Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

Por que eles vão mal na redação?

Em entrevista pingue-pongue, a professora e doutora em Letras e Linguística, Alcione Tereza Corbari, fala sobre o porquê de tantos alunos terem dificuldades no desenvolvimento de uma das partes mais importantes nos processos seletivos para o ensino superior


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De acordo com dados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2014, dentre as quase seis milhões de dissertações sobre publicidade infantil, temática da edição 2014, apenas 250 receberam 1000, a nota máxima da prova. No outro extremo, mais de 529 mil alunos tiraram nota zero e outros 654.971 ficaram abaixo dos 300 pontos.

Considerando a importância da criticidade e da expressão por meio das palavras, tanto na garantia do ingresso para o ensino superior quanto na postulação de melhores postos de trabalho, entrevistei a professora da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), Alcione Tereza Corbari. Ela defendeu sua tese de doutorado em 2013 na UFBA (Universidade Federal da Bahia), analisando os “elementos modalizadores como estratégia de negociação em textos opinativos produzidos por alunos do ensino médio”.

Por que os alunos, de uma forma geral, apresentam dificuldades para desenvolver a redação em vestibulares?

Alcione: De forma geral, nosso sistema de ensino não consegue dar conta de preparar uma grande parte de nossos alunos para, após 11 (agora 12) anos de educação básica obrigatória, conseguir escrever um texto respondendo adequadamente à comanda e à situação de interação aí simulada. Os textos expressam várias dificuldades, que vão desde a falta de domínio de questões ortográficas e gramaticais (como concordância, regência e pontuação, por exemplo) até a dificuldade de o produtor se colocar como um sujeito que tem algo a comunicar a alguém, o que passa por questões como o domínio da temática abordada e a forma de organizar textualmente a interação naquela situação proposta. Os textos produzidos no vestibular têm apontado que, além das dificuldades relativas ao domínio da língua em sua modalidade escrita, são recorrentes as dificuldades de fazer inferências, decidir adequadamente sobre os conteúdos que precisam ser explicitados ou que devem ficar subentendidos, relacionar as diversas partes do texto de maneira coesa e coerente, usar estratégias argumentativas adequadas, calcular os conhecimentos compartilhados com os potenciais leitores (ainda que virtuais), enfim, de compreender as características linguísticas e pragmáticas do gênero requerido. No que tange à temática, têm mostrado pouco conhecimento (ou mesmo desconhecimento, em alguns casos) de temas socialmente relevantes e dificuldade em apresentar uma posição em relação a eles. Infelizmente, o que se vê de forma bastante recorrente são textos que apresentam, em menor ou maior grau, argumentos frágeis ou estereotipados, que são mal estruturados, confusos e incoerentes (tanto em relação à comanda quanto internamente ou em relação aos conhecimentos socialmente partilhados).

O mesmo grau de dificuldade é percebido em relação à interpretação de questões mais complexas (questões do ENEM, por exemplo). Em sua opinião, quais são as possíveis causas da dificuldade?

Alcione: A escrita é uma atividade complexa que envolve aspectos linguísticos, cognitivos e sociais. Entendo que esses testes requerem conhecimentos de ordem linguística, social e interacional mais elaborados do que exigira uma interação oral ou, por exemplo, a escrita de um bilhete. São conhecimentos que se consolidam com a prática constante de leitura, escrita e reescrita. E são justamente esses conhecimentos que permitem que o candidato, primeiro, entenda a comanda e, depois, responda a ela adequadamente. Na escola pública (que é a enseada que eu conheço, quer como aluna, quer como docente), as causas desse problema estão diretamente ligadas a um fator que perpassa todas as disciplinas, e não atinge apenas a Língua Portuguesa: a qualidade da educação. Esta, por sua vez, depende de muitos fatores, que passam, claro, pela formação adequada do professor, pelo interesse e compromisso dos alunos e suas famílias, mas que estão muito imbricadas com as políticas de governo, que, infelizmente, não têm apresentado saldo positivo na área da educação, tanto no que tange aos investimentos em estrutura física e de recursos humanos quanto à valorização do profissional (29 de abril e seus desdobramentos estão aí para exemplificar). Ademais, há aspectos que fogem do domínio da escola, como a indisciplina, a falta de perspectivas do aluno, a falta de prática de leitura e escrita, entre outros, que são problemas estruturais que vão muito além dos limites do colégio.

