em cursos de nível superior não ocorre apenas na área de Exatas. O professor Johnatan Silva, formado em Artes e Música também lamenta a falta da discussão em sua área de conhecimento. “Não devemos julgar os negros por serem negros e muito menos laurear o branco pelo mesmo motivo, porém, todos sabem que o Brasil é um dos países mais racistas apesar de sua variedade de tons de pele. Em prosa, meu tom de pele é brasileiro, não tenho uma cor, tenho uma cultura, creio que seja bom ressaltar essa parte”, afirma.

Sobre a formação de professores e a preparação em relação à temática, a doutora Ana Luiza analisa: “A formação é nula, ou quase nula. Dever-se-ia estudar, promover palestras, discussões. Esta é uma temática muito importante, que os professores fazem vistas grossas, e fingem não haver a demanda. Fingem ter coisas mais importantes a serem conhecidas e trabalhadas. É um equívoco. A nação brasileira é diversa e precisa encarar isto de frente. Precisa aprender a conhecer e lidar melhor com o outro”, comenta.

De acordo com ela, as universidades precisam entender a importância do combate ao racismo e se comprometerem com esta política, que implica na inclusão social dos(as) negros(as), na valorização da identidade negra e de que, sobretudo universidade vem de universal: “como é possível um grupo se sobrepor sobre outro e considerar-se hegemônico? E qual é o lugar do universal? Quem define o que é mais importante?”, indaga.

Escravidão

O Brasil, enquanto nação, está intrinsecamente ligado ao continente africano pela história e pela cultura. Há 200 milhões de anos, o litoral brasileiro e a costa oeste africana estavam ligados em um só continente. Há cinco séculos, com os territórios já nas posições atuais, milhares de negros atravessaram o oceano que os separa e assumiram obrigatoriamente a função de construir o país. Do século XVI ao século XIX, o tráfico negreiro e a escravidão foram responsáveis pela economia brasileira, definindo o presente do país.

Questionada sobre o histórico brasileiro a respeito da exploração dos negros por meio da escravidão e, o porquê de ainda haver entre os brasileiros uma cultura de desvalorização dos negros, a doutora Ana Luiza explica que há um mecanismo psicológico que tende a ser bastante utilizado pelos que sofrem e precisam conviver com seus agressores, chamado “identificação com o agressor”: “Nele, o agredido tende a identificar-se com aquele que lhe agride. E isto acontece quando a pessoa não suporta mais viver junto aos que lhe oprimem. Identifica, não por covardia, mas por falta de esperança de que a igualdade um dia voltará a ter valor humano. Ao identificar-se, o preconceito de cor e o racismo ficam esvaziados, quase nulos. Isto faz com que, pelo menos aparentemente, superficialmente, o negro deixe de sentir os malefícios que vivenciam na própria pele. Desvalorizar uma pessoa apenas pelo seu pertencimento racial é uma manifestação da pequenez humana”, afirma.

Sala de aula

Reconhecer as desigualdades raciais e combatê-las, seja ideologicamente por meio de reflexões em sala de aula, seja por meio de programas de inclusão, é lutar contra o racismo. Apesar de a lei 10.639 valer a mais de dez anos, ainda são poucas as escolas em que o ensino da cultura afro-brasileira é incorporado no cotidiano escolar.

O professor Johnatan Silva acredita que, por se tratar de crianças, não é possível evitar que o racismo se manifeste, porém, é possível, a partir da interação, amenizar o preconceito, ou até mesmo desconstruí-lo: “Em sala de aula nós costumamos interagir socialmente com todos para que não haja superioridade em classe. Sobre isso, acho importante ressaltar que eu trato a beleza negra, branca e aborígene como iguais. Tenho alunos de todas as cores e não deixo isso afetar a convivência entre eles”. O professor declara ainda, considerar de extrema importância abordar a história e a cultura africana em suas aulas. “Temos negros que não sabem a origem do Brasil, que não conhecem a história da escravidão e como foi abolida”, afirma.

De acordo com a doutora Ana Luiza, que trabalha com nível superior e, atualmente com formação de professores, em seu campo é muito tranquilo. “A maior parte dos adultos que buscam esta profissão está aberta para lidar com a realidade circundante e reconhece a diversidade humana. Aqueles que não conhecem, mas querem ser professores, estão querendo conhecer, querendo se preparar. Esse povo das licenciaturas é diferente. É gente que gosta de gente”, declara.

Sobre o cotidiano escolar das séries iniciais ao ensino médio, ela relata: “a sala de aula de ensino básico e médio, não conheço em suas peculiaridades, por que nunca trabalhei com estes níveis de ensino, mas sei que as crianças e os jovens são o reflexo da sociedade em que vivem; e das famílias. Então se suas famílias são racistas, as crianças serão também e vão apontar isto na sala de aula quando tiverem que conviver com as diferenças raciais. Mas também há muitos professores racistas e a manifestação disto é o resultado que se vê em sala, quando coincide que os negros tenham sempre piores resultados que os outros alunos não negros”, ressalta.

Considerando a importância do desenvolvimento de um currículo escolar de base “afrocentrado”, como define o professor doutor em Filosofia, Renato Nogueira dos Santos Júnior, uma forma de incluir discussões filosófico-culturais em relação à cultura africana em sala de aula, é abordando a noção de tempo. De acordo com a pesquisa publicada na revista África e Africanidades pelo professor, enquanto as sociedades ocidentais modernas valorizam o tempo a partir do futuro, procurando o progresso e a construção de um futuro sempre melhor do que o presente e percebem o passado como um lugar menos avançado, para a visão africana, o passado, por meio da ancestralidade, oferece as respostas para o presente. Assim, a dica é que a partir de conceitos da filosofia africana, ao abordar a história afro-brasileira, os alunos passem não a devotar um passado idealizado, muito menos uma África mítica, mas sim, que compreendam a importância de aprender com as gerações mais antigas que o presente só é possível pelo passado que o antecede.

Cotas

Para Ana Luiza, as cotas são importantes e necessárias. Elas tiram os negros de um lugar de pouca expectativa de vida e os lança na Universidade para lhes fazer crescer cultural e economicamente. Tira-os da marginalidade e lhes propõe crescimento, por meio da graduação e da experiência nos bancos universitários: “É um movimento contrário ao da sociedade excludente. Nas cotas, discrimina-se positivamente justamente aquele grupo que esteve socialmente discriminado. É uma alavanca, talvez a principal. É uma alavanca necessária e, a partir dela, muitos negros(as) transformam sua condição de periférico, para um sujeito com lugar social”, afirma.


Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Renan Bini