Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

Gota d’água de Chico Buarque e Paulo Pontes: Uma releitura da clássica Medéia

Além da intertextualidade com a notória tragédia grega, a peça discute a temática da discrepância social, problematiza a ética e a moral da sociedade contemporânea, e aborda a falácia utópica da meritocracia, apresentando-a como um dos falsos discursos que sustentam as bases do atual sistema.


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Gota d’agua, de Chico Buarque e Paulo Pontes, faz a releitura da tragédia grega “Medéia”, de Eurípides, adaptando-a ao contexto social, cultural, ideológico e econômico brasileiro, mais precisamente, à cidade do Rio de Janeiro, na década de 1970. A partir da visão de Buarque e de Pontes, Medéia transforma-se na sofrida Joana e Jasão torna-se um famoso sambista, autor da canção que nomeia a peça. Segundo Barros (2005):

"A combinação dessas diversas mídias - a dança e a música do candomblé, a interferência do rádio e do jornal na vida das pessoas, o coro das vizinhas fofoqueiras, a coreografia do boato, a canção popular - contribui para abrasileirar a tragédia grega e dar a ela novos contornos culturais" (BARROS, 2005, s.p.).

De acordo com a apresentação da obra, escrita pelos próprios autores, Gota d’água, a tragédia, é uma “reflexão sobre o movimento que se operou no interior da sociedade, encurralando as classes subalternas”. Assim, podemos afirmar que, de forma implícita, a peça discute a temática da discrepância social, além de problemas éticos e morais da sociedade moderna, e aborda a falácia utópica da meritocracia, apresentando-a como um dos falsos discursos que sustentam as bases do atual sistema. Sobre isto, Barros (2005) argumenta:

"Sem condições e perspectivas de melhoria, alguns vêem, no exemplo do sambista cujas canções são tocadas no rádio, a ilusória via do sucesso como possibilidade de ascensão. A gota d’água do espetáculo é o samba de Jasão; é também a condição de Joana, mulher apaixonada que, no seu abandono, é capaz de atitudes extremas; mas é também, e sobretudo, a condição de um povo sem casa, sem chances, sem a voz que lhe reste" (BARROS, 2005, s.p.).

Segundo Barros (2005), elementos da cultura brasileira, como o samba e a macumba, são adicionados ao mito por meio da releitura, além disso, o mito passa a focar nas mazelas sociais a partir do sofrimento dos moradores do conjunto habitacional, que são explorados por Creonte, dono das casas. Além de vários elementos de hipertextualidade presentes na peça, destacam-se: “música, dança, coreografia, iluminação, além do rádio e do jornal, combinam-se para efetuar essa transformação no texto grego” (s.p.).

A partir da leitura de ambas as obras, Medéia e Gota d’água, podemos afirmar que, além da intertextualidade explícita, presente tanto na essência da história quanto na manutenção de nomes de alguns personagens, mantem-se, também, o intuito de fazer com que os interlocutores possam refletir sobre questões sociais e políticas complexas a partir do contato com a peça.

De acordo com Barros (2005), em Gota d’água, Medéia torna-se Joana, mulher do povo e moradora de um conjunto habitacional, e esposa de Jasão, homem mais novo e sambista que passa a fazer sucesso no rádio a partir do apoio que recebe da esposa. O rei Creonte é transposto no dono do conjunto habitacional onde moram os principais personagens da peça, além disso, é pai de Alma, noiva de Jasão.

Segundo a pesquisadora, o coro da tragédia grega, formado pelas anciãs de Corinto, é substituído pelas vizinhas e pelos vizinhos de Joana: Zaíra, Estela, Maria, Nenê, Cacetão, Xulé, Boca Pequena, Amorim e Galego. Destacamos, aqui, que, adaptada às convenções sociais ocidentais modernas, o mito passa a ser apresentado com dois coros: um masculino e outro feminino, cada um apresentando e defendendo um determinado interdiscurso social ligado a questões de gênero. Além disso, ao transpor a pompa e os elementos divinos do texto clássico para a atualidade, a obra pressupõe que as questões humanas, como os sentimentos e os conflitos, são comuns em todas as classes sociais, independentemente se experienciados por reis e príncipes ou por lavadeiras e gigolôs.

Referências

BARROS, Leila Cristina. Tragédia social em Gota d’água, de Chico Buarque e Paulo Pontes: aspectos hipertextuais e intermidiais. Espéculo. Revista de estudios literários. n 31. Universidad Complutense de Madrid. 2005. Disponível em Acesso em 25 fev 2017.

BUARQUE, Chico; PONTES, Paulo. Gota d´água. 32. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. 174 p.

EURÍPIDES. Medéia, Hipólito, As Troianas. Tradução do grego e apresentação de Mário da Gama Kury. 5. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.


Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná..
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