Você acredita que os alunos que concluem o ensino médio público possuem conhecimentos suficientes em língua portuguesa para inserirem-se no mercado de trabalho e/ou no ensino superior?

Alcione: Não é raro ouvirmos de professores universitários, de diferentes cursos/áreas, a reclamação de que os acadêmicos não têm as habilidades, no que tange à leitura e à escrita, esperadas de alunos de graduação, e que carregam dificuldades que deveriam ter sido superadas na escola básica. Em 2012, o Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) concluiu que 38% dos universitários não dominavam habilidades básicas de leitura e escrita, sendo caracterizados como analfabetos funcionais. Esse quadro sugere que aqueles que não tiveram acesso ao ensino superior formariam um grupo em situação ainda mais delicada, se partirmos do pressuposto de que entram na universidade os egressos do ensino médio que estão mais bem preparados em termos de habilidades e conhecimentos trabalhados na escola básica. Os relatos de professores de ensino médio e pesquisas diversas endossam essa análise, os quais apontam que há um grande contingente de alunos que chega ao final do ensino básico sem uma formação adequada que lhe permita transitar por diferentes situações de interação de forma confortável. Nesse sentido, pode-se dizer que muitos alunos terminam esse nível de ensino sem ter adquirido conhecimentos e habilidades suficientes para ingressar na universidade ou, tendo ingressado, para acompanhar de forma satisfatória os estudos da graduação. Essa mesma análise vale para a inserção no mercado de trabalho, especialmente em áreas que exigem leitores competentes e produtores de textos, escritos e orais, mais elaborados do que aqueles pertencentes aos gêneros primários.

Como você avalia o nível de criticidade dos vestibulandos?

Alcione: Não posso falar do vestibulando de forma específica, pois não atuo em banca de correção de redações, nem tenho dados relativos ao desempenho médio dos vestibulandos em questões que requerem uma leitura crítica. Mas, de forma geral, as dificuldades relacionadas por professores, quer do ensino básico, quer do ensino superior, apontam para problemas básicos de interpretação e para um baixo nível de criticidade, sendo recorrente a apresentação de argumentos frágeis ou estereotipados, bem como a dificuldade de fazer inferências e de relacionar fatos. Não podemos dizer que a leitura crítica depende única e exclusivamente de conhecimentos e habilidades ligados à modalidade escrita. Leitores plenos (conforme definição do INAF) podem não alcançar um nível elevado de leitura crítica, e leitores com baixo grau de letramento podem ser leitores críticos, como bem exemplifica Patativa do Assaré (ainda que o objeto de leitura não seja um texto verbal). Mas, num sentido mais estrito, o leitor crítico é aquele que tem condições de interagir com o texto, o que depende de uma adequada interpretação, de inferências e de conhecimentos que vão além do âmbito linguístico. Nesse sentido, considerando o quadro já descrito acima, entendo que, de uma forma geral, não conseguimos lograr êxito quanto ao objetivo de formar leitores críticos na escola básica, pelo menos não no nível desejado.

Qual é a importância da formação de leitores críticos e quais os desafios aos professores para o desenvolvimento de cidadãos críticos?

Alcione: A leitura crítica é imprescindível à formação do cidadão, pois a cidadania tem relação com a forma como o indivíduo se insere no mundo e se relaciona com as diferentes esferas da sociedade. A leitura crítica é imprescindível à consciência desse indivíduo em relação a si mesmo, ao outro e ao conjunto de que participa e para seu fortalecimento em espaços de participação social e política. Nosso desafio está em conseguir superar os índices de analfabetismo funcional e avançar no sentido da formação leitores competentes que consigam, mais do que decodificar um texto, interagir com ele, respondê-lo ativamente, que consigam perceber muito além da realidade editada pela mídia, por exemplo, que consigam superar discursos naturalizados; enfim, que consigam perceber o mundo ao seu redor e posicionar-se criticamente em relação a ele.


Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná..
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