Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

Identidade cultural brasileira e pós-modernidade

Hibridísmo, relativismo e estereótipos norteiam a construção da identidade nacional


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A ideia de definir uma possível identidade nacional confunde-se com a definição de uma subjetividade coletiva, como se houvesse a possibilidade de uma homogeneização do todo. Se fosse possível determiná-la, assim como as singularidades dos seus, levar-se-ia em consideração, fatores biológicos e a-biológicos.

Para o pesquisador e expoente da teoria dos estudos Culturais, Stuart Hall, em seu livro “Identidade Cultural e Pós-Modernidade”, o próprio conceito com o qual estamos lidando, “identidade”, é demasiadamente complexo, muito pouco desenvolvido e muito pouco compreendido na ciência social contemporânea para ser definitivamente posto à prova. Como ocorre com muitos outros fenômenos sociais, é impossível oferecer afirmações conclusivas ou fazer julgamentos seguros sobre as alegações e proposições teóricas que estão sendo apresentadas.

Cada parte é fundamental para a definição do todo, assim, parece mais cômoda a definição de identidade nacional brasileira como a “mistura”. Sem mais análises e aprofundamento de estudo sobre a cultura brasileira, esta, momentaneamente, aparenta ser a solução eficaz para justificar um nacionalismo ou homogeneização cultural.

Segundo o historiador Renato Ortiz, autor do livro “Cultura Brasileira & Identidade nacional”, o problema inicia-se quando as particularidades são estagnadas pelo majoritarismo ideológico dominante. A ideia de hierarquia apresenta-se subentendida em todos os cenários nacionais, seja na mídia, ou na opinião pública a respeito do ideal nacional ou o conservadorismo.

Nessa perspectiva, o homem branco, católico apostólico romano, heterossexual, chefe de família e pertencente à alta classe social brasileira, desponta-se como ideal e modelo para o “correto”. No entanto, essa não é a realidade nacional. A população é formada pelas discrepâncias, e essas são majoritariamente antagônicas.

A colonização no continente americano procedeu-se de maneira divergente, coerente às necessidades de cada metrópole. Como colônia de exploração de Portugal, a formação de singularidades nacionais foi vista como ameaças à durabilidade da soberania hierárquica portuguesa em relação ao Brasil, atrasando assim, investimentos na estruturação educacional e cultural brasileira e na formação de uma sociedade crítica.

Diferentemente das colônias britânicas de povoamento, o Brasil e outras colônias de exploração hispânicas na América, não tiveram tempo de consolidar uma identidade cultural nacional. No Brasil, antes que estivesse formada, e que sua população identificasse-se com o patriotismo, foi fortemente afetada por ideologias importadas da Guerra Fria e da Globalização.

A pressão de um mundo bipolar comandado por USS (União Soviética) e EUA (Estados Unidos da América), obrigou que a brasilidade novamente se submetesse à supremacia cultural de outra nação. A adoção do modelo norte americano como estilo ideal de vida transformou a personalidade do povo brasileiro e incumbiu a queda da democracia perante a ditadura militar.

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O papel da mídia

A intervenção do exterior no Brasil, não restringem-se ao modelo econômico. A fim de desenvolver na sociedade mundial uma identificação com o sistema capitalista e a homogeneização cultural, houve o investimento na produção e massificação cultural, sendo os produtos derivados (destaca-se atenção especial na produção cinematográfica), repletos de inferências e propaganda ideológica propagando o padrão de vida norte americano como o ideal e alcançável a todos desde que seguissem o sistema.

Outro aspecto importante a ser considerado ao analisar a possível identidade cultural brasileira é a Globalização. Os avanços tecnológicos, e a quebra de barreiras como tempo e espaço, disponíveis a boa parte no globo e propaganda ideológica difundida nos meios de comunicação, aumentou a migração dos países emergentes aos desenvolvidos, e hibridizou ainda mais a cultura, mas agora no processo inverso.

Considerando a heterogeneidade etimológica, cultural e econômica brasileira e as constantes influências ideológicas exteriores, a identidade cultural brasileira liga-se atualmente mais a símbolos e estereótipos do que sua historicidade. Para Renato Ortiz, a cultura nacional é composta não apenas por instituições culturais, mas também de símbolos e representações, que aliados ao descontentamento em relação ao subdesenvolvimento, fundamentam a formação do elo entre discrepâncias. Assim, o futebol, apesar de não fazer parte de todas as regionalidades nacionais, aliado ao carnaval, por exemplo, pode ser considerado atualmente a base da unificação da “identidade cultural” brasileira, já que por meio destes, consolida-se a união entre as classes, mesmo que volátil.

Sendo o Brasil um país em desenvolvimento, de realidades heterogêneas e antagônicas, deve-se levar em consideração que apenas a língua e a religiosidade não são suficientes para desenvolver e manter um elo que dê o falso aspecto de unificação. Assim, para mantê-la, surgem através das mídias, por interesses governamentais, aspectos satisfatórios que deem a impressão de pseudo-unidade.

Paralelo às propagandas ideológicas veiculadas nos meios de comunicação inferindo à superioridade hierárquica da política e ideologia norte-americana, infere-se o falso aspecto de unidade entre a nação brasileira. Para suprir essa demanda, são exaltados os aspectos positivos das regionalidades e de comportamentos e comuns entre a população.

Assim, pode-se considerar o futebol não apenas como um meio esportivo, mas também o elo de base formatória da identidade cultural brasileira na pós-modernidade. A alta aceitação do futebol como um meio de unificação, evidencia-se e comprova-se nos elevados índices de audiência das redes televisivas durante transmissões da copa do mundo.

Leia mais em:

PINTO, Virgílio Noya. Comunicação e cultura brasileira. 5. ed. São Paulo: Editora Ática, 2003.

GASTALDO, Édison. Crônicas da Pátria amada: Futebol e identidades brasileiras na imprensa esportiva.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro – 11. ed. – Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

ORTIZ, Renato. Cultura Brasileira & Identidade nacional. 5 ed. São Paulo: Editora Brasiliense s.a., 1994.


Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná..
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