Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

O Formalismo Russo

O Formalismo Russo clássico concentra-se no produto final que a literatura pode produzir: “a própria obra”


kandisnsky.jpg

Inicialmente, torna-se importante destacar que o Formalismo possui diversas correntes e, no presente texto, abordar-se-á, de forma introdutória, a respeito de alguns aspectos da vertente russa aplicada à Literatura. Considerando a influência do contexto histórico sobre a formação deste pensamento, destaca-se que, no início do século XX, a humanidade passou por um período repleto de inovações tecnológicas e paradigmáticas que, consequentemente, acarretam em mudanças artísticas, políticas e sociais, além da Revolução Russa (que influenciou muito na composição do movimento).

A proposta da vertente russa do formalismo literário é a compreensão da forma como os textos literários são constituídos, ou seja, pode-se afirmar que as problemáticas que orientam as análises dos pesquisadores filiados à corrente são: quais as regras que regem o texto literário para que ele possa ser considerado uma obra de arte?; o que pode e o que não pode ser considerado arte?; Assim, os pesquisadores formalistas aplicavam os estudos linguísticos saussurianos, disponíveis na época, ao texto poético. Nessa perspectiva, para ilustrar os aspectos até então abordados, pode-se mencionar um trecho da reportagem especial da Revista Cult, edição de agosto de 1998 que aborda um pouco sobre o trabalho de Chklovski, um dos principais expoentes da corrente:

Chklovski define a arte como a singularização de momentos importantes. Em rigor, os momentos tornam-se importantes somente depois de submetidos ao processo de singularização artística, porque, na vida prática, as coisas se tornam imperceptíveis em sua totalidade. Movido pela pressa e pelo empenho em imediatizar o cotidiano, o homem acaba por perder a consciência individual das ações, dos objetos e das situações. Por isso, abreviam-se palavras, criam-se siglas, desenvolvem-se esquemas para tornar mais rápida a superação dos compromissos e dos contatos com as pessoas. A lei da economia das energias reduz tudo a números ou a volumes sem identidade, processo que objetiva o máximo de rendimento com um mínimo de atenção. Esse processo, pensa Chklovski, resulta na automatização da vida psíquica, pois, em nome da rapidez, anula-se a intensidade do ato de conhecer. Nele, as coisas possuem importância apenas quando reconhecidas, esvaindo-se o entusiasmo da descoberta. O próprio conceito de aprendizado pressupõe o uso automático das noções e dos movimentos. O simples fato de uma ação se tornar habitual basta para desencadear a inconsciência em quem a executa (TEIXEIRA, 1998, p. 36-37).

Assim, de acordo com Even-Zohar (2013), o Formalismo Russo clássico concentra-se no produto final que a literatura pode produzir: “a própria obra” (p. 25). Porém, torna-se necessário destacar aqui que, defender o posicionamento da imanência em relação à literatura, não significa que os teóricos da época desconheciam ou desconsideravam os aspectos extralinguísticos que fazem parte de qualquer obra. Para a corrente, os críticos literários não precisam se preocupar com isso, já que, para considerar a obra como arte é necessário apenas da própria obra. Considerando a função da arte, na perspectiva do Formalismo Russo, de acordo com a Revista Cult:

a principal função da arte seria restaurar a intensidade do conhecimento, promovendo a virgindade dos contatos e o encanto da descoberta. Nesse sentido, o artista deve criar situações inéditas e imprevistas, em busca da restauração do ato de conhecer. Numa palavra, a finalidade da arte é gerar a desautomatização, mediante o estranhamento ou a singularização da estrutura que o artista oferece à contemplação. Se algo aspira à condição de enunciado artístico, precisa ser dito de forma impressionante. Ao contrário do convívio cotidiano com as coisas, o convívio com a arte deve ser particularizado, dificultoso e lento. Tomando o texto poético como metonímia de arte, o morfologista russo entende que a particularização do texto decorre de técnicas específicas aplicadas às palavras, em seus níveis semântico, sintático e fonológico: instaura-se a consciência lingüística da literatura (TEIXEIRA, 1998, p. 37).

Por isso, pode-se afirmar que a corrente em questão se preocupa muito mais com a forma do que com o conteúdo e a relação do conteúdo com fenômenos externos, como aspectos sócio, históricos, ideológicos, culturais, psicológicos, ou contextuais, comuns nas teorias de análise da contemporaneidade: A base do Formalismo Russo é compreender a literatura como autônoma e independente de outra área, por meio da imanência. A partir da teoria, a linguagem poética passa a ser analisada dentro do contexto verbal da mensagem.

Referências

TEIXEIRA, Ivan. O Formalismo Russo. In: Revista Cult. Ed. Agosto de 1998.

Even-Zohar, Itamar. O sistema literário. Trad. Luis Fernando Marozo e Yanna Karlla Cunha. In: Translatio UFRGS. N5. 2013. Disponível em: Acesso em 19 fev 2016.


Renan Bini

Renan Bini é mestrando em Letras-Linguagem e Sociedade; graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo; Acadêmico do curso de Letras - Português/Italiano e suas respectivas literaturas; Discente do MBA em Gestão de Marketing, Propaganda e Vendas; Cofundador da Revista Eduque e Assessor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Renan Bini